Thor

15/05/2011 | Categoria: Críticas

Excesso de planejamento faz filme de Kenneth Branagh parecer frio, um mero trailer de luxo para um evento vindouro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

“Thor” (EUA, 2011) não foi planejado pela Marvel como um filme. O projeto está mais para um elo, dentro de uma cadeia de eventos, que prepara o público – especialmente a fatia dele que acompanha o universo da editora nos quadrinhos – para um acontecimento cinematográfico cataclísmico, cujo terreno vem sendo aplainado desde 2008 e que tem data marcada para 2012: a versão para cinema de Os Vingadores, o grupo de super-heróis da editora. Isso não é especulação; é um fato. E um fato que interfere em praticamente todas as decisões criativas tomadas para este filme, a começar pela escalação do diretor e do elenco.

A maior surpresa do filme, aliás, consiste no nome que está sentado na cadeira de diretor. Kenneth Branagh certamente está longe de ser uma escolha óbvia, mas tampouco corresponde a uma ousadia. Tem um passado respeitável como cineasta e ator shakespeareano por excelência, e transita com bastante desenvoltura em projetos comerciais que flertam com cultura pop (“Frankenstein”, “As Aventuras de James West”, “Harry Potter e a Câmara Secreta”). Um pouco de raciocínio lógico é suficiente paras perceber porque ele foi colocado no cargo pela Marvel – trata-se de uma tentativa de dar subtexto trágico ao filme, explorando os traumas de uma turbulenta relação pai-e-filho, algo muito comum na obra de Shakespeare, que Branagh conhece tão bem.

Esta é, também, uma razão palpável para a escalação de Anthony Hopkins no papel de Odin, pai de Thor (Chris Hemsworth) , deus nórdico punido por sua impulsividade e enviado para a Terra por causa disso, após uma intrincada armação montada por seu camaleônico irmão Loki (Tom Hiddleston). Também inglês, Hopkins é igualmente versado nas peças do maior dramaturgo da humanidade. O resto do elenco equilibra novatos com nomes consagrados que dão estofo dramático e atraem platéias não-familiarizadas com os quadrinhos (Natalie Portman, Stellan Skasgaard), rostos conhecidos (Samuel L. Jackson, Jeremy Renner) em pontas que serão transformadas em personagens de maior destaque, nos elos vindouros da tal cadeia de eventos mencionada no primeiro parágrafo deste texto.

Como se pode ver, é tudo meticulosamente calculado em proporções milimétricas. “Thor” foi pensado como uma obra que equilibra humor com pathos, montada em camadas sobrepostas, que proporcionam uma aventura convencional (com pitadas de romance e drama familiar) para um público mais amplo e lança piscadelas para um público mais segmentado (os fãs de quadrinhos). De certo modo, até que funciona. Mas não muito: como aventura é meio chocha (em parte porque os Gigantes de Gelo, adversários dos nórdicos e vilões da trama, jamais parecem realmente ameaçadores, não importa quão grave é a voz do seu líder); como romance não engrena nunca; como tragédia familiar incorpora apenas alguns relances do que poderia vir a ser. De quebra, o tom mais solene (há humor, mas não muito) dá um verniz kitsch ao trabalho.

Obedecendo rigidamente ao plano dos executivos do estúdio, toda a safra da Marvel pós-Sam Raimi vem padecendo do mesmíssimo mal: o excesso de cálculo, a energia criativa colocada excessivamente em algum momento nebuloso do futuro (esquecendo, assim, do presente). Isso vem gerando um monte de filmes anódinos, sem gosto como chiclete de tutti fruti, produtos dirigidos e lançados como se não passassem de trailers de luxo para um evento futuro. Por mais que tudo isso gere expectativa dentro do círculo de fãs dos quadrinhos, quem está fora desse grupo – somos maioria, acredito – e freqüenta cinemas à procura de entretenimento com calor humano ainda está à espera de algo tão divertido quanto os dois primeiros “Homem Aranha”.

– Thor (EUA, 2011)
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins
Duração: 114 minutos

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