Traffic

02/10/2003 | Categoria: Críticas

Fotografia deslumbrante e roteiro tão intrincado quanto ambicioso promovem filme mais reflexivo de Soderbergh

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O roteiro tinha nada menos do que 110 personagens com diálogos e nenhum protagonista. Tudo bem: os grandes estúdios, vez por outra, costumam ser bem sucedidos em filmes fragmentados, como o ótimo policial “Os Suspeitos”, de Bryan Singer. Só que o problema aqui era bem maior. O projeto de “Traffic” (EUA, 2000) parecia uma idéia megalômana do diretor Steven Soderbergh, que há anos não acertava a mão. Claro que a resposta dos estúdios era não. Mas isso estava fadado a mudar.

No começo de 2000, Soderbergh brilhou com “Erin Brockovich” e a produtora USA Filmes fez a proposta: ele poderia fazer o tal filme, desde que conseguisse o aval de algum astro cujo nome no cartaz fosse garantia de público. O diretor procurou Michael Douglas, que leu o roteiro e não gostou muito – ele recusou, mas a mulher, Catherine Zeta-Jones, pediu um papel e foi atendida. O interesse de Harrison Ford, porém, deu o sinal verde que o filme precisava. Só que o velho Indiana Jones pulou fora antes de as filmagens começarem, e àquela altura Douglas já notara que o papel crescera em importância. Ele voltou atrás, disse sim e Soderbergh conseguiu fazer seu filme.

Ainda bem. Apesar do tráfico de drogas e dos problemas sociais que dele decorrem já terem dado assunto para muitos filmes, “Traffic” consegue driblar a grande ambição do diretor e, com roteiro e direção afiados, monta o mais complexo painel sobre o universo da droga já produzido no mundo do cinema. Além da resposta positiva do público e das ótimas críticas recebidas, “Traffic” foi muito bem sucedido na festa do Oscar de 2001, dando o prêmio do Melhor Diretor a Soderbergh e o de Ator Coadjuvante para o portorriquenho Benicio Del Toro, além de faturar outras duas estatuetas (Montagem e Roteiro Adaptado).

Tudo isso foi merecido. “Traffic” entrelaça com maestria três estórias paralelas que têm em comum o universo das drogas. Na primeira, o policial mexicano Javier Rodriguez Rodriguez (Del Toro) descobre detalhes estranhos na perseguição alucinada que o general Salazar (Tomás Millian) faz aos narcotraficantes. A vinte quilômetros dali, em San Diego (EUA), a prisão do traficante Carlos Ayala (Steven Bauer) obriga a mulher dele, Helena (Catherine Zeta-Jones), a se virar sem o marido, enquanto dois agentes federais (Don Cheadle e Luiz Gusman) tentam proteger um pequeno traficante (Miguel Ferrer) que pode pôr Ayala na cadeia para sempre. Enquanto isso, em Washington, o juiz Robert Wakefield (Douglas) se prepara para assumir o posto de chefe contra o tráfico nos EUA, ao mesmo tempo em que descobre que a filha adolescente, Caroline (Erika Christensen) está viciada em crack.

Em torno dessas três estórias, o espectador vai encontrar um verdadeiro caleidoscópio sobre o problema das drogas e suas implicações. Da dificuldade governamental em combater o tráfico às relações desiguais e violentas entre pequenos e grandes traficantes, do drama da família de um viciado à dúvida ética dos policiais que ganham mal para combater milionários corruptos, tudo isso está no filme. A obra tem um terço dos diálogos falado em espanhol e mais de 90% das imagens gravadas pelo próprio diretor (que fez também a direção de fotografia, sob o pseudônimo de Peter Andrews) com câmeras manuais. Soderbergh ainda ousou na utilização dos filtros de luz: para sublinhar a divisão das três estórias, ele preferiu usar um tom amarelo escaldante para as cenas em Tijuana, um azul gelado para as seqüências em Washington e uma gama de cores vivas e fortes durante as cenas em San Diego. Traffic é ousado, ambicioso e brilhante.
O lançamento em DVD é duplo, sendo que o disco extra vem acrescido de meia hora de cenas cortadas com legendas em português, além de entrevistas com grande parte do elenco e com o diretor. São imagens distribuídas à imprensa, em geral com pequenos trechos de entrevistas em que os atores comentam uns sobre os outros, sobre cenas ou sobre o cineasta. A má notícia é que as imagens do filme estão em fullscreen, ou seja, cortadas na lateral.

– Traffic (EUA, 2000)
Direção: Steven Soderbergh
Eenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Don Cheadle, Luiz Guzman
Duração: 147 minutos

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