Todo Mundo em Pânico 4

04/10/2006 | Categoria: Críticas

Quarto exemplar da franquia que tira sarro de filmes de horror apenas repete uma fórmula sem novidades

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★☆☆☆☆

Não é preciso ser grande conhecedor de cinema para saber que só existe um motivo para que uma série cinematográfica repita a mesma fórmula narrativa, quase sem mudá-la, quatro vezes seguidas: um público grande e fiel. Filmes assim, porém, podem até serem populares, mas dificilmente possuem méritos cinematográficos. “Todo Mundo em Pânico 4” (Scary Movie 4, EUA, 2006) é o exemplo perfeito da teoria. Lançado nos EUA, fez quase US$ 90 milhões nas bilheterias do país de origem, embora repise a mesma idéia dos três antecessores sem nenhuma novidade. Ou seja, trata-se de uma série de esquetes cômicos, que não necessariamente contam uma história lógica, e satirizam grandes sucessos do cinema, especialmente (mas não apenas) filmes de horror.

É um pouco constrangedor ver uma turma de veteranos cineastas cômicos, responsáveis por uma revolução na comédia norte-americana, assumirem uma franquia que derivou do próprio trabalho desenvolvido por eles nos anos 1980. Pois foi exatamente isso o que ocorreu. A série, inspirada no filme “Pânico”, de Wes Craven (herdou dela inclusive o nome original, que quase foi usado na produção de Craven), tem uma abordagem similar aos filmes do grupo ZAZ, auto-intitulado grupo de comediantes que fez o pequeno clássico cômico “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu”, em 1980.

Um dos diretores deste clássico infanto-juvenil da comédia americana foi exatamente David Zucker, o homem que comanda como “Todo Mundo em Pânico 4”. Ele ainda trouxe com ele os roteiristas Jim Abrahams e Pat Proft, que ajudaram a escrever outros sucessos do gênero, como a série “Corra que a Polícia Vem Aí”. Todos esses filmes são construídos em cima da mesma idéia: satirizar outros filmes inserindo grande quantidade de citações a cenas famosas. A diferença é que este estratagema, utilizado para temperar as tramas simples e o humor pastelão de Zucker, virou o prato principal nos filmes da série “Todo Mundo em Pânico”.

Embora o trio famoso tenha ficado de fora das duas primeiras partes da nova franquia, não fez nenhuma alteração significativa nos dois filmes seguinte. Dá para notar apenas uma pequena alteração: as sátiras agora não se limitam a tirar sarro de filmes modernos de horror, brincando também com outros gêneros – os melodramas “O Segredo de Brokeback Mountain” e “Menina de Ouro”, por exemplo, geraram duas das mais engraçadas cenas de “Todo Mundo em Pânico 4”. A obra-prima de Clint Eastwood, aliás, aproveita para tirar sarro com o boxeador Mike Tyson e a célebre mordida na orelha do rival Evander Holyfield. É um dos melhores momentos e rende boas gargalhadas.

Infelizmente, momentos genuinamente hilariantes com o citado acima são bem raros. A maior parte das gags e piadas investe em humor histérico, pastelão, previsível, rasteiro mesmo. É o tipo de humor chulo, cheio de gírias, palavrões e insinuações sexuais explícitas, que faz sucesso entre a garotada dos Estados Unidos, público que o filme quer conquistar. Portanto, não espere nada sofisticado, nada de gags com o estilo politizado do grupo inglês Monty Python ou intelectualizadas como as tiradas de Woody Allen. O filme investe numa longa seqüência de piadas sobre flatulência e nojeiras em geral, na linha de outra série juvenil famosa, “American Pie”. É por aí.

Em linhas gerais, não há exatamente uma história linear, mas uma seqüência de esquetes cômicos, cada um satirizando um filme específico. Há, porém, dois personagens principais: Tom (Craig Bierko) e Cindy (Anna Faris). Ele interpreta a versão torta de Tom Cruise em “Guerra dos Mundos”, enquanto ela brinca o personagem de Sarah Michelle Gellar em “O Grito”. As duas histórias colidem e viram um samba do crioulo doido: uma espécie de comédia romântica sobre um casal se apaixonando, temperada com fantasmas e alienígenas. Várias cenas sem qualquer relação com os dois protagonistas são inseridas na trama, como a abertura que sacaneia “Jogos Mortais” e tem a participação do astro de basquete Shaquille O’Neal. A falta de uma história consistente nem importa muito, pois a graça da produção está no ato de pegar cenas de filmes conhecidos, que o espectador já viu antes, e transformá-las em esquetes cômicos, sem preocupação com veracidade ou lógica.

Freqüentadores assíduos de cinemas não vão ter dificuldades em reconhecer os longas-metragens que serviram como inspiração (“Guerra dos Mundos” e “O Grito” são citados inúmeras vezes, mas há também brincadeiras com “A Vila”, “O Chamado 2” e muitos outros). Aliás, uma breve análise do cardápio de citações mostra uma adaptação na velha fórmula criada por David Zucker e amigos: não existem mais referências a clássicos do passado, e a inspiração tem que vir de filmes recentes. Ou você acha que a geração atual seria capaz de reconhecer citações a “Ben-Hur” (1959) ou “Touro Indomável” (1980)? Sem chance!

Na verdade, a qualidade decrescente de produções como “Todo Mundo em Pânico 4” tem origem justamente na óbvia ignorância cinematográfica do público que lota os Multiplex para assisti-las. Como grande parte da platéia não tem uma cultura cinematográfica, ou seja, não possui uma bagagem consistente de filmes, piadas requentadas podem facilmente passar como novidade. Se você faz parte dessa turma que vai ao cinema ocasionalmente e não está preocupado com o quesito originalidade, pode conferir sem medo. Se prefere uma comédia mais adulta e sofisticada, é melhor procurar direito na locadora.

O lançamento da Buena Vista vem em DVD simples e sem extras, em cópia boa, que preserva o enquadramento original (widescreen anamórfico) e tem bom som (Dolby Digital 5.1).

– Todo Mundo em Pânico 4 (Scary Movie 4, EUA, 2006)
Direção: David Zucker
Elenco: Anna Faris, Regina Hall, Craig Bierko, Leslie Nielsen
Duração: 83 minutos

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