Terror em Amityville

10/03/2005 | Categoria: Críticas

Famoso relato de casa mal-assombrada vira sucessão de sustos sem pé nem cabeça

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A história da mansão mal-assombrada em Amityville, em Long Island (EUA), ficou mundialmente famosa em meados da década de 1970. Um casal de antigos moradores da casa escreveu um livro relatando fatos assustadores que teriam acontecido com ambos, enquanto moravam na residência. O livro freqüentou as listas de mais vendidos durante muito tempo, o suficiente para alimentar os pesadelos de muitos garotos e, claro, fazer Hollywood comprar os diretos do livro e transformá-lo em filme. “Terror em Amityville” (The Amityville Horror, EUA, 1979) é o fruto cinematográfico de um dos casos de assombrações mais famosos de todos os tempos.

Por alguma razão obscura, no entanto, o longa-metragem não recebeu os cuidados de produção que merecia. Um elenco de relativa fama, na época, foi escalado. Ele incluía a atriz Margot Kidder, que acabava de entrar para o hall de estrelas pela participação como Lois Lane em “Super-Homem”, e um ator ganhador do Oscar, Rod Steiger, em participação especial, além de um candidato a galã de Hollywood, James Brolin. De qualquer forma, parece que os produtores gastaram na contratação do elenco, mas resolveram economizar em outras áreas. A trilha sonora, por exemplo, reutiliza canções compostas para “O Exorcista” que o diretor William Friedkin recusou em 1973. Os atores promissores também foram prejudicados por um roteiro que é um completo desatino de lógica, sem pé nem cabeça.

A rigor, o próprio livro que deu origem ao filme não passa de um relato cronológico de sustos inexplicáveis. O longa-metragem começa quando o casal George (Brolin) e Kathy (Kidder) Lutz, que narra o filme, se muda para a mansão recém-comprada, à beira de um lago. Com um casal de filhos e pouco dinheiro disponível, eles mal acreditam na sorte por encontrar uma residência tão barata, em uma área nobre da cidade. Descobrem, mais tarde, que a casa foi palco de uma tragédia familiar quando, anos antes, um rapaz adolescente matou os pais a tiros. Mas isso não os preocupa.

Uma vez na residência, os Lutz começam a enfrentar situações inexplicáveis. Enxames de moscas, vultos que se esgueiram à noite, janelas e portas que fecham sozinhos e amigos imaginários começam a perturbar a vida dos quatro moradores da mansão. George é o mais afetado pelos eventos: sentindo um frio incomum a toda hora, mesmo diante da lareira acesa, ele se torna um homem indolente, preguiçoso e agressivo. Um padre amigo da família (Steiger), que aparece na casa para benzê-la, toma um enorme susto ao ouvir uma voz ameaçadora alertando-o para ir embora dali. Ele fica perturbado, vai embora e não volta.

Caprichando nas situações de medo, valorizadas por uma fotografia escura e sombria, o roteirista Sandor Stern parece ter esquecido de desenvolver os personagens. Eles são caricaturas tão absurdas que parecem, todos, coadjuvantes. Quem é George? O que ele faz? Como ganha dinheiro para sustentar a família, enquanto permanece febril em casa, durante semanas? E quanto a Kathy? Como é a personalidade dela? É medrosa, apegada aos filhos, desligada ou inteligente? Não sabemos. Como é possível que um padre que sabe da natureza maligna de uma casa deixe uma família ficar lá? Não podemos imaginar. Os sustos se sucedem, mas os personagens jamais são inseridos em uma trama lógica e simplesmente não possuem personalidades.

Além de tudo, “Terror em Amityville” sofre de uma perigosa síndrome que acomete filmes ruins de terror: os personagens parecem ignorar que há algo de errado em certas situações, por mais evidentes que elas sejam. Em certo momento, por exemplo, os Lutz encontram um cômodo secreto na residência, todo pintado de vermelho. O rosto de um fantasma (!) flutua lá dentro. Uma médium que visita o lugar diz que ali fica situada uma passagem para o mundo dos mortos. Mas George e Kathy, mesmo sofrendo de pesadelos diários que os fazem acordar sempre no mesmo horário (3h15), não fazem nada quanto a isso. Não abandonam a casa, não chamam um exorcista. Simplesmente ficam passivos. Esperam pelo próximo susto.

“Terror em Amityville” só sobrevive porque possui, sim, alguns momentos aterrorizantes. O amigo imaginário que aparece para as crianças, por exemplo, é responsável por algumas cenas arrepiantes. Em resumo, o filme de Stuart Rosemberg vai ser visto com uma boa dose de curiosidade por fãs do gênero, mas não se compara a clássicos de filmes com casas assombradas, como “A Casa da Noite Eterna” e “Desafio ao Além”.

O DVD brasileiro, lançado pela Fox, contém o corte do filme em formato widescreen e som Dolby Digital 5.1. É uma edição pobre, sem extras, mas idêntica à importada.

– Terror em Amityville (The Amityville Horror, EUA, 1979)
Direção: Stuart Rosemberg
Elenco: James Brolin, Margot Kidder, Rod Steiger, Don
Duração: 118 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »