Torres Gêmeas, As

29/01/2007 | Categoria: Críticas

Oliver Stone filma melodrama apolítico que escorrega com freqüência para o terreno lamacendo do dramalhão

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Quando um diretor com as credenciais de Oliver Stone decide fazer um filme baseado em um evento real, um ato terrorista que alterou radicalmente o mapa da geopolítica internacional e deixou cicatrizes profundas na auto-estima do povo norte-americano, a platéia imagina que sabe o que esperar: uma obra audaciosa, explosiva, engajada e rebelde. Ninguém se espantou quando Stone anunciou que filmaria um longa-metragem baseado no traumático atentado de 11 de setembro de 2001, apenas cinco anos após o evento. O diretor construiu uma carreira vitoriosa e polêmica com esse tipo de trabalho, algo que pode ser comprovado com a trilogia que dirigiu sobre a guerra do Vietnã e, principalmente, com “JFK” (1991).

Por isso, é surpreendente constatar que Oliver Stone realmente deixou de lado a faceta engajada ao filmar “As Torres Gêmeas” (World Trade Center, EUA, 2006). O filme é um melodrama apolítico, descontextualizado, e freqüentemente desliza para o terreno lamacento do dramalhão, apostando numa receita de chavões e clichês (música melosa, câmera lenta, diálogos lacrimosos dignos de novela mexicana) que decepciona quem esperava um trabalho à altura da tradição do diretor. A história dramatiza os momentos críticos vividos por dois policiais nova-iorquinos dentro de uma das torres que desabaram naquele dia, sem jamais fazer qualquer menção à palavra “terrorismo”.

Esta afastamento completo e intencional do contexto em que ocorreram os atentados é um dos detalhes que mais imediatamente saltam à vista aos observadores atentos. Remando contra a maré do que sempre fez, Oliver Stone isola do contexto político o drama humano vivido pelas pessoas que estavam lá, no WTC, naquele dia fatídico. Em tese, nada há de errado com tal postura, pois todos sabemos que as histórias universais, aquelas que emocionam independentemente do espaço e do tempo, são justamente as mais humanas, que fornecem material emocional para que com ele nos identifiquemos. No entanto, a opção apolítica soa estranha, incomum para um cineasta como Stone, animal político por excelência.

Toda a narrativa de “As Torres Gêmeas” está concentrada no dia do atentado. O filme quase inteiro é montado como uma gigantesca montagem paralela, com o foco se alternando entre duas frentes narrativas distintas. Na principal, acompanhamos o drama dos bombeiros John McLoughlin (Nicolas Cage, apenas razoável) e Will Jimeno (Michael Peña, o melhor ator do filme), soterrados sob os escombros de uma das torres enquanto tentavam socorrer vítimas do choque do primeiro avião. Imobilizados por gigantescas colunas de concreto, urrando de dor e sem saber de nada do que está ocorrendo acima, os dois tentam manter a calma enquanto rezam por um socorro quase impossível.

O diretor sabia que não poderia filmar uma história dessas enfocando exclusivamente as duas vítimas. Isso significaria obrigar o público a passar duas horas num ambiente claustrofóbico de penumbra, com dois homens imóveis, gravemente feridos e parcialmente soterrados, tentando conversar abobrinhas para matar o tempo. Para evitar a angústia do espectador, Stone intercala essas cenas com uma linha narrativa secundária, contando o que está ocorrendo fora do World Trade Center destruído. As esposas dos dois policiais aguardam por notícias, rezando para que tudo esteja bem, enquanto soldados do Exército e bombeiros vasculham desesperadamente os escombros, tentando encontrar alguém vivo.

Um destaque do longa-metragem está na concepção estética (leia-se direção de arte), que distingue as duas narrativas com soluções visuais diferentes. Para filmar o drama dos bombeiros, Oliver Stone quase não usa iluminação, mergulhando-os em sombras, e dá preferência a enquadramentos fechados, quase sempre em closes de rostos. São cenas sufocantes tanto para os personagens quanto para a platéia. Do lado de fora dos prédios, a estética é oposta: tomadas panorâmicas, freqüentemente com o céu aparecendo, muitas paisagens e cenas iluminadas com luz abundante. Elas são o refresco visual e emocional do espectador.

Não há dúvida de que uma história dessas está repleta de drama e tensão pulsantes, e manipular a tensão é algo que Oliver Stone sabe fazer muito bem. Assim, o longa-metragem consegue ser explosivo e energético quando é preciso, especialmente durante a primeira parte, quando as equipes de resgate improvisadas entram num dos prédios do World Trade Center. O gigante de metal e concreto, à beira da morte, geme e se contorce, emitindo rangidos lancinantes que a excelente edição de som trata de tornar assustadores. A seqüência do desabamento da torre joga sobre os policiais toneladas de concreto, poeira e sangue coreografadas com precisão.

No entanto, “As Torres Gêmeas” também deveria estar repleto de momentos intimistas, e é aí que Stone falha. Quando ele mantém a câmera junto aos policiais, o filme cresce bastante em tensão e angústia, mas nos momentos em que salta para o lado de fora do WTC, o diretor escorrega feio no dramalhão. Especialmente da metade para o fim, a produção abusa de cenas melodramáticas, sempre editadas monocordicamente do mesmo modo: câmera lenta acompanhada de musak (a popular “música de elevador”, em que uma melodia pegajosa se insinua como um penetra numa festa de aniversário), enquanto os ruídos ambientes são reduzidos ao mínimo. A combinação praticamente ordena à platéia que está na hora de chorar.

Como se não bastasse, policiais e esposas ainda ganham direito a flashbacks individuais com lembranças felizes do passado, um recurso melodramático dos mais desgastados. Quanto aos diálogos, a cargo da roteirista Andrea Berloff, chega a ser impressionante o quão banais e previsíveis se tornam, a partir de certo ponto da narrativa. Quer um exemplo? Em certo momento, Jimeno perde momentaneamente a consciência e delira. Então acorda e tenta falar com o colega, que está desfalecendo: “Acaba de me acontecer algo incrível. Eu vi Jesus. Ele tinha uma garrafa de água. Eu podia ter tomado, mas não bebi. Ele está nos dizendo algo. Está dizendo que vamos voltar para casa”. Melodrama da pior categoria.

A repercussão do longa-metragem foi incomum. Stone ganhou elogios dos segmentos mais conservadores da sociedade norte-americana, e acabou severamente bombardeado pelos críticos. A razão pode não ser tão simples de perceber, mas é clara. Na verdade, “As Torres Gêmeas” carrega consigo a velha e repulsiva ideologia do “sonho americano”, ao tentar transformar em heróis estóicos dois sujeitos comuns, que simplesmente estavam no lugar errado e na hora errada. Se na superfície Stone tenta humanizar os bombeiros, por baixo dela recorre a uma velha estratégia ideológica de Hollywood para transformar uma derrota em vitória: criar uma aura de heroísmo onde havia apenas luta por sobrevivência.

Quando analisado deste ponto de vista, “As Torres Gêmeas” revela sua verdadeira ideologia. De fato, é esquisito ver um filme assim, tão conservador e bem-comportado, sair da cabeça do mesmo sujeito que teve o peito de ser o primeiro grande diretor a filmar a guerra do Vietnã do ponto de vista de um vietnamita (“Entre o Céu e a Terra”, de 1993), e que nos deu obras como espalhafatosas e polêmicas como “Assassinos por Natureza” (1994) e o já citado “JFK”. Você pode até não concordar com a filmografia de Stone, mas precisa admitir que no geral ela é transgressora e corajosa. “As Torres Gêmeas”, ao contrário, não é nada disso, e apenas confirma que até os cineastas mais malcriados podem ser domados.

O DVD da Paramoun é simples e sem extras, contendo apenas o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– As Torres Gêmeas (World Trade Center, EUA, 2006)
Direção: Oliver Stone
Elenco: Nicolas Cage, Michael Peña, Maggie Gyllenhaal, Maria Bello
Duração: 129 minutos

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