Tiresia

16/03/2005 | Categoria: Críticas

Filme francês transporta mito grego para os dias atuais e transforma adivinho de Tebas em travesti brasileiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Pessoas que desconhecem a mitologia grega – ou seja, a maior parte do público – têm boas chances de detestar “Tiresia” (Tiresia, França, 2003). Sem o prévio conhecimento do mito do adivinho cego que viva em Tebas, o espectador corre sério risco de sair do cinema sem compreender o hermético e lento longa-metragem de Bertrand Bonello. O diretor francês foi extremamente ousado ao ambientar a fábula grega nos dias de hoje, transformando o papel-título em um travesti brasileiro que vive na França.

Explica-se. O adivinho cego de Tebas, citado tanto na “Odisséia” de Homero quanto na tragédia “Édipo Rei”, de Sófocles, era um personagem mitológico. Tinha os dois sexos (ou seja, era homem e mulher ao mesmo tempo) e foi cego por um deus. Por isso, para interpretar esse papel complicado, Bonello convocou dois atores brasileiros, um homem e uma mulher: Thiago Teles e Clara Cloveaux. Os diálogos do filme são em francês, mas há diversos monólogos de Tiresia falados em bom português, sem sotaque.

Para cercar a história mitológica com uma sombra realista, o cineasta dividiu a narrativa da história em duas partes visualmente bem diferentes. Na primeira, um homem silencioso e nitidamente perturbado, Terranova (Laurent Lucas), seqüestra o travesti Tiresia (Clara Cloveaux), deixando-o preso. Ele o trata com carinho, mas entre os dois não há sexo. Privada dos hormônios femininos que toma, Tiresia começa a readquirir os traços masculinos, o que deixa o seqüestrador ainda mais perturbado – e violento.

Na segunda parte do longa-metragem, Tiresia (agora Thiago Teles) passa a viver com uma família cristã, no campo. Cega, ela adquire o poder de premonição, enquanto inicia outra relação de carinho sem sexo, com a adolescente Anna (Celia Catalifo). Posteriormente, passa a ser investigada pelo padre François (o mesmo Laurent Lucas, interpretando outro personagem). Interligando as duas fases da personagem, há uma seqüência de violência crua que pode chocar os espectadores mais sensíveis.

“Tiresia” não é um filme fácil. O ritmo é lento e as interpretações parecem muito teatrais, especialmente dos atores brasileiros (perceba como nenhum dos dois tem boa entonação na língua portuguesa, o que torna parte dos diálogos difícil de compreender). Além disso, Bonello economiza movimentos de câmera, dando preferência a tomadas longas em que a imagem permanece parada. Quando se move, a câmera o faz apenas horizontalmente, e de forma bastante lenta.

As opções estéticas do diretor transformam o filme numa obra anti-comercial. Bonello esconde da platéia, por exemplo, que o ator Laurent Lucas (o seqüestrador) interpreta dois papéis diferentes. Assim, quando ele ressurge na tela, perto do final da projeção, o espectador pensa que se trata do seqüestrador. Assim, a platéia espera uma determinada reação de Tiresia, mas essa reação nunca vem. Isso confunde o espectador, acostumado aos códigos e convenções ditadas pela esmagadora maioria dos filmes contemporâneos.

Embora possa, pela temática, parecer atraente ao público GLS, mesmo esse grupo pode sair dos cinemas decepcionado. Há algumas cenas fortes, de sexo quase explícito, mas que fazem parte de um flashback esporádico. Pelo contrário: os personagens que estão em cena jamais são erotizados pelo olhar frio, quase sonâmbulo, do cineasta. De certa forma, esse filme me lembrou um velho longa do alemão Werner Herzog, “Coração de Cristal”, em que os atores atuaram hipnotizados. O clima onírico e o ritmo lento retiram inteiramente a carga erótica da história.

Esse detalhe parece ter sido mesmo intencional, especialmente quando se sabe que Bertrand Bonello filmou também “O Pornógrafo”, uma história menos ambiciosa, mas que também se esforça para desglamourizar, ou deserotizar, o sexo na sociedade contemporânea. “Tiresia” é um filme original, mas recomendado apenas para cinéfilos que gostam de filmes herméticos e/ou estudiosos de mitologia grega.

O DVD, lançado pela Califórnia Vídeo, é pobre: som em formato Dolby Digital 2.0, imagem em tela cheia (com cortes lateriais) e nenhum extra.

– Tiresia (Tiresia, França, 2003)
Direção: Bertrand Bonello
Elenco: Clara Choveaux, Thiago Teles, Laurent Lucas, Celia Catalifo
Duração: 116 minutos

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