THX 1138

14/03/2005 | Categoria: Críticas

Antes de ‘Star Wars’, George Lucas cria fantasia apocalíptica perturbadora sobre o futuro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um filme lento, duro, opressivo e claustrofóbico. Quem se acostumou com o George Lucas que dirigiu a série “Star Wars” dificilmente vai imaginar que essa descrição possa caber em um longa-metragem dirigido por ele. Mas cabe, e como uma luva: “THX 1138” (EUA, 1971) é exatamente assim. Apesar de ter apenas 88 minutos, é um filme de compreensão difícil, com roteiro episódico de andamento truncado e uma estilização visual impressionante, que cria um futuro opaco, sem cor e sem vida. Trata-se de uma fantasia apocalíptica perturbadora sobre o futuro, uma variação alucinada do “1984”, de George Orwell.

O espectador demora a compreender o enredo de “THX 1138”. O filme se passa em um futuro distante (os releases da Warner nos indicam que esse futuro acontece em algum ponto do século XXV, embora o filme não faça nenhuma referência à época em que a história se passa). Nesse futuro, os homens não possuem mais nomes, mas siglas que mais parecem placas de carros. Na verdade, são praticamente zumbis, que vestem roupas brancas idênticas, possuem as cabeças raspadas e engolem pílulas de narcóticos que os mantêm anestesiados e sem vontade própria. A reprodução é feita em laboratório, pois as drogas inibem o desejo sexual. A sociedade vive em um labirinto mecânico nos subterrâneos do planeta, e é patrulhada por uma raça de estranhos robôs negros com rostos metálicos.

“THX 1138” é um filme que sobrevive pela estilização visual. George Lucas criou, com inspiração de outros filmes (há uma evidente influência dos interiores elaborados por Stanley Kubrick na obra-prima “2001”), um produto inteiramente novo, original. A criação visual dessa sociedade opressora, em que todos os habitantes são monitorados através de um gigantesco circuito interno de TV, é soberba. Nesse sentido, a mão de George Lucas aparece com força. Ele demonstra que, desde o início da carreira, já possui talento nato para criar um mundo em que homens e tecnologia co-habitam em constante tensão.

Apesar de ser um filme pouco citado por outros cineastas, e ainda menos pelo público, “THX 1138” teve uma influência importante em muitas obras de ficção científica que viriam nas décadas seguintes; pense em “Matrix” (são praticamente duas dimensões vivendo em um mesmo plano espacial), e em “Os Doze Macacos” (os humanos estão confinados ao subterrâneo, e todos os que vivem na superfície são anões).

Infelizmente, toda a portentosa criação meticulosa de imagem e som (o trabalho de Walter Murch na trilha sonora é realmente muito bom) é oca de significado, porque Lucas não soube criar um roteiro eficiente. A trama é simples: um homem, chamado exatamente THX 1138, deixa de tomar as pílulas junto com a companheira de casa. Os dois se descobrem apaixonados e, claro, fazem sexo pela primeira vez, em uma seqüência pesada e incômoda que inclui uma televisão robótica com imagens perturbadoras de uma negra despida praticando uma espécie de dança do acasalamento. A partir daí, são perseguidos pelo Big Brother messiânico, que se comunica através de gravações e hologramas.

De certa forma, “THX 1138” só funciona como filme porque a platéia compartilha da confusão mental vivida pelo monossilábico protagonista (vivido pelo jovem Robert Duvall). O sujeito quase não fala, e quando o faz, não consegue expressar nenhum tipo de desejo ou emoção. Pior: não tem um objetivo evidente que não seja fugir de algo que nem ele, e nem nós (do lado de cá da tela), sabemos exatamente o que é. Tudo isso, aliado à perturbadora seqüência da prisão (uma sala gigantesca, inteiramente branca, sem que se possa divisar as paredes, o que cria uma sensação de infinito), gera um filme estranho, mas instigante.

A caixa luxuosa do filme dá a impressão de que se trata de uma obra-prima do cinema. Para começar, o DVD é duplo. Qualidade de imagem e som, com certificado THX (que ironia…), é de primeira; há uma trilha de áudio com George Lucas e o co-roteirista Walter Murch comentando o filme, que tem imagem widescreen e som Dolby Digital 5.1. Uma outra opção é interromper o filme de tempos em tempos para ver pequenas entrevistas com Walter Murch (que viria a ser, depois, um renomado editor de imagens e som), a respeito da criação de sons futuristas.

No disco 2, dois documentários são o prato principal. O primeiro, de uma hora, aborda o surgimento da geração mítica de George Lucas (incluindo Francis Ford Coppola e Steven Spielberg), no início dos anos 1970. O segundo, de 30 minutos, é um documentário de retrospectiva sobre o filme. Uma curiosidade é que o curta-metragem premiado de Lucas, o “THX” original, de 17 minutos, é aqui apresentado na íntegra. Por fim, um segmento de 8 minutos traz Coppola, produtor executivo, entrevistando Lucas, diretor, antes da produção do filme. Encontro histórico, em um disco que vale mais pela curiosidade do que pelo filme em si.

– THX 1138 (EUA, 1971)
Direção: George Lucas
Elenco: Robert Duvall, Donald Pleasence, Maggie McComie
Duração: 88 minutos

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