Tiros em Columbine

03/11/2004 | Categoria: Críticas

Michael Moore faz abordagem bem-humorada e tendenciosa do apego norte-americano por armas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O documentário é um gênero menos nobre do cinema. Por razões históricas que não cabem nesse texto, o gênero demorou algumas décadas para se desenvolver propriamente. Mas jamais conseguiu espaço de exibição em salas nobres ou cadeias importantes de exibição, talvez por ser parecido demais com os programas de televisão a que o espectador tem acesso de graça. Michael Moore apareceu para mudar isso em pleno século XXI. “Tiros em Columbine” (Bowling For Columbine, EUA, 2002), a investigação promovida pelo cineasta a respeito do massacre de alunos e professores de uma escola nos EUA, foi o primeiro exemplar do gênero a alcançar bilheterias do nível de um grande lançamento.

Moore é uma figura polêmica. Gordo, boné na cabeça, o documentarista tem a aparência de um norte-americano médio. E ele age exatamente da forma que se esperaria de um habitante bem informado daquele país. Todo o discurso de Moore é montado sobre um amálgama de convicções políticas de esquerda, mas sem jamais esquecer da lei fundamental que movo os norte-americano: o direito supremo à liberdade individual. Essa é a base do estilo “Michael Moore” de fazer filmes.

Esse estilo consiste, basicamente, em se colocar como narrador e personagem, ao mesmo tempo, das histórias que narra. “Tiros em Columbine” é o resultado de alguns meses de investigação empreendidos pelo cineasta, acerca da obsessão dos norte-americanos por armas de fogo. Em certo sentido, Moore segue a clássica narrativa jornalística de abordagem de um problema social: monta um extenso painel do tema que aborda e, depois, entrevista pessoas que possam interpretá-lo para um público leigo.

Há dois problemas nessa abordagem. O primeiro é a insistência do cineasta em aparecer diante das câmeras, muitas vezes criando a notícia (e não simplesmente relatando-a). Essa é uma estratégia dos maus documentaristas. Moore faz isso, por exemplo, quando mente para o ator e ativista pró-armas Charlton Heston, a fim de conseguir entrevistá-lo e transformá-lo em pateta na frente das câmeras. Ainda que a argumentação de Heston seja reprovável sob qualquer aspecto, Moore não tem o direito de fazer o que fez.

O segundo problema é mais óbvio: Moore parece acreditar que as celebridades (o músico Marylin Manson, o comediante Trey Parker, o já citado Charlton Heston) são capazes de explicar um fenômeno complexo como a violência doméstica nos EUA melhor do que pessoas que efetivamente estudam o problema. Não se vê sociólogos, antropólogos ou pesquisadores acadêmicos entre os entrevistados. Esses profissionais passam a vida investigando os assuntos que Moore aborda, mas são ignorados pelo cineasta. Provavelmente porque eles não dariam nenhuma garantia nas bilheterias.

“Tiros em Columbine” tem vacilos, mas ainda assim é um filme bom. Explico: polêmico ou não, Michael Moore sabe como poucos colegas narrar um fato usando o humor corrosivo como fio condutor. Preste atenção na excelente animação utilizada para apresentar a “teoria” de Marylin Manson para explicar os altos índices de mortes por armas de fogo nos EUA. Ou a entrevista hilariante com um policial, que tenta explicar como um cachorro pode ter disparado uma arma contra o dono e não ter sido preso por isso.

O entusiasmo que muitos brasileiros sentem pelos filmes de Michael Moore é mais explicável pelo sentimento anti-EUA que existe, dentro das classes mais politizadas do Brasil, do que pela qualidade dos filmes do cineasta. Moore é inteligente, tem um estilo original, um senso de ritmo perfeito para um documentarista e feeling para escolher assuntos potencialmente explosivos. Mas faz filmes tendenciosos e pouco sólidos. Infelizmente.

– Tiros em Columbine (Bowling For Columbine, EUA, 2002)
Direção: Michael Moore
Documentário
Duração: 120 minutos

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