Terror na Ópera

25/01/2007 | Categoria: Críticas

Divisor de águas na carreira de Dario Argento, filme é um thriller caro cheio violência gráfica e câmera sofisticada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Via de regra, “Terror na Ópera” (Opera, Itália, 1987) é considerado o filme divisor de águas na carreira do cineasta italiano Dario Argento. O fracasso retumbante desta que era, na época da realização, a mais cara e comentada produção italiana de todos os tempos, não apenas atirou a carreira do diretor em um limbo monumental, mas também jogou-o em profunda depressão. Curiosamente, visto em retrospectiva, o filme talvez seja aquele que reúne maior número de características importantes da obra do diretor, para o bem e para o mal. O capricho na estilização visual é tanto, e tão meticuloso, que talvez tenha estragado a película, tornando-a artificial em demasia.

Quem conhece o trabalho de Argento sabe que, em cada o filme, o diretor sempre deu um jeito de criar duas ou três seqüências sofisticadas, que envolvem coreografias e movimentos de câmera ultra-elaborados. Em “Terror na Ópera”, porém, praticamente todas as seqüências são realizadas desta forma espetacular. E o exagero acaba por neutralizar a beleza deste procedimento. Se as duas ou três grandes cenas por filme se tornaram inesquecíveis, gravadas na memória de cada cinéfilo, aqui há tantas dela que ao fim da projeção o espectador corre o risco de não lembrar mais de nenhuma. Sabe quando a gente como tanto chocolate que enjoa? É a mesma coisa aqui. Uma única barra poderia deixar um gosto de “quero mais” bem mais efetivo no paladar cinéfilo de cada fã.

Uma análise rigorosa e detalhista, inicialmente, é amplamente positiva. A idéia básica é muito simples: um assassino mascarado persegue obsessivamente uma jovem soprano (Cristina Marsillach), cometendo crimes horríveis e obrigando-a a testemunhá-los com um artefato que lembra bastante a máquina de tortura de “Laranja Mecânica”, o filme de Kubrick. Argento capricha especialmente na violência gráfica das mortes, tornando-as particularmente sádicas e sangrentas. A violência extrema, aliada à música bombástica (heavy metal e ópera se alternam em doses iguais) e ao refinamento da fotografia, ajuda a construir uma atmosfera onírica, de pesadelo, sem a mínima pressa – a primeira morte só acontece aos 25 minutos, e quem morre é um pássaro.

Obviamente, há seqüências impressionantes e perfeitamente construídas, como a originalíssima morte que atinge certa personagem pelo olho mágico da porta da frente, e o instante em que Betty, a soprano, fica sozinha com o assassino dentro de um apartamento escuro (e a câmera pulsa no mesmo ritmo do coração da garota, criando um efeito de tensão espetacular). A abertura, embora tecnicamente simples, gera também uma imagem inesquecível, aterrorizante, sinistra: um corvo, em primeiríssimo plano, gorjeando dentro de um opulento teatro secular. O animal faz parte de uma encenação pop de “Macbeth”, a famosa ópera de Giuseppe Verdi.

Por outro lado, há que se observar que o cinema de Argento nunca foi feito para o paladar de muitos. Seu estilo excessivamente meticuloso sempre lhe roubou o naturalismo, conferindo às tramas um ar artificial absolutamente indisfarçável, algo reforçado por outros dois elementos: o aparente desleixo em resolver as situações de tensão (os personagens sempre tomam decisões incrivelmente estúpidas, algo que só acontece em filmes ruins) e a péssima direção de atores, que sempre aparecem teatrais e empostados demais (embora este elemento aqui se ajuste melhor à história, já que boa parte das cenas ocorre de fato em cima de um palco).

O fato é que “Terror na Ópera” fracassou de forma retumbante nos cinemas. Os arroubos operísticos desagradaram a parte dos admiradores fiéis, e não ajudaram nem um pouco a conseguir um novo público. Argento entrou em depressão, passou a duvidar da própria capacidade criativa, e sistematicamente passou a ser visto com desconfiança pelos produtores italianos. A partir deste filme, o cineasta não hesitou em se repetir indefinidamente, sem ousar – e, pior, quase sempre em filmes de baixíssimo orçamento, o que lhe cortou de vez as asas no que toca aos balés que criava com a câmera. Uma pena. “Terror na Ópera” merece uma boa conferida.

O filme nunca foi lançado no Brasil em DVD, mesmo tendo diversas edições nos EUA e na Europa. A melhor delas é a da Anchor Bay, empresa que tem um catálogo invejável de filmes de horror. Nela, o disco tem um documentário (36 minutos) e a obra restaurada, com certificado THX, sempre garantia de qualidade. A imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e o áudio (Dolby Digital 6.1 em inglês) são ótimos.

– Terror na Ópera (Opera, Itália, 1987)
Direção: Dario Argento
Elenco: Cristina Marsillach, Ian Charleson, Urbano Barberini, Daria Nicolodi
Duração: 107 minutos

| Mais


Deixar comentário