Todos os Homens do Presidente

18/04/2006 | Categoria: Críticas

Longa de Alan J. Pakula é ótimo thriller e aula completa para qualquer aspirante a jornalista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O caso de Watergate é um marco obrigatório para qualquer jornalista ou estudante de Comunicação. No entanto, por envolver uma enorme quantidade de pessoas, eventos e detalhes, um caso desse gênero parece impossível de ser transformado em um filme coerente e fiel à realidade. O astro Robert Redford não pensava assim quando, antes mesmo que o livro dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein narrando as investigações promovidas pelos dois repórteres fosse publicado, comprou os direitos cinematográficos da obra. Surpresa: “Todos os Homens do Presidente” (All the President’s Men, EUA, 1976) é um thriller de suspense excelente, e uma aula completa para qualquer aspirante a jornalista.

Watergate faz parte dos mitos do século XX. Antes de acontecer, na primeira metade dos anos 1970, ninguém poderia acreditar em algo semelhante. Afinal, nenhum presidente de país democrático havia sofrido um impeachment, em nenhum momento da história. Quem poderia imaginar que o trabalho de dois jornalistas dedicados, investigando um prosaico caso de arrombamento, poderia tirar do poder um dos presidentes mais populares que os Estados Unidos já tiveram? Pois foi exatamente isso o que ocorreu. O Jornalismo justificava, em Watergate, o título simbólico de Quarto Poder.

Woodward e Bernstein eram dois iniciantes com garra e vontade de aprender. Os dois foram acordados, em uma manhã de sábado que parecia rotineira, para cobrir a prisão de cinco homens flagrados dentro da sede do Partido Democrático, em Washington. Aparentemente, os sujeitos estavam tentando instalar grampos nos telefones e escutas clandestinas no local. Durante as entrevistas preliminares do caso, Woodward descobriu por acaso que um dos acusados tinha sido funcionário da CIA. Começava, sem saber, a desvendar um dos mais complexos esquemas de sabotagem política já montados nos EUA.

O filme de Alan J. Pakula tinha tudo para dar errado. Há, ao todo, pelo menos 30 ou 40 pessoas que desempenham papéis de destaque na investigação promovida pelos dois repórteres. Montar todo esse painel sem confundir o espectador, ou sem tornar a narrativa complicada demais, prolixa demais, era um trabalho hercúleo de que o roteirista William Goldman se incumbiu magnificamente. O resultado é um filme ágil, com ritmo de thriller de suspense, fácil de acompanhar e fiel aos fatos. Goldman acabou premiado com um Oscar pela empreitada, e merecidamente.

Robert Redford cercou a produção de cuidados para garantir a verossimilhança do projeto. Uma cópia exata da redação do Washington Post foi construída em Los Angeles para servir de cenário. Móveis e máquinas de escrever foram comprados nos mesmos fabricantes. A direção de arte chegou ao requinte de transportar algumas toneladas de lixo do jornal para os sets, fazendo uma carreta cruzar o país para reproduzir a redação verdadeiro nos mínimos detalhes. Não à toa, o Oscar de direção de arte também foi para “Todos os Homens do Presidente”. O filme é um primor de reconstituição de época.

Atrás das câmeras, o gênio Gordon Willis (fotógrafo de “O Poderoso Chefão”) usou a reconhecida habilidade de filmar cenas escuras, com fortes contrastes, para bolar um visual que deixasse todos os ambientes, exceto a redação banhada de luz, imerso em sombras. A idéia era criar uma metáfora visual que sublinhasse o enredo do filme: os repórteres freqüentavam ambientes onde todos tinham algo a esconder, e tentavam deixar tudo às claras.

Com tantos detalhes, ficou fácil para que dois dos atores mais camaleônicos da geração dos anos 1970 interpretassem o par central com segurança. A química entre Redford e Dustin Hoffman é perfeita; os dois fazem jus ao apelido de “Woodstein”, dado aos verdadeiros jornalistas pelos editores do Washington Post (o nome é uma corruptela dos sobrenomes de ambos, e é ouvido no filme algumas vezes, e é preciso atenção para pescar esse detalhe).

A direção segura de Pakula dá o toque final, fazendo do filme um verdadeiro manual de procedimentos para a prática do Jornalismo investigativo. “Todos os Homens do Presidente” discute técnicas de reportagem, abordagem de testemunhas, ética e todos os aspectos do que significa ser um repórter. É um pacote completo; não esquece nem de mostrar o lado ruim da profissão – a complicada vida pessoal, os momentos de tédio e de espera quase infinita, o paciente e fascinante trabalho de conquistar a confiança de uma fonte.

Pode-se argumentar que “Todos os Homens do Presidente” é um filme datado e difícil de ser compreendido, em todas as suas sutilezas, hoje em dia. Não é mentira. Pouca gente, em pleno século XXI, está familiarizada com o caso Watergate, mesmo entre jornalistas e estudantes de Comunicação. Espectadores brasileiros podem ter ainda mais dificuldades com a profusão de nomes, sobrenomes, datas e cargos da complicada hierarquia pública federal de um país estrangeiro.

A verdade é que, a despeito de toda essa tralha complicadora, “Todos os Homens do Presidente” é um ótimo filme, eletrizante e bem conduzido, sobre a atividade jornalística. Quem tiver paciência para encarar a dificuldade inicial vai, assim que superá-la, se deparar com um tesouro de celulóide. O único defeito da película está no final sem clímax, já que a ação se encerra quando Nixon é reeleito para o segundo mandato; o resto do caso é narrado através de uma criativa, mas pouco emocionante, sucessão de matérias em telex chegando à redação do Post.

Existem duas versões em DVD de “Todos os Homens do Presidente”, ambas lançadas pela Warner. A primeira edição tem só o filme, com laterais cortadas (1.33:1) e áudio razoável (Dolby Digital 1.0). A edição especial dupla é maravilhosa: o disco 1 tem o filme com enquadramento original (wide 1.85:1) e áudio restaurado (DD 1.0), mais comentário em áudio de Robert Redford. O disco 2 traz quatro documentários, sendo um sobre as filmagens (29 minutos), outro sobre o trabalho dos verdadeiros jornalistas (18 minutos), um terceiro sobre o Garganta Profunda, cuja identidade foi revelada em 2005 (17 minutos), e o quarto (10 minutos) é um making of de 1976. Há ainda uma entrevista dada pelo ator Jason Robards (8 minutos) em um programa de TV.

– Todos os Homens do Presidente (All the President’s Men, EUA, 1976)
Direção: Alan J. Pakula
Elenco: Robert Redford, Carl Bernstein, Jason Robards, Jack Warden
Duração: 139 minutos

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