Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas, O

11/06/2008 | Categoria: Críticas

Última parte da trilogia das bruxas do italiano Dario Argento é um equívoco do começo ao fim

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O italiano Dario Argento precisou de três décadas para finalizar seu projeto mais ambicioso: uma onírica e sangrenta trilogia sobre um trio de irmãs bruxas que liderariam seitas malignas no mundo ocidental. Por razões principalmente financeiras, a terceira parte desta trilogia só veio ao mundo 27 anos após o lançamento do filme do meio, “A Mansão do Terror” (1980). Como o primeiro segmento da história – “Suspiria” (1977) – é considerado pelos especialistas como a obra-prima da carreira de Argento, as expectativas sobre “O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas” (La Terza Madre, Itália/EUA, 2007) eram as mais altas possíveis. Infelizmente, Argento não foi capaz de saciá-las, realizando um horror infantil e datado (no pior sentido da expressão).

Na realidade, Dario Argento vem sendo cultuado por certos ciclos cinéfilos que valorizam, na obra do cineasta, a coragem com que ele sempre se lançou em projetos autorais. Isso é algo de fato admirável, já que Argento nunca se curvou às vontades da indústria cinematográfica, mesmo militando em um gênero (o horror sobrenatural) no qual teria sido relativamente fácil construir uma carreira lucrativa. Mas Argento nunca deixou Roma, e sempre insistiu em filmas suas fantasias infantis da maneira que queria: exagerada, operística, surreal e muitas vezes kitsch. Essas características de suas obras podem ter lhe roubado o grande público, mas também lhe deram o respeito de muita gente boa, inclusive colegas respeitados como Brian De Palma.

Isso posto, é preciso observar que a obra de Argento nunca se destacou pela inteligência. A maior qualidade dos filmes de Argento está no visual campy, tingido de cores berrantes, que sempre privilegiou uma atmosfera lúdico-macabra e relegou a preocupação com a narrativa a um segundo (ou terceiro) plano bem distante. “A Mãe das Lágrimas”, portanto, é coerente com a obra pregressa de Argento, funcionando como um apanhado da carreira do italiano: trilha sonora confusa que mistura indistintamente rock, pop e música sacra, visual caleidoscópico, direção de atores desleixada, movimentos de câmera mirabolantes, seqüências de violência gráfica. Junte a tudo isso bocados generosos de nudez feminina gratuita, e o resultado é um filme de horror B derivativo, que parece ter sido feito nos famigerados anos 1980 e não assusta ninguém.

A história retoma a lenda das três bruxas que seriam responsáveis por todo o mal do planeta. Nos dois longas anteriores da trilogia, as feiticeiras residentes em Friburgo (Alemanha) e Nova York (EUA) já haviam sido devidamente defenestradas. A terceira e mais poderosa das irmãs, que vive em Roma, ganha poder depois que uma urna do século XIX é desenterrada, durante uma escavação num velho cemitério romano. Cabe a Sarah (Asia Argento, filha do cineasta e mais talentosa como diretora do que como atriz), arqueóloga e filha de uma antiga feiticeira branca, a tarefa de localizar o esconderijo da bruxa e exterminá-la. Acontece que a diabólica criatura sabe disso e põe uma multidão de servos do mal no encalço da arqueóloga.

Do ponto de vista técnico, “A Mãe das Lágrimas” é um desastre. Com orçamento limitado, as lendárias cenas de assassinatos sofrem com uma maquiagem porca (repare na primeira morte, que mostra uma mulher sendo enforcada com os próprios intestinos, e é capaz de provocar risadas), exageram na quantidade de sangue falso e jamais parecem realistas. A trilha sonora não passa de uma colcha de retalhos. Não tem um tema único que funcione como assinatura auditiva e apela para todo tipo de arranjo, do eletrônico ao sacro, sempre parecendo sobras de outras trilhas (a melodia da abertura é claramente copiada de “A Profecia”). Além disso, os efeitos digitais que povoam a segunda parte do filme são mal feitos e não convencem nem mesmo o maior dos fãs de Argento.

Os cuidados com a narrativa, que nunca foram o forte do diretor, também sofrem. As atuações são superficiais e sem força dramática, e os diálogos quase sempre soam excessivamente expositivos (há uma cena lamentável em que um personagem escreve uma carta e lê o texto em voz alta enquanto o faz, como se isso fosse normal), o que elimina a tensão e enfraquece o conflito dramático. Além disso, Argento foi buscar elementos narrativos em filmes bem melhores, como o já citado “A Profecia” (o fotógrafo da primeira cena), “O Exorcista” (os ídolos-demônios enterrados), a comédia “Os Espíritos” (o fantasma que caminha pelas paredes) e até mesmo “Harry Potter” (o espírito da mãe que conversa com a filha sempre que ela está em dificuldades).

Para completar os equívocos, o cineasta cedeu à tentação dos cifrões e, possivelmente para agradar os fãs adolescentes que consomem filmes de horror B, incluiu inúmeras cenas gratuitas com mulheres peladas, incluindo uma de lesbianismo que não tem qualquer importância para a narrativa e poderia ter sido eliminada sem dificuldade. A própria atriz que interpreta a Mãe das Lágrimas (pomposo título da bruxa) é a imagem claro do equívoco: jovem e siliconada demais para interpretar uma mulher imortal que anda sobre a Terra há dois milênios e deveria, supostamente, personificar o que existe de mais malévolo neste mundo. Embora haja aqui e ali alguns ecos do antigo Argento, principalmente em movimentos inusitados de câmera nas tomadas mais longas, “A Mãe das Lágrimas” deixa muito a desejar.

O DVD da Swen Filmes contém apenas o longa, sem extras dignos de nota. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) é boa, assim como o áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas (La Terza Madre, Itália/EUA, 2007)
Direção: Dario Argento
Elenco: Asia Argento, Cristian Solimeno, Adam James, Moran Atias
Duração: 98 minutos

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