Tony Manero

26/08/2009 | Categoria: Críticas

Pequeno drama naturalista de Pablo Larrain flerta com um clássico improvável dos anos 1970 e cria um filme de personagens que tem lado político sutil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O título de “Tony Manero” (Chile, 2008) já escancara, sem deixar dúvidas, o parentesco do pequeno drama naturalista de Pablo Larrain com o filme que transformou John Travolta em astro e anunciou o domínio da disco music no cenário pop dos anos 1970. Espectadores que nunca viram o longa-metragem norte-americano podem expressar alguma incredulidade, por causa da aura (falsa!) de filme escapista e alto astral que cerca “Os Embalos de Sábado à Noite”, mas estarão errados ao fazê-lo. As duas obras tratam o mesmo tema – a falta de perspectiva de toda uma geração – com um tom amargo e realista, dão ênfase a personagens bem construídos e elevam o tom crítico em relação a dois modelos sociais bem distintos, mas que se assemelham na ausência de preocupação com o lado humano de políticas sociais repressivas.

Obviamente, as abordagens ao tema são muito diferentes, cada uma inserida dentro de um contexto político, econômico e estético muito particular. O filme chileno não tenta esconder seu tamanho mínimo, enveredando sem pudor pela estética imperfeita, minimalista e naturalista que tem dominado as cinematografias periféricas do século XXI (e aí podemos incluir autores de todos os países, inclusive EUA, que não mantêm relações com grandes estúdios). Seus atores têm rostos comuns, corpos comuns, falam como gente comum e agem como gente comum – e isto é um grande elogio para uma época em que personagens de filmes maiores mais parecem bonecos pré-fabricados em linhas de montagem. Aqui, mesmo os menores coadjuvantes têm luz própria e parecem existir do lado de cá da tela.

O protagonista de “Tony Manero” é Raul (Alfredo Castro), um homem monossiblábico na faixa dos 50 anos que cultiva uma obsessão toda particular por “Os Embalos de Sábado à Noite”. O cineasta Pablo Larrain constrói o mundo que cerca o personagem com grande cuidado e enorme senso de humanidade. Ele mora numa pensão de quinta categoria, onde dança todas as noites num palco improvisado, quase sempre copiando (mal) as coreografias de John Travolta. As tardes são passadas no cinema local, caindo aos pedaços, enquanto ele decora cada gesto, cada fala de Tony Manero. Aliás, é curioso como o cinema pouco aborda esse incrível fenômeno de identificação que existe entre entre espectador e personagem, um fenômeno descrito e estudado na teoria fílmica desde Hugo Munsterberg (ou seja, 1916).

À primeira vista, pode até parecer que nada haja de comum entre Tony Manero (o original) e Tony Manero (o imitador), mas bons observadores irão observar que o elo de união entre os dois é extamente o tema do filme: a falta de perspectiva. As noites de sábado representavam a única oportunidade de brilhar, para o personagem de John Travolta, um filho de latinos pouco alfabetizado cujo futuro rescende a fracasso. Seu clone chileno não tem nem mesmo as noites de sábado, embora sonhe com elas. Ele namora uma moradora da pensão, flerta com a filha dela (é obviamente respeitado por todo mundo lá, devido a razões que nunca descobrimos), mas não gosta mesmo de ninguém. No auge da impotência pelo imbolismo, ele aciona o mecanismo natural de auto-preservação que todos possuímos e persegue a pose do Tony Manero original. Compra um terno idêntico, se esforça para montar um pequeno palco com iluminação no nível do chão, que permita valorizar suas coreografias meia-boca.

O surgimento de um concurso na TV local, para escolher o melhor imitador de Tony Manero, acelera o processo de auto-destruição acionado pelo desespero de querer algo da vida que não se pode ter, e nem sequer se sabe o que é. Aos poucos, nosso Tony Manero de araque vai se revelar um psicopata, indo de pequenos furtos a assassinatos para manter vivo o processo de identificação com o dançarino norte-americano. O roteiro, lindamente escrito pelo diretor (com ajuda do ator Alfredo Castro e Mateo Irribaen), deixa diversas brechas para o espectador preencher – algo louvável nos dias de hoje –, trata de manter as surpresas sem trair a coerência dos personagens, e encontra espaço para nos dar um panorama assustador dos anos de chumbo da ditadura de Pinochet (anos 1970, quando a história se passa).

Não é difícil contextualizar “Tony Manero” dentro do panorama de produção cinematográfica independente da América Latina construído a partir da progressiva abertura política no continente (ou seja, do final dos anos 1980 para a frente). É um cinema naturalista, feito com poucos recursos e desprezando solenemente o melodrama. Há reminiscências claras dos Cinemas Novos e do Terceiro Cinema (movimentos dos anos 1960 que faziam o elogio do cinema imperfeito), mas sem os simbolismos obscuros e as conotações político-ideológicas daquela época; é um cinema calcado no movimento interior dos personagens, mas que não esquece de dialogar com sua época. Em poucas palavras, é um belo cinema.

O DVD nacional sai com o selo da Imagem Filmes. Enquadramento (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 2.0) são bons.

– Tony Manero (Chile, 2008)
Direção: Pablo Larrain
Elenco: Alfredo Castro, Paola Lattus, Hector Morales, Amparo Noguera
Duração: 98 minutos

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