Terror em Silent Hill

17/01/2007 | Categoria: Críticas

Longa baseado no famoso videogame de terror tem visual cuidadosamente tétrico e história sem pé nem cabeça

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Se você descobrisse que seu filho tem sonambulismo e repete incessantemente o nome de uma cidade-fantasma enquanto caminha dormindo, qual a atitude que você tomaria? A maioria dos seres humanos normais provavelmente o levaria para ver um psicólogo; alguns talvez preferissem um padre. A personagem principal de “Terror em Silent Hill” (EUA/França/Canadá/Japão, 2006), ao contrário, carrega a criança para dentro do vilarejo assombrado, na esperança de curar o medo. É o tipo de atitude estúpida que os personagens do longa-metragem baseado no famoso videogame cometem o tempo inteiro. Coisas assim o transformam em um filme sem pé nem cabeça, apesar do visual cuidadosamente tétrico.

Silent Hill, a cidade, tem uma história interessante, embora seja obviamente uma ficção exagerada. Fica no topo de uma colina recheada por uma extensa mina de carvão que pegou fogo em novembro de 1974, em um misterioso incidente que matou a maior parte dos moradores. Desde então, o lugar foi fechado e abandonado. Mais de 30 anos se passaram e o fogo continua ardendo nas entranhas da montanha. Uma insistente chuva de cinzas e fuligem envolve os prédios em uma espécie de névoa azulada permanente. Além disso, periodicamente, a cidade é engolida por uma espécie de realidade paralela, habitada por demônios deformados e fantasmas sem rosto.

Esta concepção explica porque “Terror em Silent Hill” é o tipo de filme talhado para ser consumido por designers e diretores de arte. Nas mãos do cineasta francês Christophe Gans, responsável pela aventura “O Pacto dos Lobos”, o filme vira um verdadeiro banquete visual. A fotografia de Dan Lausten é um destaque, abusando de ângulos inusitados (por vezes a câmera sobe em ângulo reto de 90 graus e roda sobre si mesma) e aproveitando ao máximo os cenários desolados criados pela equipe de arte. Da mesma forma, a maneira encontrada para mostrar a transição entre as duas realidades (os prédios e ruas “descascam”) é criativa.

Infelizmente, o trabalho visual bem feito não ajuda em nada a abafar os problemas da história, como os diálogos incrivelmente pobres e as atitudes inexplicáveis tomadas por personagens rasos e superficiais. A já citada ação idiota de Rose (Radha Mitchell) faz com que, por causa da burrice incrível, a menina desapareça dentro da cidade assombrada. Depois, o filme recorta pedaços de outras obras bem mais interessantes (o quarto do hotel de “O Iluminado”, a criança vingativa de “Carrie – A Estranha”) para compor uma história confusa. O elenco interessante (Mitchell, Sean Bean e uma irreconhecível Deborah Kara Unger) não tem muito a fazer, além de correr, gritar e fazer cara de susto. Lamentável.

O longa-metragem só não é uma decepção completa porque Gans consegue manter um fiapo de atenção ao manter em segredo alguns elementos da história. O diretor sugere que a filha de Rose, uma garotinha adotada, tem algum tipo de ligação sobrenatural com o lugar – ela sonha com os subterrâneos fervilhantes da cidade e desenha cenários muito parecidos com os prédios cobertos de fuligem. Dessa forma, enquanto tentam pesquisar algo sobre o misterioso incêndio que fez a cidade torrar, os personagens vão descobrindo detalhes insólitos sobre os moradores do lugar, do passado e do presente.

No entanto, nem mesmo a dose extra de mistério consegue salvar o longa-metragem da mediocridade, porque a partir dos 60 minutos, a estratégia começa a cansar e os sustos ficam mais raros. Christophe Gans ainda comete o erro de inserir grande quantidade de cenas de violência extrema, geralmente sem objetivo, apenas para fazer referências ao game que deu origem à produção. São aparições de criaturas deformadas que se se movimentam lentamente em direção aos personagens humanos, ou corpos vagamente humanos enrolados em quantidades descomunais de arame farpado.

Vale observar que “Terror em Silent Hill” evoca, como o recente “Viagem Maldita” (2006), um fenômeno real, curioso e muito norte-americano: a proliferação de pequenas seitas de fanáticos religiosos que, não raro, distorcem ensinamentos cristãos até as raia da violência. Aqui, toda a parte final – que inclui uma reviravolta até certo ponto interessante – se apóia nessa idéia. Ao contrário do filme do também francês Alexandre Aja, contudo, não há nenhum tipo de subtexto ideológico ou comentário político disfarçado; há, apenas e tão somente, o desejo insaciável de entreter.

O lançamento em DVD é da Sony. O disco é simples e traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Featurettes sem legendas estão entre os extras.

– Terror em Silent Hill (EUA/França/Canadá/Japão, 2006)
Direção: Christophe Gans
Elenco: Radha Mitchell, Sean Bean, Laurie Holden, Deborah Kara Unger
Duração 127 minutos

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