Tolerância Zero

10/12/2003 | Categoria: Críticas

Um judeu pode criar argumento lógico para virar neonazista? Personagem fascinante mostra que sim

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um judeu neonazista. Construído com essas características, o protagonista de “Tolerância Zero” (The Believer, EUA, 2001) tem potencial explosivo para transformar o longa-metragem em puro nonsense. Afinal de contas, a situação hipotética não faz nenhum sentido. Ou melhor, o espectador acredita nisso até encontrar o filme de estréia do cineasta Henry Bean. Durante a projeção, no entanto, quem estiver atento vai ser obrigado a capituar aos poucos. Na verdade, a platéia reage exatamente como as pessoas para as quais o jovem Danny Balint (Ryan Gosling) discursa, na ficção: o que ele diz faz completo sentido.

“Tolerância Zero” é um filme verborrágico como poucos. Corajoso também. Ao perfilar um protagonista perturbado mas extremamente talentoso, a película acabou gerando enorme polêmica no meio cinematográfico norte-americano. Depois de ser exibido, no festival de Sundance, em 2001, o trabalho gerou uma onda de protestos de cinéfilos que viam o filme como perigoso, pois poderia influenciar cabecinhas mais fracas por parecer, na superfície, um libelo fascista. Mas só na superfície. A mensagem de “Tolerância Zero” é completamente oposta e, depois de muita batalha por parte dos realizadores, a obra acabou lançada comercialmente, quase um ano depois.

É interessante perceber que ninguém jamais questionou a qualidade do filme de Henry Bean. “Tolerância Zero” venceu o prêmio do júri em Sundance, conseguiu uma vitória consagradora em várias categorias do Spirit Award (premiação importante do circuito independente nos EUA) e ganhou fartos elogios da crítica. Esses elogios, porém, sempre vinham acompanhados de advertências. Temia-se que o filme pudesse despertar uma onda de fúria anti-semita, por conta do discurso surpreendentemente bem articulado de Danny Balint.

Nada disso aconteceu, em parte porque o filme ficou muito tempo na geladeira. O canal a cabo Showtime o comprou e depois cancelou a exibição, após os atentados de 11 de setembro de 2001. A distribuição só aconteceu meses depois, em salas limitadas. Uma pena. Se mais crédito fosse dado ao longa-metragem, o público teria sido presenteado com um dos personagens mais bem construídos dos últimos tempos – e, por conseqüência, com um dos mergulhos mais profundos nos medos, desejos e hesitações de uma figura fictícia (parcialmente, pois a história foi inspirada num caso real, ocorrido em 1967, em Nova Iorque). Tudo isso faz de “Tolerância Zero” um ótimo filme.

Danny Balint é um líder nato. Desde criança (vemos vários flashbacks no longa), acostumou-se a questionar todo e qualquer dogma, bem como desenvolveu uma capacidade extraordinária de tecer argumentos lógicos para defender q ualquer teoria, por mais improvável que parecesse. Daí, a transformação do judeu num jovem e violento neonazista, capaz de construir um discurso plausível para essa dupla – e aparentemente inconciliável – condição, é recebida com certa naturalidade pelo espectador. Os momentos mais fascinantes de “Tolerância Zero” são, sem dúvida, os longos discursos do rapaz.

A trama do filme é pontual e secundária, já que interessa muito mais ao cineasta enfocar o conflito interno do protagonista. Bean o faz de maneira admirável, alternando seqüências inteiramente visuais (numa delas, extremamente expressiva, Danny se prepara para cumprir uma missão anti-semita enrolando o corpo numa bandeira de Israel) com os admiráveis discursos proferidos por ele, que rapidamente se torna um líder nos círculos fascistas – tanto o grupo mais sofisticado, espécie de braço político-ideológico do movimento, quanto os mais plebeus, basicamente formados por skinheads alienados – de Nova Iorque.

Cabe ressaltar também a excepcional atuação de Ryan Gosling, defendendo o papel principal com uma ferocidade inesgotável; em certos momentos, flashes do carismático Tyler Durden de “Clube da Luta” relampejam nos olhos do ator, merecidamente premiado no Spirit Awards. O filme guarda semelhanças, também, com “A Outra História Americana”, cujo protagonista (interpretado com a mesma energia por Edward Norton) também é um neonazista perturbado.

A diferença entre esses dois filmes é que “Tolerância Zero” escolhe o caminho mais difícil e jamais escorrega para uma redenção pura e simples dos pecados do protagonista. Sim, isso acontece, mas de uma forma complexa e jamais maniqueísta, muito apropriada para o desenvolvimento da história. O enredo desemboca, aliás, num final ambíguo e muito original. São muitos predicados para um filme que serve tanto como lição de oratória quanto como libelo anti-racista. Em DVD, o filme vem solitário, sem extras, com imagem original e som DD 5.1.

– Tolerância Zero (The Believer, EUA, 2001)
Direção: Henry Bean
Elenco: Ryan Gosling, Summer Phoenix, Billy Zane, Theresa Russell
Duração: 98 minutos

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