Tortura do Medo, A

26/12/2007 | Categoria: Críticas

Obra polêmica de Michael Powell escancara elemento abelhudo do cinema em filme instigante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“A Tortura do Medo” (Peeping Tom, Inglaterra, 1960) poderia ter vivido apenas na lembrança de alguns milhares de espectadores, caso um grupo de cinéfilos não houvesse se mobilizado para salvá-lo. O filme, produzido em 1959 e lançado no ano seguinte, escandalizou a sociedade de Londres. Críticos reagiram tão violentamente ao longa-metragem de Michael Powell que o estúdio retirou a obra de circulação. Cinéfilos que tiveram acesso às imagens perturbadoras em sessões privadas, no entanto, agiram para que “A Tortura do Medo” não se perdesse. Martin Scorsese, por exemplo, comprou uma cópia em película de 35mm, no fim dos anos 1970, e a restaurou. Uma dessas cópias particulares serviu de base para que a empresa Criterion relançasse a obra em Laser Disc e DVD.

Você pode se perguntar: afinal, o que haveria de tão perturbador em “A Tortura do Medo” para despertar tamanha ira? A resposta a essa pergunta tem sido a base de praticamente tudo o que se escreveu sobre o filme desde então – e não foram poucas as críticas, resenhas, ensaios e até livros acadêmicos publicados sobre a obra. A pesquisadora britânica Laura Mulvey, maior autoridade no filme, formulou uma teoria. Para Mulvey, o filme foi o primeiro a quebrar o pacto implícito que existe entre a platéia e os filmes: nós, espectadores em uma sala escura, somos todos voyeurs. Somos abelhudos espiando a intimidade alheia (ainda que de personagens fictícios), de maneira não autorizada. Ainda por cima, fingindo que não estamos fazendo nada de errado.

É uma teoria inteligente, e explica tanto o ódio repulsivo que o filme provocou entre os críticos quanto sua posterior revalorização, quando passou a ser visto como um dos melhores trabalhos jamais feitos a respeito da razão pela qual o cinema tornou-se a forma de arte por excelência do século XX. O grande pecado de Michaell Powell foi, portanto, forçar o espectador a se identificar, ainda que inconscientemente, com um louco assassino. Sim, pois aquilo que o protagonista do longa-metragem faz – espiar a vida de outras pessoas – é a mesma coisa que o cineasta faz, e que o público paga para fazer. Com o agravante, é claro, dos assassinatos.

Mark Lewis (Carl Boehm, em interpretação memorável) é um solitário jovem que trabalha, durante o dia, como assistente de câmera de um renomado diretor londrino. À noite, Lewis se entrega a um trabalho menos nobre, fotografando garotas seminuas para revistas pornográficas ilegais, com mal disfarçado ar de tédio. A atividade que dá mais prazer ao rapaz, contudo, é o hediondo hábito de matar mulheres para filmar o momento em que elas morrem. Ele não sente tanto prazer em praticar os crimes quanto nas sessões solitárias que promove em casa, vendo e revendo o olhar insano das garotas quando percebem a morte chegando.

Lewis é um dos mais fascinantes personagens já criados para um filme. “A Tortura do Medo” ensaia até uma explicação para o comportamento do assassino; um explicação astuta, mas deliberadamente insuficiente. Na infância, Lewis era a cobaia do pai (ponta do próprio diretor), um psiquiatra famoso, em uma experiência incomum. O psiquiatra submetia o filho a sustos diários (lagartos em cima da cama durante o sono, por exemplo) e filmava tudo. Desejava construir uma espécie de diário visual que servisse como material de estudo. O doutor queria explicar as conseqüências do medo para o sistema nervoso de um indivíduo.

O garoto jamais teve intimidade; desde pequeno, se acostumou a ter sua vida devassada por uma câmera de vídeo (aqui, a conexão evidente é “O Show de Truman”). Assim, foi natural que crescesse tratando todas as outras pessoas que conhecia da mesma maneira. Para Mark Lewis, parar de caminhar pela rua para observar um casal trocando carícias, ou espiar pela janela da casa de um estranho, são atos perfeitamente naturais.

Mais: ele não apenas espia tudo, como também vive com uma câmera de 16mm, gravando cenas para um misterioso documentário. De certa forma, a vida de Mark Lewis é um filme vivo. Tudo é cinema para ele. Lewis pensa cada ação cotidiana em termos de cinema. Se vai beijar alguém, trata de imaginar a melhor posição. A vida é medida por tomadas, cortes, ângulos de câmera. E, apesar de toda essa evidente perturbação comportamental, o ar de estudada fragilidade torna Mark Lewis um personagem mais ou menos simpático aos olhos da platéia. Pelo menos, ele desperta pena.

Durante o filme, Lewis se envolve com uma vizinha, Helen (Anna Massey), que se apaixona por ele. A garota tem uma mãe cega (Maxine Audley) que é uma das chaves para compreender as ambições de “A Tortura do Medo”. A Sra. Stephens não gosta de Mark, e a seqüência do confronto verbal entre os dois, no estúdio de revelação que ele mantém, é talvez a melhor do trabalho. Nesse momento, Michaell Powell escancara sua paixão pelo cinema e entrega o verdadeiro tema da obra: a idéia de que um filme revela sempre algo indizível, maior do que a soma de palavras com imagens. Este algo é um sentimento intraduzível, sem nome. Podemos chamá-lo de instinto, de alma. Ou simplesmente de arte.

A atenção de Michael Powell aos detalhes transforma “A Tortura do Medo” em uma experiência que precisa ser vista mais de uma vez para ficar completa. Atente, por exemplo, para a verdadeira natureza do trabalho de Mark Lewis: ele é o encarregado, nos sets de filmagem, de ajustar o foco da câmera. Uma leitura possível dessa situação justapõe a função de Mark à do próprio Powell, que estaria “ajustando o foco” do espectador para a verdadeira natureza do cinema – a vocação da Sétima Arte para o voyeurismo, com todas as implicações negativas do fato. Ousado, esse Michael Powell. Alfred Hitchcock, que abordou o mesmo tema na obra-prima “Psicose”, lançada três meses depois, não teve a mesma coragem.

Em outro momento do longa, quando já se afeiçoou de forma definitiva a Helen, o assassino – que vemos em ação já na primeira cena do filme – ouve da amada o pedido para que ele a fotografe. “Não!”, exclama, tomado de surpresa e medo. “Eu sempre perco tudo o que fotografo”, murmura depois, com tristeza. Essa é uma cena curta, que se pode perder por estar encaixada entre lances da investigação ao serial killer, promovida por detetives londrinos, e a preparação fascinante dos detalhes finais do plano macabro de Mark Lewis.

Reflita sobre a frase. A estranha coincidência entre ela e os estudos do semiólogo francês Régis Debray, sobre uma suposta conexão subconsciente entre fotografia e morte, explica muito a respeito de “A Tortura do Medo”. A teoria é a seguinte: uma fotografia, ou filme, flagra alguém que, um instante depois, já mudou. Vira uma imagem do passado. Não pode ser repetida, então flagra algo que, de certa forma, já morreu. Debray acha, por isso, que fotos e filmes evocam a idéia da morte em algum recôndito do subconsciente humano. As palavras de Mark Lewis parecem concordar com isso. Não é a toa que o filme de Michael Powell é um favorito perene entre pesquisadores acadêmicos que estudam o cinema.

Powell embalou o seu filme em uma fotografia opressiva, em fortes tonalidades vermelhas, azuis e verdes, com muitas cenas em interiores, na penumbra ou com iluminação artificial. Powell sempre gostou de imagens coloridas e grandiosas; seu filme as celebra com ênfase. A película também possui uma trilha sonora nervosa e inesquecível, composta de levadas solitárias ao piano, com toques de música avant garde européia.

O DVD da Criterion, disponível nos EUA, tem ótima qualidade de vídeo (widescreen 1.66:1) e áudio OK (Dolby Digital 2.0). Possui um comentário em áudio de Laura Mulvey e um documentário (50 minutos) que narra toda a trajetória do filme, do inferno ao céu, incluindo até – espécie de vingança tardia – comentários de críticos que, anos depois de espinafrarem a obra, dão o braço a torcer e confessam tê-la compreendido mal. Michael Powell morreu em 1990, mas gostaria de ter visto isso. Até a morte, ele sempre defendeu “A Tortura do Medo”, e acusou seus detratores de terem decretado o fim da própria carreira. Como sempre, estava certo. O DVD brasileiro, lançado pela Silver Screen Collection, é baseado na edição da Criterion, mas não contém nenhum extra.

– A Tortura do Medo (Peeping Tom, Inglaterra, 1960)

– A Tortura do Medo (Peeping Tom, Inglaterra, 1960)
Direção: Michael Powell
Elenco: Carl Boehm, Moira Shearer, Anna Massey, Maxine Audley
Duração: 101 minutos

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