The Doors

20/08/2009 | Categoria: Críticas

Stone agrada os fãs realizando uma apologia ao mito, recheada de sexo, drogas e rock’n’roll – e só isso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Pelos idos de 1991, a maior parte dos fãs radicais de Jim Morrison aguardou o lançamento de “The Doors” (EUA, 1991), a cinebiografia da banda, com expectativa positiva. A razão disso era a sensibilidade histriônica do cineasta que estava no comando da produção – Oliver Stone, que vivia então a fase mais intensa de sua carreira, era conhecido por gostar de excessos, exatamente como o cantor e poeta morto em 1970. Stone fez seu trabalho bem ao agrado desses fãs, realizando uma espécie de versão cinematográfica da biografia oficial do grupo, recheada de sexo, drogas e rock’n’roll. Uma apologia ao mito, sem tirar nem pôr.

Contando com orçamento generoso para a época (US$ 38 milhões) e um protagonista (Val Kilmer) concentrado em repetir minuciosamente todas as mungangas que Morrison perpetrava no palco e fora dele, Stone optou por realizar uma abordagem superficial do personagem. Mais do que um filme, “The Doors” parece uma coletânea dos momentos mais polêmicos e constrangedores protagonizados pelo ídolo, retratando de forma vaga e simplista sua transfiguração de símbolo sexual da geração hippie em alcoólatra gordo e decadente. É um tratamento insuficiente para uma das figuras mais controversas de um dos períodos mais controversos da história da música pop.

Fãs mais radicais, interessados apenas na superfície, devem ficar satisfeitos – especialmente aqueles que já leram reportagens e/ou biografias apressadas do cantor. Estão lá todas as passagens amplamente conhecidas pelo público: o encontro de Jim (Val Kilmer) com um acidente de carro onde morreu uma família de índios na infância; o encontro na praia com o tecladista Ray Manzarec (Kyle MacLachlan); a relação turbulenta com a namorada Pamela (Meg Ryan); as apresentações cada vez mais extravagantes no palco, tendo como resultado inúmeras prisões; a misteriosa morte no banheiro de um hotel vagabundo em Paris. Tudo está lá. E nada mais além disso.

Sobre o homem Morrison, pouco ou quase nada. Pelo contrário. Utilizando a fotografia repleta de filtros dourados de Robert Richardson para reforçar o caráter mitológico da história, Oliver Stone pinta Morrison como um maluco-beleza incapaz de trocar duas frases minimamente inteligíveis com qualquer outro ser humano. Deslumbrado com sua própria poesia, andando trôpego de bar em bar, ele parece um sujeito desinteressado em estabelecer qualquer tipo de comunicação com seu público. Embora fique claro que Morrison chamava mais a atenção pelo comportamento exótico do que pela qualidade de sua poesia, Stone inunda a trilha sonora com canções dos Doors, mas contraditoriamente dá pouquíssima atenção ao que ocorria ao redor do quarteto, relegando toda a trupe que rodeava o cantor a um papel secundário no enredo.

Os melhores momentos saem, é claro, de seus estilo exagerado e maneirista, que procura reproduzir – através da montagem fragmentada, do uso da câmera lenta e de filtros ocasionais que distorcem as imagens – as sensações de embriaguez experimentadas pelo músico e pelos colegas de banda em viagens de ácido lisérgico e peiote. Obviamente, esse procedimento estilístico causa forte empatia na parcela do público que se identifica com o comportamento hedonista do cantor; daí a aura de filme cult que rodeia o longa-metragem. Apesar dela, “The Doors” é bem inferior a “JFK”, que Stone lançaria no mesmo ano, e não chega a ocupar lugar de destaque na filmografia dele.

O DVD brasileiro da Warner é duplo, mas não contém grande número de extras. No primeiro disco, o filme com imagem correta (widescreen 2.35:1 anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) vem acompanhado de comentário em áudio de Oliver Stone. O segundo disco contém um documentário retrospectivo (35 minutos), um featurette promocional de 1991 (6 minutos), onze cenas cortadas (45 minutos) e dois trailers.

– The Doors (EUA, 1991)
Direção: Oliver Stone
Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kathleen Quinlan, Kyle MacLachlan
Duração: 140 minutos

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