Todo Mundo Quase Morto

22/08/2005 | Categoria: Críticas

Comédia inglesa mistura romance com zumbis e música pop classe A para criar passatempo perfeito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um sujeito divertido que, apesar de ter quase 30 anos, ainda age como um adolescente. Adora jogar videogame, soltar arrotos, beber cerveja todo dia no mesmíssimo pub da esquina. Ele tem um emprego vagabundo de vendedor, mas não está nem aí para isso. Esta é a descrição perfeita de Rob Gordon, o já clássico protagonista de “Alta Fidelidade”, de Stephen Frears, certo? OK, sim, mas estamos falando de outro cara: Shaun, o personagem principal do filme mais cultuado de 2004: “Todo Mundo Quase Morto” (Shaun of the Dead, Inglaterra, 2004). Cópia xerox? Nada disso.

Faça o seguinte: imagine um cruzamento de “Alta Fidelidade” com “O Retorno dos Morto-Vivos”, de George Romero, temperado com fartas dose do estilo MTV de montagem jovem e hiperacelerada, muito usado em filmes como “Snatch” e “Corra Lora Corra”. Pronto, agora você já sabe que “Todo Mundo Quase Morto” se situa num cruzamento perigoso de gêneros. O filme quer ser comédia, mas também quer ser terror gore, sangrento. É um desafio, mas a dupla de criadores por trás do projeto, Edgar Wright (direção) e Simon Pegg (roteiro e atuação), se sai muito bem. “Todo Mundo Quase Morto” é engraçado, nojento, ágil e divertido. E ainda possui uma trilha sonora classe A.

Quando começa, a produção inglesa parece seguir os passos de “Alta Fidelidade”. Shaun (Simon Pegg) está prestes a levar um pé na bunda de Liz (Kate Ashfield), a namorada. Ela está cansada de passar todas as noites no pub, fazendo programas masculinos, vendo o namorado tomar cerveja com o amigão Ed (Nick Frost) e ouvindo piadas sujas, peidos e arrotos. Encorajada pelo casal “adulto” de amigos inseparáveis, David (Dylan Moore) e Dianne (Lucy Davis), Liz pede um tempo e vai para casa. Shaun entra em depressão. Ele não consegue ver nada de errado com os hábitos que tem, mas sabe que eles são incompatíveis com Liz.

Para completar, a vida de Shaun não é exatamente um mar de rosas. Os subalternos da loja de eletrodomésticos onde ele trabalha não o respeitam. O vizinho também está cansado de pagar a comida de Ed, o amigo parasita de Shaun. A mãe, Mary (Nicola Cunningham), faz pressão para conhecer a namorada do filho. As confusões são tantas que o rapaz não consegue perceber a invasão de zumbis que está tomando Londres de assalto. A platéia, é claro, acompanha tudo vendo as imagens em segundo plano: assassinatos no meio da rua, correria, flashes de noticiário. Mas Shaun, atormentado com tantos problemas, está mergulhado demais em seu mundo interior para perceber os zumbis caminhando em volta dele. Só a platéia vê isso. Shaun não vê nada.

A sinopse parece séria demais? Esqueça. Simon Pegg e Edgar Wright fazem um filme vibrante, jovem e inteligente. Várias cenas são aceleradas através da montagem alucinada, mais ou menos da maneira que Darren Aronofsky fez nas cenas de chapação em “Réquiem Para um Sonho”. A trilha sonora é sensacional, repleta de pérolas pop que pairam entre o cafona (Chicago, Queen) e o modernoso (Morrisey, Ash). Detalhe importante é que “Todo Mundo Quase Morto” usa a estratégia de “Moulin Rouge”, pois nenhuma música está no filme gratuitamente; há sempre uma referências nas letras às situações inusitadas propostas pelo roteiro. As piadas são de estilos diversos, às vezes grosseiras e verborrágicas, mas também sutis e silenciosas. Sempre têm qualidade.

A enxurrada de referências a filmes, livros, quadrinhos e obras pop também segue com originalidade, fugindo do óbvio e buscando o surpreendente, o inusitado. Vai do nome do restaurante italiano que Shaun quer levar Liz (Fulci’s, nome de um diretor italiano de filmes gore de zumbi, Lucio Fulci) até a aparição de algumas celebridades famosas que fazem figuração como mortos-vivos no meio da multidão (Chris Martin, líder da banda Coldplay, está lá).

“Todo Mundo Quase Morto” pode parecer meio bobo quando se conhece apenas o enredo básico. Imaginar um típico rapaz inglês com problemas amorosos que não se toca da invasão de zumbis ao seu redor é pensar em “Todo Mundo Quase Morto” como um filme de uma só piada, mas a obra de Edgar Wright vai muito, muito além disso. É comédia classuda, nem um pouco óbvia, com timing cômico perfeito, bons atores desconhecidos, piadas geniais e ritmo vibrante.

Se ainda não lhe convenceu, tente imaginar três das melhores seqüências do longa-metragem: 1) Shaun e Ed tentam retardar a aproximação de um zumbi atirando nele uma coleção antiga de discos de vinil, um a um. O dilema, no caso, é escolher quais os discos que devem ser lançados (“Dire Straits? Pode jogar!”); 2) Para atravessar um terreno lotado de zumbis, Shaun e seus amigos decidem… se fazer passar por zumbis, caminhando como retardados, grunhindo e babando; 3) O ataque sincronizado de Shaun e colegas a um zumbi, ao ritmo de “Don’t Stop Me Now” do Queen, criando uma hilariante espécie de muito doida coreografia do assassinato. É genial, acredite.

Cenas desse nível são lugar-comum em “Todo Mundo Quase Morto”, e não exceções. Isso é o melhor de tudo. O filme é a prova definitiva que os comediantes da TV inglesa estão atingindo um ponto de equilíbrio perfeito entre o humor fino (às vezes, distante e frio demais) da Inglaterra e o estilo mais grosseirão (às vezes, clichê demais) dos norte-americanos. Espere para ver o destino final dos zumbis do filme (incluindo uma referência diabolicamente engraçada a “Extermínio”, filme inglês de 2002) e experimente não cair na gargalhada! “Todo Mundo Quase Morto” é uma das melhores comédias dos últimos dez anos, e isso não é pouco.

A Universal fez um bom trabalho no DVD lançado no Brasil. Para começar, o filme aparece com enquadramento original (widescreen 2.35:1) e som potente (Dolby Digital 5.1). Os extras, bastante criativos, incluem cenas cortadas (10 minutos), featurettes, trailers e dois segmentos interessantíssimos, um reunindo diretor e roteirista fazendo uma apresentação do filme em um quadro-negro (13 minutos) e outro respondendo de forma interativa três buracos do roteiro. Para fechar o pacote, comentário em áudio de Wright e Pegg. Os menus animados são bem divertidos, e tudo está legendado em português. Um ótimo lançamento.

– Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, Inglaterra, 2004)
Direção: Edgar Wright
Elenco: Simon Pegg, Nick Frost, Kate Ashfield, Dylan Moran
Duração: 99 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


4 comentários
Comente! »