Testemunha Muda

02/05/2005 | Categoria: Críticas

Humor exagerado e atuações fracas atrapalham eficiente suspense sobre filmes snuff

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A existência de um mercado internacional de consumidores de filmes snuff, fitas caseiras lendárias que supostamente mostram pessoas sendo assassinadas de verdade, jamais foi comprovada. O tema, porém, ganhou espaço dentro da indústria cinematográfica por ser um território fértil para as mentes de criadores filiados ao gênero do suspense. “Testemunha Muda” (Mute Witness, EUA/Rússia/Alemanha, 1994) forma, junto com o espanhol “Morte Ao Vivo” e o norte-americano “Oito Milímetros”, uma trinca sólida que aborda o assunto. Não é o melhor deles, mas tem ótimos momentos inspirados em Alfred Hitchcock.

O intenção explícita do diretor Anthony Waller, ao rascunhar a história, era fazer uma homenagem ao mestre inglês do suspense. Hitchcock sempre judiou dos seus personagens, mas não com o grau de sadismo demonstrado pelo cineasta dos EUA. A protagonista de “Testemunha Muda”, Billy Hughes (Marina Sudina), é uma maquiadora de filmes de terror que assiste, sem querer, a um assassinato feito para um snuff movie. Os matadores descobrem que ela viu tudo, mas se aproveitam de uma deficiência da garota para ameaçar a vida dela: Billy é muda.

“Testemunha Muda” tem uma falsa abertura que estabelece o tom do filme. As primeiras cenas mostram, em câmera subjetiva, um assassino rondando e invadindo uma residência onde uma mulher pinta os lábios. A atriz é “esfaqueada” no peito e cambaleia incessantemente, destruindo quase todos os móveis do cenário e levando a equipe técnica às gargalhas. A destruição é tão grande que os técnicos precisam gastar o resto do dia refazendo os móveis de mentira. Por isso, todos vão embora. Menos Billy, que descobre ter esquecido uma bolsa e precisa retornar para pegá-la. Sem querer, o porteiro a tranca no estúdio. É lá que o crime acontece.

O filme se passa em Moscou, mas não aproveita as locações reais da cidade, pois quase todas as cenas são interiores. Consta que Anthony Waller escreveu o roteiro para fazer o filme se passar em Chicago, mas mudou para a Rússia por questões de financiamento. Não há dúvida de que a mudança foi benéfica para “Testemunha Muda”: os países do Leste Europeu são tidos como locais muito mais prováveis de servirem como ponto de partida de uma rede internacional de filmes violentos, devido à situação financeira desastrosa. Além disso, há boatos sobre a produção de verdadeiros filmes snuff em lugares como a Iugoslávia.

O roteiro é simples e eficiente, em especial os primeiros 30 minutos, quando Billy, presa dentro do galpão, é obrigada a fugir dos dois assassinos se escondendo atrás de portas e escadas. Essa longa introdução arrasa os nervos do espectador e, sem dúvida, é o melhor momento do longa-metragem. Seguindo a linha de Brian De Palma, Anthony Waller brinca com o foco em vários planos, conseguindo um timing perfeito para as escapas improvisadas de Billy, que fica várias vezes a poucos centímetros dos perseguidores, mas sempre consegue escapulir de última hora.

Ponto central de “Testemunha Muda” é a forma encontrada por Waller para mostrar como a maquiadora é capaz de reconhecer a diferença entre um assassinato fingido e um crime real: através do olhar das vítimas. Anthony Waller filma esse olhar em uma sucessão de três planos rápidos, com cortes bruscos, que fazem um zoom radical nos olhos das vítimas. É exatamente o mesmo tipo de edição utilizada por Hitchcock para dar um tremendo susto na audiência durante cena clássica de “Os Pássaros”, quando os heróis encontram uma vítima dos animais com os olhos arrancados. Muito bom.

O filme só não é perfeito por causa de dois detalhes: os atores e o uso equivocado do humor. Para começar, Anthony Waller dá clara demonstração de que não é um bom diretor de elenco. Marina Sudina não é especialmente expressiva, e nem Fay Ripley (que interpreta a irmã de Billy, Karen, contra-regras da produção fictícia). Mas o pior membro do elenco é, de longe, o diretor do filme fictício, chamado de Andy e interpretado de forma caricata pelo ator Evan Richards. Até o sempre elegante Alec Guiness faz uma pequena aparição constrangedora, como o milionário que chefia o tráfico de filmes snuff.

Quanto ao humor, é um elemento ausente dos primeiros 30 minutos do longa-metragem e vai ganhando mais espaço à medida que a ação prossegue. Quando o policial Larsen, poliglota agente duplo da quadrilha e da polícia russa, entra em cena, fica tudo claro: Anthony Waller simplesmente não sabe fazer humor contido, preferindo dar a tudo um tom de pastelão. Assim, a trama termina de forma correta, com segredos e reviravoltas na medida certa, mas sem nenhuma tensão – culpa do humor equivocado que o diretor não soube dosar. Não fosse isso, Waller teria feito uma pequena pérola.

O DVD de “Testemunha Muda” saiu no Brasil pela Columbia, com imagem em formato widescreen anamórfico (ou seja, mais horizontal) e trilha de áudio Dolby Digital 5.1. O único extra presente é um trailer da produção.

– Testemunha Muda (Mute Witness, EUA/Rússia/Alemanha, 1994)
Direção: Anthony Waller
Elenco: Marina Sudina, Fay Ripley, Evan Richards, Oleg Yankovsky
Duração: 95 minutos

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