Titanic

19/03/2006 | Categoria: Críticas

Chave para entender o sucesso avassalador do filme de James Cameron está nas mulheres

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Em 1975, uma professora de Cinema da Universidade de Birbeck, em Londres, apresentou uma tese instigante sobre cinema. No artigo “Prazer Visual e Cinema Narrativo”, que provocou polêmica e ficou famoso, Laura Mulvey afirmou que o olhar sobre os filmes, construído subjetivamente pelo cinema norte-americano ao longo de décadas, era, sobretudo, um olhar masculino. Em palavras mais simples, Mulvey defendia que a maneira de ver o mundo defendida pelos filmes comerciais expressava, essencialmente, códigos e pontos de vista masculinos. Pode não parecer, mas essa tese é de crucial importância para explicar o avassalador e surpreendente sucesso do filme “Titanic” (EUA, 1997), de James Cameron.

Vejamos os fatos. Após dois anos de filmagens complicadas, com sucessivos estouros de orçamento que produziram o projeto mais caro da história do cinema, com custo total acima de US$ 200 milhões, “Titanic” foi lançado em meio a incertezas, em dezembro de 1997. O impacto sobre a platéia foi imenso, mas não espetacular. O boca-a-boca sobre o filme, no entanto, continuou crescendo, semana após semana, em atitude inédita para filmes lançados na segunda metade dos anos 1990. O resultado todo mundo conhece: uma bilheteria total de US$ 1,8 bilhão e a liderança isolada no posto de maior bilheteria de todos os tempos, com arrecadação duas vezes superior ao segundo colocado na lista. Para muita gente, um fenômeno inexplicável.

Algumas pessoas preferiram colocar o filme dentro de um contexto mais amplo, ajustando os números à inflação, o que relegaria “Titanic” à segunda posição da lista, atrás de “E o Vento Levou”, de 1939. De uma maneira ou de outra, faltava explicar a espantosa semelhança entre os perfis dos dois filmes. Como o esmagador sucesso do produtor David O. Selznick, o filme de James Cameron é uma história de amor épica, de tom melodramático, com uma protagonista feminina e um evento histórico verídico como pano de fundo (a Guerra Civil dos EUA dá lugar ao naufrágio do transatlântico mais luxuoso do mundo). Acreditar em mera coincidência seria ingenuidade demais.

Não, a explicação é outra: a atração exercida pelo filme no público feminino. As pesquisas feitas em Hollywood mostram que, no mundo todo, as audiências que lotam os cinemas são formadas principalmente por homens – e é aí que está a ligação entre “Titanic” e o ensaio de Laura Mulvey. O longa-metragem de James Cameron retrata, assim como a megaprodução de David O. Selznick, a história de uma mulher que questionou o comportamento que a sociedade dela esperava. Ambos são filmes que põem em cheque, de certa forma, o olhar masculino que Laura Mulvey vê como parte fundamental da teia ideológica do cinema.

Em outras palavras, os dois maiores filmes do cinema têm o mesmo tema. São filmes sobre mulheres independentes, mulheres que desafiam o olhar masculino monopolizador da própria atividade cinematográfica. Os números comprovam isso. Foram as mulheres, tanto em “Titanic” quanto em “E o Vento Levou”, que lotaram as salas de cinema. O público feminino fez a diferença. Por isso “Titanic” alcançou um nível tal de bilheteria que dificilmente será ultrapassado por outro concorrente. Em certa medida, chega a ser irônico que os maiores filmes do cinema questionem, de algum modo, o mecanismo da própria arte, mas essa contradição é própria da cultura de massa erguida no século XX.

Quanto aos méritos cinematográficos de “Titanic”, alguns deles são inegáveis: James Cameron é um cineasta tão criativo quanto perfeccionista, e isso fica evidente para qualquer um que veja o longa-metragem. Toda a reconstituição de época é simplesmente perfeita. O ano de 1911, em que se passa a história, é reconstituído de maneira quase mágica, utilizando-se uma combinação de efeitos digitais discretos e uma cenografia milimetricamente planejada. Os cenários interiores do transatlântico, por exemplo, foram reconstruídos pela empresa que havia decorado o Titanic original. Para as cenas externas e a longa seqüência do naufrágio, Cameron construiu um tanque gigantesco em pleno oceano, o que lhe permitiu filmar o desastre com riqueza assustadora de detalhes. A parte visual de “Titanic” é brilhante e inquestionável.

Por outro lado, o enredo não ultrapassa o nível do trivial. Como todos sabem, o filme narra, em flashback, a história de uma garota rica, Rose Dewitt Bukater (Kate Winslet), que se apaixona por um rapaz pobre, Jack Dawson (Leonardo Di Caprio), durante a viagem inaugural do transatlântico, condenada a terminar nas águas geladas do oceano Pacífico. Os dois vivem uma proibida paixão ardente dentro do navio, e James Cameron filma tudo com o ar grandiloqüente de um melodrama que acredita, sinceramente, em si mesmo. A fórmula é a mesma de “E o Vento Levou”, mas executada com extrema perícia, e provoca uma descarga lacrimal extremamente poderosa em algumas pessoas. Podemos não estar falando de uma obra-prima, mas “Titanic” certamente é um filme bem feito e com um nível de ressonância emocional que não pode ser desprezado.

Por alguma razão misteriosa (certamente problemas envolvendo direitos autorais), o longa-metragem ficou disponível em DVD, entre 1998 e 2005, apenas em uma edição espartana, sem nenhum extra. Nessa edição simples, o filme tem o enquadramento original respeitado (widescreen 2.35:1) e som com certificado de qualidade THX (Dolby Digital 5.1). Ou seja, é um produto de ótima qualidade. Mas os extras fazem muita falta.

Para quem quiser mergulhar nos bastidores da produção, a Paramount lançou em 2005 três edições especiais estufadas de extras. São caixas de dois, três e até quatro discos. A mais básica, dupla, inclui uma nova transferência digital do filme, agora com áudio Dolby Digital 6.1. Entre os extras, um final alternativo (9 minutos) e featurettes que podem ser vistos durante a exibição do filme (50 minutos), revelando detalhes sobre os bastidores de cada cena. Três comentários em áudio vêm no pacote: um com James Cameron, outro reunindo elenco e produtores, e um terceiro feito por historiadores. Para finalizar, um clipe de Celine Dion.

As caixas com três e quatro discos contêm os mesmos dois CDs básicos, mais um ou dois discos extras. Esses CDs têm dois documentários completos, 29 cenas cortadas (45 minutos), três paródias do filme, uma galeria com 15 trailers, outra com 1,7 mil fotos, e um featurette enfocando os efeitos visuais do filme. No total, são mais de três horas de material extra.

– Titanic (EUA, 1997)
Direção: James Cameron
Elenco: Leonardo Di Caprio, Kate Winslet, Billy Zane, Bill Paxton
Duração: 194 minutos

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