Toy Story 2

27/11/2005 | Categoria: Críticas

Longa de 1999 estabelece altíssimo patamar de referência para animações infantis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A produção de “Toy Story 2” (EUA, 1999) começou de forma despretensiosa. O cineasta e sócio da empresa de animação digital Pixar, John Lasseter, ainda colhia os louros pelo sucesso do primeiro e revolucionário filme, “Toy Story”, quando aceitou uma proposta da Disney, empresa que distribuiu o longa-metragem anterior: escrever um novo roteiro, a partir das idéias que haviam sobrado da produção de 1995, e lançar uma continuação apenas no mercado de vídeo caseiro. O resultado final, porém, superou todas as expectativas. Aí, a Pixar e a Disney decidiram lançá-lo nos cinemas. Tomaram a decisão certa. “Toy Story 2” é um marco definitivo na história da animação digital, além de um filme adorável.

O universo da série “Toy Story” possui um trunfo inigualável: um universo lúdico, particular, com apelo irresistível para as crianças. Para compreender a força desses filmes para o público infantil, o segredo é assistir aos dois longas com os olhos de uma criança. O universo se sustenta com base em uma única e simples premissa: o que os brinquedos de uma criança fariam, se tivessem vida própria, nos momentos em que os garotos não estão olhando? Eles teriam sonhos, desejos, alegrias e tristezas, como um menino?

Adultos sem senso de humor podem achar essa premissa boba, mas não é. Esse é o tipo de pensamento que se recusa a abandonar a mente de uma criança. Quando um garoto se senta para brincar com seus bonecos, ele só terá diversão genuína se conseguir fantasiar que aqueles brinquedos realmente possuem vida própria. Portanto, o mundo de “Toy Story 2” realmente existe – dentro das cabecinhas de milhões de crianças. Por isso a idéia de John Lasseter tem tanta sedução.

Sozinha, é claro, essa idéia não sustentaria um longa-metragem, muito menos dois. Para fazê-la funcionar, a Pixar precisou ser capaz de criar personagens cativantes e roteiros dinâmicos. Também teve a obrigação de desenvolver uma tecnologia de animação digital que fosse tridimensional e permitisse a obtenção de movimentos críveis pelos mais variados tipos de brinquedos. Não uma animação realista; ou melhor, que simulasse ser realista, mas mantivesse um toque irrreal, fantástico. Uma espécie de mundo de brinquedo, sofisticado mas não muito. E a Pixar se saiu extremamente bem nas duas tarefas.

“Toy Story 2” conseguiu um avanço incrível nas técnicas de animação. Se o filme de 1995 já possuía uma animação invejável, o segundo volume da série conseguiu estabelecer um novo patamar de excelência para filmes infantis. Mas a técnica é irrelevante para o sucesso esmagador da produção. Importante, mesmo, foi a confecção de um roteiro contagiante, uma história que misturasse aventura, comédia e suspense na dose exata.

John Lasseter conseguiu atingir a perfeição, criando um enredo que se bifurca em dois núcleos distintos de ação. O filme gira em torno do caubói Woody, boneco preferido do menino Andy. Por causa de um braço rasgado, Woody é deixado em casa durante as férias do menino, o que deixa o brinquedo deprimido. Mas o pior acontece quando Woody é seqüestrado pelo dono de uma loja de brinquedos. O sujeito asqueroso descobre que o caubói faz parte de uma coleção lendária de brinquedos dos anos 1950 e planeja vendê-lo para um museu de brinquedos japonês.

Nesse ponto, se estabelecem os dois núcleos de ação. Na loja de brinquedos, Woody descobre os companheiros que formam seu mundo: uma garota, Jessie; um minerador velhinho, Pete; e um cavalo. Enquanto isso, liderados pelo astronauta Buzz Lightyear, os demais brinquedos de Andy criam uma força-tarefa, a fim de resgatar o colega. As duas ações paralelas contribuem para criar o suspense da narrativa, mas Lasseter jamais esquece que está fazendo um filme para crianças. Há muita comédia e um indisfarçável sentimento de descoberta que permeia todo o enredo.

O maior trunfo de Lasseter foi conseguir ancorar “Toy Story 2” em uma segunda premissa, quase tão fascinante para os pequenos quanto aquela que move o universo dos brinquedos: o mundo dos bonecos sofreria de uma nostalgia incorrigível, porque crianças invariavelmente crescem (enquanto os bonecos permanecem iguais) e, no processo de amadurecimento, vão deixando os velhos brinquedos de lado. Ser um brinquedo, portanto, seria viver uma perpétua crônica de uma morte anunciada. Essa segunda premissa faz o filme ser mais fascinante para adultos do que o primeiro volume da franquia.

Sim, é um tema difícil para um filme infantil. É complicado abordar valores básicos, como gratidão e adolescência, em filmes para crianças. Mas Lasseter se sai maravilhosamente bem, trabalhando com carinho e cuidado conceitos complexos, como morte, saudade e amizade. Para os adultos, ele insere uma enorme quantidade de referências a filmes clássicos. Uma das melhores piadas, por exemplo, ocorre durante a batalha final entre Buzz e seu “inimigo mortal”, Zorg, quando o sinistro vilão espacial revela detalhes sobre o pai do astronauta humano. As crianças não entendem as gargalhadas dos adultos nesse trecho do filme, evidentemente, porque não viram a série “Star Wars”.

Enfim, “Toy Story 2” é uma sucessão de acertos e um verdadeiro oceano de boas idéias. O filme estabeleceu um altíssimo patamar de referência para as produções vindouras da Pixar, que a produtora vem se esforçando para cumprir a cada novo lançamento. Não se espante, portanto, se você decidir analisar com cuidado o roteiro de sucessos da empresa, como “Procurando Nemo”, e descobrir semelhanças incríveis com o esqueleto narrativo de “Toy Story 2”. Experimente trocar Woody por um peixe-palhaço com uma barbatana menor que a outra, por exemplo…

Em DVD, a primeira edição de “Toy Story 2” recebeu um bom lançamento da Buena Vista. O filme ganha a companhia de um pequeno documentário que reúne entrevistas com os dubladores norte-americano (os atores Tom Hanks e Joan Cusack entre eles). O espectador ganha ainda um curta-metragem, “Luxo Jr.”, engraçadíssimo. O melhor extra, contudo, é a coleção de “erros de gravação”. Experimente não rir quando o pingüim de geladeira engole um microfone!

A edição especial lançada em 2005 corrige um problema da primeira fornada: o formato de imagem. Os cortes laterais do primeiro disco dão lugar ao corte original (wide 1.77:1), e o som continua de primeira qualidade (Dolby Digital 5.1). Há ainda cenas cortadas, documentário, comentário do diretor e um jogo interativo.

– Toy Story 2 (EUA, 1999)
Direção: Ash Brannon e John Lasseter
Animação
Duração: 92 minutos

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