The Up Series

16/06/2006 | Categoria: Críticas

Série de documentários exibidos na TV britânica possui impressionante quantidade de momentos inesquecíveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O projeto britânico “The Up Series” não é cinema. Por duas razões: trata-se de um work-in-progress, ou seja, um trabalho aberto, que não acabou e nem tem data para acabar; e vem sendo produzido para exibição numa emissora de TV da Inglaterra. No entanto, cada um dos documentários produzidos pelo cineasta Michael Apted possui uma quantidade impressionante de momentos inesquecíveis. São instantes mágicos em que o público compartilha com os personagens momentos genuínos de tristeza, alegria, orgulho, surpresa, medo, fracasso – uma experiência emocional completa. Esta característica faz deste um projeto singular e muito, muito interessante.

Claro que isso não acontece por méritos cinematográficos. Como disse antes, “The Up Series” não é exatamente cinema. Está mais para uma espécie de experiência acadêmica multidisciplinar, que envolve um pouco de filosofia, antropologia, sociolologia e psicanálise, só que sem os jargões e conceitos complicados que são discutidos na academia. De fato, o projeto constrói uma crônica da vida de quatorze pessoas. Em essência, são horas e horas de seres humanos falando sobre sexo, trabalho, casamento, família, dinheiro, sonhos, esperanças e sentimentos. Todos falando com sinceridade, desnudando a alma. É o suficiente para capturar algo deste algo invisível que nos faz espécie única no planeta: a consciência.

A idéia de “The Up Series” nasceu de um ditado jesuíta do século 16: “Dê-me uma criança de sete anos e te mostrarei o homem”. Em 1964, uma equipe da emissora britânica Granada Television selecionou quatorze garotos nascidos em 1957 e os entrevistou. O futuro cineasta Michael Apted, que coordenou o processo de seleção das crianças, foi diretor assistente no programa, chamado “7 Up”. Depois assumiu o projeto e definiu que, a partir dali, voltaria a conversar com os participantes do projeto a cada sete anos, para saber como estava se desenrolando a vida de cada um. Simples assim. Daí surgiram os documentários Up: “14 Up” (1970), “21 Up” (1977), “28 Up” (1984), “35 Up” (1991), “42 Up” (1998) e “49 Up” (2005). Desde que os personagens continuem vivos, haverá um “56 Up”, em 2012.

Para o programa original, Apted selecionou garotos de diferentes regiões da Grã-Bretanha, e de diversas classes sociais. São dez meninos e quatro meninas. No futuro, ele se arrependeria dos critérios de escolha (diz que gostaria de ter escolhido mais mulheres e mais integrantes da classe média). A proposta inicial, no entanto, continuou intocada: a cada intervalo de sete anos, o cineasta entra em contato com os quatorze e realiza uma nova rodada de entrevistas. As conversas são individuais (às vezes, participam parentes do entrevistado, como esposas, maridos ou filhos) e seguem uma abordagem espartana, com poucas interferências do entrevistador.

O resultado final é muito rico, e permite uma quantidade ilimitada de reflexões pessoais para cada espectador. Tudo depende do grau de identificação de cada membro da platéia com os dramas e situações vividos pelos entrevistados. No decorrer dos anos, os ingleses elegeram o solitário Neil como o mais interessante e imprevisível dos quatorze, mas talvez você tenha uma impressão diferente, e se identifique mais com Suzy (uma rica integrante da classe alta), Simon (um negro criado em orfanato), John (aspirante a advogado desde os 7 anos), Tony (o garoto que queria ser jóquei) ou qualquer outro. Cada um tem uma personalidade diferente e seguiu um caminho bem particular. Nos documentários, eles compartilham conosco dúvidas, certezas, arrependimentos, momentos de tristeza, alegria e dor.

Assistindo aos programas, você percebe uma infinidade de padrões. Eu notei, por exemplo, que as mulheres são mais voláteis e têm uma tendência a casar mais cedo do que os homens. Também percebi que os membros da classe alta planejam o futuro com mais antecedência e seguem mais fielmente aquilo que planejaram lá atrás, quando ainda eram crianças. Mas será que isso acontece porque eles têm mais oportunidades na vida, devido ao status social de que desfrutam? Ou é resultado de uma educação mais rígida e controlada, e seus pais têm mais influência nesse planejamento? Eles são mais definidos pelo ambiente social em que vivem do que os egressos do proletariado? Um pouco de tudo isso?

Não dá para saber. Cada espectador precisa preencher as lacunas e providenciar as respostas para sua reflexão particular, usando para isso a própria experiência de vida. Grande parte do fascínio do projeto vem exatamente dessa falta de respostas prontas, desse caráter espontâneo e aberto da abordagem dos entrevistados. Se filmes fossem provas de vestibular, “The Up Series” seria uma avaliação com questões abertas, enquanto a maioria dos longas-metragens comuns costuma investir em uma simplificada receita de múltipla escolha.

Um detalhe que chama a atenção é a maneira franca com que os participantes encaram o projeto. Quase todos acham desagradável o fato de ter que revelar intimidades em frente às câmeras a cada sete anos, mas o fazem mesmo assim. Apenas três desistiram no meio do caminho (coincidência ou não, todos integrantes da classe alta). Alguns participantes preferem se ausentar de um episódio, por acharem que nada têm a dizer, mas voltam no seguinte. Todos sentem que fazem parte de algo importante, algo maior do que eles, que os transcende como pessoas.

Devido a essa franqueza, uma transformação se opera em nós, membros da platéia, após os primeiros programas: passamos a encará-los não mais como personagens de filmes, mas como amigos íntimos (no meu caso, posso dizer com tranqüilidade que tenho diversos amigos que não conheço tão bem quanto agora conheço Neil ou Tony ou Paul). Ficamos sabendo muito sobre cada um deles. Conhecemos seus sonhos, expectativas, fracassos e frustrações, e seus desejos mais secretos. Ouvimos confissões de erros e lamentos tocantes. Alguns depoimentos são tão carregados de emoção que temos vontade de abraçá-los. Não são muitos os filmes capazes de fazer alguém se sentir assim ao assisti-los.

Um dos personagens mais tristes é Simon, o rapaz negro cuja mãe tinha problemas mentais e o colocou em um orfanato. A experiência foi tão traumatizante para ele que o transformou em uma espécie de pai compulsivo – seis filhos em dois casamentos. Ao longo dos anos, ele exibe uma personalidade conformista, quase letárgica. Aos 7 anos, já sabe que não vai para a faculdade e não tem nenhuma ambição profissional. “Só quero ficar por aí e ver o que aparece”, diz. Aos 14, parou de estudar e pensa em ser um rock star, mas sabe que é um devaneio impossível. Aos 21, trabalha numa fábrica de salsichas e continua sem projetar o futuro. “Sei que deveria ter um sonho, é uma vergonha, mas não tenho”, afirma. “Só não quero ficar aqui”. Aos 28, continua por lá. Triste.

De outro lado há o pequeno Bruce, um exemplo de altruísmo. Criança de olhar triste e orelhas de abano, aos 7 anos ele queria ser missionário na África, “para ajudar os outros a serem bons”. Aos 14, a timidez o impedia de levar a idéia adiante. “Não consigo falar em público”, resignava-se. Idealismo intacto, Bruce tornou-se professor de escola pública em Londres. Aos 35 anos, estava dando aulas para crianças pobres em Bangladesh. Mas era tão tímido que não conseguia se aproximar de mulheres. Achava que morreria solteiro. Os programas mais recentes revelam, contudo, uma alteração drástica no rumo da vida dele.

Todos os dramas dos personagens parecem pequenos, no entanto, quando aparece Neil, um sujeito fascinante, dono de uma assustadora capacidade de auto-análise, e capaz de dar depoimentos devastadores sobre si mesmo. Aos 7 anos, era uma criança risonha que queria ser astronauta ou guia turístico. Aos 14, já mostrava uma faceta sombria, afirmando que jamais tinha tempo para brincar. Desde as primeiras entrevistas, Neil já demonstrava um claro espírito de liderança, atrapalhado por uma ansiedade que cresceria a ponto de engoli-lo por inteiro mais à frente. Sua vida tomou um rumo inacreditável.

Aos 28 anos, naquele que é provavelmente o depoimento mais emocionante de todos os documentários do projeto, ele está vivendo sozinho em um trailer sujo, numa região rural da Escócia, duvidando sobre a própria sanidade. “Não quero filhos, pois as crianças sempre herdam algo de seus pais. E mesmo que eu case com a mulher mais alto astral e feliz do universo, há chance de que meu filho venha a ser uma pessoa triste, porque acabaria herdando algo de mim”, avalia, enquanto balança desconsoladamente a cabeça. Aos 35 anos, Neil continuava vivendo do seguro social, passando fome ocasionalmente, e temendo ficar louco. E eis que, quando a maioria dos ingleses já acreditava que ele era um caso perdido, “42 Up” mostra uma reviravolta impossível de antecipar. E “49 Up” muda tudo novamente.

Outra personagem interessante é Suzy. Criança sorridente aos 7 anos, ela pensava em ter dois filhos quando crescesse, mas reaparece aos 14 como uma adolescente irritada e, aos 21, é uma sombria fumante compulsiva se escondendo atrás de um par de óculos escuros. Afirma ser cínica e descrente no casamento e diz que odeia bebês. Mas reaparece completamente diferente aos 28 anos. Será que ela muda muito nos episódios seguintes? Esta é uma pergunta que os espectadores simplesmente não conseguem evitar. A curiosidade é parte essencial do projeto. Ao ver “The Up Series” pela primeira, é bom se preparar, porque você vai querer saber o tem acontecido nas vidas daquele grupo de pessoas tão articuladas, e tão humanas. E não vai conseguir parar até assistir a todos os documentários.

Uma caixa de cinco DVDs com a série foi lançada nos Estados Unidos em 2004, pela pequena distribuidora First Run Features. São seis os documentários contidos no box, de “7 Up” até “42 Up”, sendo que os dois primeiros filmes foram colocados em um único CD, por terem duração menor. O único extra é um comentário em áudio com o diretor Michael Apted, incluído em “42 Up”. Nele, o cineasta detalha os bastidores do projeto e conta curiosidades sobre os participantes. Não há legendas nem closed captions em nenhuma língua, nem mesmo em inglês. O episódio “49 Up” está disponível em DVD isolado.

– The Up Series (Inglaterra, de 1964 até hoje)
Direção: Michael Apted
Série de documentários
Duração: Variável (“7 Up” tem 39 minutos, enquanto “49 Up” chega a 135 minutos)

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