Toy Story 3

09/11/2010 | Categoria: Críticas

Filme encerra trajetória cinematográfica dos brinquedos da Pixar em aventura que mistura comédia e drama com coerência e desemboca em final melancolicamente devastador

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Na indústria cinematográfica, há uma regra que quase sempre se mostra correta: seqüências de filmes famosos nunca atingem o mesmo nível da produção original. Essa, aliás, é uma das razões pelas quais a Pixar se recusou, durante quase duas décadas, a realizar continuações de seus longas-metragens vitoriosos. A única exceção havia sido “Toy Story 2” (1999), que retomava os brinquedos vivos de “Toy Story” (1995). A série vira trilogia completa e fechada com “Toy Story 3” (EUA, 2010). Ainda que não esteja no mesmo nível de elegância, sutileza e criatividade de seus dois predecessores, o filme encerra a trajetória cinematográfica dos brinquedos de maneira digna e complexa, em uma aventura que mistura comédia e drama com coerência e desemboca em um final melancolicamente devastador.

O segredo da qualidade superior de “Toy Story 3” está na abordagem. Enquanto a maioria das seqüências de filmes famosos coloca personagens conhecidos vivendo variações das aventuras originais, a terceira parte da franquia da Pixar se baseia na lógica para desenvolver uma situação dramática já rascunhada nas duas partes anteriores, e que aqui atinge um ponto culminante. Essa situação pode ser resumida em uma pergunta: o que acontece com os brinquedos depois que seu dono cresce e pára de brincar com eles? O caubói Woody, o astronauta Buzz Lightyear e os demais brinquedos do menino Andy já haviam sido confrontados com esse dilema no filme de 1999. Na trama da terceira e última parte da trilogia, esse dilema deixa de ser retórico e passa a ser concreto.

O filme localiza Andy, o dono dos bonecos, aos 17 anos, às vésperas de deixar a casa dos pais e seguir para a faculdade. Os brinquedos, há anos trancados dentro de um baú apertado, se questionam sobre seu destino, temendo encontrar seu fim no lixo. Depois que Andy toma sua decisão, no entanto, uma série de contratempos imprevisíveis faz todos irem parar em uma creche de aparência encantadora. Bom, pelo menos no começo. É o início de uma jornada que os levará, mais uma vez, a peregrinar pela cidade, correndo contra o tempo para conseguir voltar à casa a tempo de cumprir as intenções originais de Andy.

Um dos maiores acertos de “Toy Story 3” está na força do segundo ato, quase sempre o ponto fraco de continuações. Nesse trecho mais longo dos filmes, depois que conhecemos a motivação dos heróis, estes normalmente se limitam a enfrentar obstáculos em busca de um objetivo que, já sabemos de antemão, será alcançado no final. “Toy Story 3” tem tudo isso – a longa seqüência de fuga da creche, através de um plano complicadíssimo que cita insistentemente o clássico “Fugindo do Inferno” (1963), é uma montanha-russa de emoções e muitíssimo bem dirigida – e vai além, pois acrescenta dois novos personagens que funcionam como diapasões do tema central (o destino de brinquedos velhos): o urso cor-de-rosa Lotso e um palhaço melancólico.

Esses dois personagens funcionam como caixas de ressonância, de modos diferentes, do mesmo drama que move nossos heróis – são bonecos esquecidos por seus antigos donos – e nos lembram constantemente que todo o esforço feito pelos brinquedos ao longo do segundo ato pode não dar em nada se, no final do filme, a decisão sobre o destino deles for desagradável. É uma diferença sutil, mas que mantém a tensão num nível alto o tempo inteiro, e prepara o terreno para um clímax adulto e, em termos emocionais, absolutamente devastador. É um final que assinala, para além da excelência técnica naturalmente presente (note como a iluminação e as composições pictóricas mudam a aparência da creche, do reconfortante ao ameaçador, em certos momentos; note a textura realista do pêlo do urso Lotso e dos tecidos das roupas do Ken), a coragem da Pixar em ousar num grau acima do que fazem todos os concorrentes.

“Toy Story 3” só não é perfeito porque o roteiro escrito por Michael Arndt (“Pequena Miss Sunshine”) contém pequenos deslizes, tanto no tom quanto na precisão narrativa. No primeiro caso, há uma boa quantidade de gags humorísticas num estilo cínico e irreverente, mais próximo dos trabalhos da Dreamworks; a seqüência musical da troca de roupas de Ken e o Buzz espanhol são momentos legais, só que mais parecem cenas de “Shrek”, e destoam bastante do tom geral dos trabalhos da Pixar, cujo humor é mais sutil e menos escrachado.

Além disso, há lacunas narrativas, como se pode ver na resolução da cena que ocorre dentro do forno do lixão (incoerente, e que denota certa falta da imaginação do roteiro) e, sobretudo, na transição apressada e deselegante que ocorre entre o segundo e o terceiro ato, quando os brinquedos saltam (quase literalmente) do depósito de lixo para um lugar bem mais ameno. Não fosse esses pequenos deslizes (que, diga-se de passagem, não comprometem o resultado final) e teríamos mais uma obra-prima irretocável com o logotipo da Pixar.

O DVD nacional é um lançamento da Buena Vista e capricha na qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Toy Story 3 (EUA, 2010)
Direção: Lee Unkrich
Animação (vozes originais de Tom Hanks, Tim Allen, Ned Beatty, Michael Keaton)
Duração: 103 minutos

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