Topo, El

17/03/2008 | Categoria: Críticas

Delirante e onírico, Jodorowski mistura Buñuel, Fellini, Lynch e Browning em arremedo de faroeste espaguete

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Imagine que Os Trapalhões fossem fãs de faroestes espaguete e resolvessem, durante o melhor momento do grupo (anos 1970), criar uma homenagem/paródia ao gênero. Agora imagine que eles decidissem fazer do filme um projeto coletivo, com partes dirigidas por Luis Buñuel, Federico Fellini, Tod Browning e David Lynch, jogando na mistura pitadas generosas de números circenses, misticismo à Carlos Castañeda, filosofia encharcada de mescalina e estética kitsch latino-americana. O resultado seria parecido com “El Topo” (México, 1970), o delirante faroeste hippie-metafísico que transformou o cineasta Alejandro Jodorowski em estrela do cinema underground.

O chileno Jodorowski é o que se convencionou chamar de multi-artista. Foi palhaço de circo na capital Santiago antes de se mudar para a França, onde estudou mímica e criou um grupo de teatro experimental, antes de se aventurar na literatura e dirigir curtas-metragens surrealistas. Virou cineasta cultuado por gente como John Lennon e Samuel Fuller ao dirigir “El Topo”, seu segundo trabalho de longa-metragem. Lendário, o filme foi a obra que lançou a tendência norte-americana das exibições de filmes realizadas à meia-noite, em salas de cinema alternativas, para platéias formadas por artistas e jovens culturalmente engajados. Graças ao apoio ostensivo de Lennon, o filme ganhou distribuição internacional e se transformou na cria mais famosa de Jodorowski.

A rigor, trata-se de uma fábula metafísica delirante, que mistura símbolos culturais de diferentes origens para construir, a partir do esqueleto narrativo de um faroeste, uma colagem de imagens oníricas e extravagantes que Salvador Dali teria orgulho de assinar. “El Topo” é claramente constituído de duas partes, organizadas a partir de uma mistura vaga de conceitos budistas (iluminação) e cristãos (ressurreição). Na primeira, um pistoleiro sem nome e vestido de negro vaga pelo deserto, acompanhado por uma criança nua, que troca por uma mulher sexualmente agressiva. Ele enfrenta quatro mestres do lugar como uma espécie de provação bíblica. Na segunda metade, após enfrentar e morte e ressuscitar como um frade franciscano, o personagem-título se torna artista mambembe, mendigando em comunidades no limiar do mesmo deserto para alcançar, através de uma vida ascética, a sabedoria suprema.

Além de atuar no papel-título, dirigir e escrever o filme, Jodorowski também foi responsável pela música e assinou design de produção e figurinos – ou seja, concebeu o visual kitsh e multicolorido que marca a produção. O filme é estranho, bizarro. Jodorowski mostra predileção por imagens de violência fortemente estilizada, acentuada ainda pela presença de atores amadores com defeitos físicos (aleijados, homens sem braços e sem pernas, albinos). A narrativa se afasta do realismo o máximo que pode, algo confirmado até mesmo pela divertida edição de som sem perspectiva. Perceba, por exemplo, como os ruídos sempre parecem vir de fontes próximas à câmera, mesmo quando os personagens são filmados a grande distância. A montagem desleixada e o tratamento de cores, kitsh até o osso, impõem uma distância ainda maior das produções ditas convencionais.

Daí o tremendo sucesso do filme para uma platéia diminuta. “El Topo” surgiu num momento culturalmente único – a revolução hippie –, quando artistas de todos os ramos tentavam expandir os limites da Arte. Se o trabalho de Jodorowski consegue ou não alcançar este intento, é impossível afirmar. Dá para dizer, sem medo de errar, que filmes como “El Topo” não são para gosto de todos. A estilização visual, a narrativa onírica, o uso indistinto de ícones culturais de origens diversas e o conteúdo metafísico claramente ambicioso, mas trabalhado de forma simplista, são elementos mais do que suficientes para colocar o trabalho do diretor chileno num patamar só dele. Cabe ao espectador apreciar ou rejeitar este coquetel delirante de referências culturais.

Durante 37 anos, o filme jamais foi lançado no mercado de home video devido a disputas legais entre Jodorowski e o empresário Allen Klein (o mesmo que empatou a distribuição dos primeiros discos dos Rolling Stones em CD durante alguns anos). Em março de 2007, o embate foi finalmente resolvido, e a empresa Anchor Bay desovou, nos EUA, uma caprichada edição restaurada do filme. A qualidade de imagens (1.33:1) e áudio (Dolby Digital 5.1) é ótima, e o disco tem até legendas em português. Como extras, um comentário em áudio e um featurette com entrevista do diretor (7 minutos), galeria de fotos e trechos do roteiro original com anotações manuscritas. O DVD nacional, da Blue Screen Collection, apenas elimina os extras da edição importada.

– El Topo (México, 1970)
Direção: Alejandro Jodorowski
Elenco: Alejandro Jodorowski, Brontis Jodorowski, José Legarreta, Robert John
Duração: 125 minutos

| Mais


Deixar comentário