Timecode

01/09/2003 | Categoria: Críticas

Longa de Mike Figgis inova radicalmente, exibindo quatro ações simultâneas na telade cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Timecode”, trabalho do cineasta inglês Mike Figgis, passa longe da idéia de filme convencional. Na verdade, é um trabalho inovador, que assume uma posição de vanguarda – apesar de, paradoxalmente, ter recebido distribuição comercial muito boa para uma obra fora dos parâmetros de cinema, tanto o Hollywoodiano quanto o europeu – em duas frentes, uma técnica e outra narrativa.

O filme de Mike Figgis parte do ponto que outros filmes de narrações não-lineares, como as adotadas pelo alemão “Corra Lola Corra” (1999, de Tom Tykwer) e pelo francês “Smoking/No Smoking” (1993, de Alain Resnais), tentaram atingir de forma mais tímida. Esses dois trabalhos antepassados exploravam a idéia de que pequenos eventos (um esbarrão acidental num desconhecido) ou escolhas pessoais (virar à esquerda ou à direito numa rua) podem interferir radicalmente no rumo da vida de um indivíduo.

O caso de “Timecode” é diferente porque ele parece querer forçar uma barreira ainda pouco explorada: a capacidade de percepção do espectador de cinema. O filme consiste na narração dos fatos que ocorrem com um grupo de pessoas, em Los Angeles, na tarde de uma sexta-feira. Para capturar a ação, o cineasta usou quatro câmeras filmando em tempo real. Ele recusou a idéia de edição. Simplesmente dividiu a tela do cinema em quatro partes iguais e pôs as imagens captadas por cada câmera em um canto da tela.

O que se vê nas duas horas de “Timecode”, portanto, não é um filme. Na verdade, são quatro filmes projetados simultaneamente. Cada câmera seguiu um determinado grupo de personagens. Há momentos em que as quatro ações enfocam pessoas completamente diversas. Protagonistas de uma narrativa podem virar coadjuvantes em outra. Em determinados momentos, pode-se ver a mesma ação de dois ou mais ângulos diferentes, para logo um dos personagens afastar-se e levar com ele uma das câmeras.

O resultado disso é um painel fragmentado, que dá uma guinada inédita ao ato da narração cinematográfica. Se acompanhar as imagens de quatro ações diferentes ao mesmo tempo exige um grande esforço de concentração do espectador, contudo, no caso do som o problema é bem maior: seria inviável se Figgis procurasse equalizar as quatro narrativas no mesmo volume e exibisse o áudio ao público dessa maneira. O resultado soaria inaudível.

O cineasta, então, optou por uma solução que contradiz o próprio espírito anárquico do filme: fez uma edição, selecionando um dos áudios para ser exibido em determinados momentos. Em raros momentos, pode-se ouvir dois áudios simultâneos, acompanhados de uma trilha sonora – são momentos de confusão, porque é quase impossível identificar o que se está ouvindo, associar esse áudio a uma das quatro possibilidades de ação e, ao mesmo tempo, isolar aquilo que não se quer ouvir para compreender melhor o que se ouve.

Em exibições durante festivais de cinema pelo mundo, Figgis gosta de assumir a mesa de equalização de som e fazer edições sonoras diferentes do modo padrão. Numa exibição no festival de Roterdã (Holanda), por exemplo, ele optou por realçar uma subtrama com elementos gays, que era mantida sem áudio na exibição original. Figgis justificou a decisão dizendo que Roterdã, pelo fato de ser uma cidade liberal e com um forte movimento pró-liberdade sexual, mostraria um interesse mais forte pela tal trama do que outros lugares o fariam.

Em formato DVD, a interação com o espectador chega ao nível máximo; assistindo em casa ao disco da Região 1, o espectador pode fazer as duas edições – de imagens e de som – à sua própria vontade. Em outras palavras, o DVD mostra a tela com quatro imagens e dá ao espectador a possibilidade de ir alternando os quatro áudios que correspondem às narrativas. Em última hipótese, portanto, pode-se atuar como o próprio Figgis nas sessões de festivais, mixando o som do filme com o controle remoto.

Além disso, o cineasta incluiu no disco digital duas versões do filme, que ele gosta de chamar de versão 1 e versão 15. Elas foram gravadas com uma semana – e treze outras encenações da mesma trama – de intervalo. São filmes bem diferentes entre si, simplesmente pelo fato de que não havia roteiro. A não ser pelo esqueleto básico da trama (o início, o final) e alguns eventos-chave, no restante do tempo os atores eram deixados à vontade para improvisar o quanto desejassem. Figgis fez isso para dar ao espectador a chance de comparar as atuações e verificar o quanto o filme havia mudado com as contribuições dos atores nos diálogos improvisados. O nº 15 é a versão oficial de “Timecode”.

Existem algumas questões importantes na experiência de Mike Figgis, questões que podem render um debate polêmico. A primeira delas diz respeito à capacidade do espectador de absorver um número ilimitado de informações simultâneas. É mesmo possível acompanhar as imagens de quatro tramas distintas se desenrolando numa tela de cinema? Somos (ou seremos) capazes de absorver quatro ações simultâneas sem perder nada de nenhuma delas? A dificuldade que sentimos ao tentar fazê-lo é fruto apenas da falta de treino, de estarmos acostumados ao cinema tradicional? Ou será que quatro telas simultâneas excedem a capacidade do cérebro humano de absorver e dar sentido às imagens?

A segunda inovação de Mike Figgis é de ordem técnica. Para gravar as quatro ações do filme, que se passa em tempo real, o cineasta teve que usar câmeras digitais. Isso transformou “Timecode” no primeiro filme 100% digital do cinema. É mesmo possível perceber uma certa diferença nas imagens capturadas pelas quatro equipes de gravação. A luz parece artificial; as cores surgem esmaecidas, sem brilho. São detalhes técnicos que impõem limites ao equipamento digital utilizado atualmente, mas essas barreiras já começam a cair — basta ver os novos “Star Wars”.

Por fim, “Timecode” ainda busca questionar a própria teoria clássica da comunicação, porque tenta quebrar – de forma às vezes confusa e incompleta – a relação passiva entre o transmissor (cineasta/estúdio) e o receptor da informação (espectador). Na medida em que participa do processo de edição da obra, o espectador assume ares de autor do trabalho. Pode-se perceber uma conexão com a idéia de hipertexto, fundamental para a Internet.

Há uma certa quebra de hegemonia que, diante dos avanços técnico e narrativo do filme, acabou passando um pouco despercebida. Em “Timecode”, quem está do lado de cá da tela pode fazer escolhas sobre o que vai ver e ouvir – e isso abre uma discussão interessante em termos de cultura de massa, pois as teorias dominantes de comunicação só admitiam a possibilidade da interferência do espectador na obra ante a experiência individual da Internet.

O maior problema de “Timecode” é de conteúdo. Como experiência estética, o filme é fascinante. Não resta dúvida quanto a isso. Ocorre que a trama é arrogante, sem sal, confusa e muitas vezes tediosa. Dá para dizer, sem medo de errar, que Figgis ficou tão fascinado com a possibilidade de inovar radicalmente que esqueceu de escrever o filme. Os atores passam mesmo a sensação de que improvisam o tempo inteiro, e muitas vezes o fazem de forma equivocada. A rigor, não há história. Para fanáticos por cinema e tecnologia, o filme é altamente recomendado. Para os demais, melhor ir com calma.

– Timecode (EUA, 2001)
Direção: Mike Diggis
Elenco: Salma Hayek, Jeanne Tripplehorn, Salma Hayek, Stellan Skargaard
Duração: 93 minutos

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