Terra Fria

26/07/2006 | Categoria: Críticas

Charlize Theron fica feia de novo em melodrama meio exagerado e previsível sobre assédio sexual

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Boa parte dos 40 longas-metragens que receberam pelo menos uma indicação ao Oscar 2006 versava, direta ou indiretamente, sobre o tema do preconceito. “Terra Fria” (North Country, EUA, 2005) é o mais melodramático deles, e também o mais previsível e burocrático. O filme narra os fatos que levaram um grupo de mulheres mineradoras a entrar na Justiça dos Estados Unidos com a primeira ação coletiva de assédio sexual registrada pelos tribunais do planeta. Apesar do tema atual, contudo, a produção da diretora neozelandesa Niki Caro trabalha nas entrelinhas uma história clássica de Hollywood, ao retratar uma garota lutando contra um sistema machista para vencer na vida.

Esse enredo é sistematicamente aprovado pelas platéias desde o megasucesso de “E o Vento Levou”, em 1939. Por requerer protagonistas firmes e ousadas, também costuma render o tipo de papel que as atrizes de primeiro escalão disputam a tapas. Com “Terra Fria”, não foi diferente; o filme inteiro é construído em torno da personagem Josey Aimes, a mãe solteira de dois filhos que liderou as minerados rumo à Justiça. É um papel talhado para a bela sul-africana Charlize Theron, que vem se especializando em ficar artificialmente feia para realçar o talento dramático em papéis mais desafiadores, estratégia que já lhe rendeu o Oscar em 2004, por “Monster – Desejo Assassino”.

Theron cuidou de colocar a produção sob seus cuidados desde que o projeto não passava de um roteiro circulando pelos estúdios de Hollywood. Vislumbrando o potencial da personagem feminina, tratou de fazer com que o texto chegasse às mãos de outra mulher, Niki Caro, diretora que acabara de fazer um drama sensível sobre globalização e poder feminino, chamado “A Encantadora de Baleias”. A estréia de Caro em Hollywood, portanto, se deu em um filme cujo tema lhe era familiar. Mesmo assim, a diretora sentiu o peso da interferência dos estúdios, dirigiu com mão pesada e entregou um longa-metragem burocrático, repleto de clichês narrativos e personagens estereotipados.

A lista de equívocos começa já na caracterização de Josey Aimes. A personagem de Charlize Theron não poderia ser uma baranga, pois atiça a imaginação de dezenas de trabalhadores de uma mina de ferro em Minnesotta (EUA), que lhe assediam sexualmente no trabalho. Na cabeça dos executivos de Hollywood, contudo, as chances de premiação e boas bilheterias aumentam consideravelmente se a personagem for feia. Por isso, Josey Aimes ganhou um penteado ridículo, um figurino horrível, vocabulário e maneiras masculinas, além de uma função no trabalho que a obriga a terminar o dia toda lambuzada de fuligem. Mesmo assim, ela é o alvo predileto dos machistas de plantão que habitam a pequena e conservadora casta social da cidadezinha no Minnesotta.

Como classe, aliás, os mineiros são retratados como sujeitos feios, sujos e moralmente repulsivos, o que é uma demonstração cabal da falta de sutileza de “Terra Fria”. Em uma mina que emprega centenas de homens, não há um único que trate as mulheres com um mínimo de gentileza ou simpatia; todos são porcos chauvinistas durante 100% do tempo. A mão pesada da cineasta fica clara também na edição final, que não reserva uma única seqüência dentro da fábrica em que a personagem de Charlize seja tratada com alguma cortesia pelos colegas de trabalho. Claro que era ela desrespeitada, mas o filme poderia respirar e se tornar mais realista se não transformasse todos os homens em vilões o tempo inteiro.

O tratamento dado à protagonista fora do trabalho também derrapa no excesso de melodrama. A vida pessoal de Josey é realmente miserável, fazendo dela uma tragédia ambulante. Espancada regularmente pelo marido antes de fugir e voltar para casa, em Minnesotta, a atitude de trabalhar na mina granjeia para ela a rejeição do filho mais velho, que passa a acreditar nos rumores de que a mãe é prostituta, e do pai dela, homem que jamais a perdoou por ter engravidado aos 16 anos de idade. Para completar o dramalhão, “Terra Fria” ainda dá um jeito de fazer uma ligação discutível entre um episódio obscuro da adolescência da garota e o modo como toda a comunidade da pequena cidade a trata.

Todos esses problemas deixam evidente que “Terra Fria” é um projeto de estúdio, que não possui a sutileza de “O Segredo de Brokeback Mountain”, o arrojo elegante de “Capote” ou a inteligência de “Crash – No Limite“, todas obras superiores que versam sobre o mesmo tema do preconceito. Apesar disso, não se trata de um filme realmente ruim; é apenas carente das modulações dramáticas que produzem uma obra de real valor artístico. Como destaque, a fotografia eficiente de Chris Menges, que explora muito bem o contraste entre as paisagens geladas do Minnesotta e os ambientes fechados e escuros da mina de ferro. Junto com a trilha sonora, que emula tristeza a partir de várias canções de Bob Dylan, são as imagens de “Terra Fria” que melhor conseguem exprimir o sentimento de solidão que o filme deseja mostrar.

O DVD é um lançamento da Warner. O enquadramento correto está preservado (widescreen anamórfico), a trilha de áudio tem cinco canais (Dolby Digital 5.1), e os extras incluem um pequeno documentário e galeria de cenas cortadas.

– Terra Fria (North Country, EUA, 2005)
Direção: Niki Caro
Elenco: Charlize Theron, Frances McDormand, Woody Harrelson, Sean Bean
Duração: 126 minutos

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