Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia

20/06/2010 | Categoria: Críticas

Triste, violento e desolado: o road movie etílico de Sam Peckinpah que pouca gente reconhece como obra-prima

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Sam Peckinpah já era talentoso e controverso quando dirigiu o pouco conhecido e genial “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” (Bring Me The Head of Alfredo Garcia, EUA/México, 1974). Na verdade, o cineasta já tinha, em Hollywood, a reputação de ser um bêbado em tempo integral, e diretor nas horas vagas. Por causa do clima tenso nos sets de filmagens e também do relacionamento difícil que mantinha com os atores, Peckinpah encontrava muita dificuldade para conseguir financiamento para os projetos que dirigia. Foi por isso que decidiu filmar “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” no México, com toda a equipe e parte do elenco formada por locais.

Filmando nessas condições deficitárias, cercado por gente inexperiente, um diretor encontra campo fértil para provar que é mesmo bom. É o caso aqui. A despeito de ter uma fotografia irregular e escura de Alex Phillips Jr (preste atenção das cenas filmadas dentro de um cemitério, perto do final, e perceba como a luz varia durante as tomadas; ora o ambiente está mais escuro, como se fosse noite, ora mais claro, como um final de tarde), “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” pode ser reconhecido sem muito esforço como um típico filme de Peckinpah. E nem é preciso chegar até o banho de sangue no final da película, pois a atmosfera decrépita, tensa e triste denuncia o nome do diretor.

A história do longa-metragem é simples e bizarra. Ao descobrir a gravidez da filha adolescente, resultado de um romance fortuito com um sedutor local, um milionário mexicano (Emílio Fernandez) põe a cabeça do tal rapaz, Alfredo Garcia, a prêmio: paga US$ 1 milhão para quem lhe trouxer o troféu macabro. A recompensa põe uma dupla de caçadores de recompensas mal-encarados no encalço de Garcia, por vilarejos mexicanos, até que eles chegam a Benny (Warren Oates), um pianista de bar que pensa poder descobrir o paradeiro de Garcia.

E pode mesmo. É que Benny é apaixonado por Elita (Isela Vega), uma prostituta que tem um caso com Garcia. Ao procurá-la, ele descobre que Alfredo Garcia já está morto, pois espatifou o carro numa estrada mexicana após uma bebedeira, uma semana antes. Para faturar os US$ 10 mil que lhe foram prometidos caso levasse a cabeça aos caçadores de recompensas, Benny arma um plano macabro: viajar até o pequeno cemitério onde Garcia está enterrado, se apropriar do crânio com a ajuda de um facão afiado e voltar em segurança. Um plano que parece simples, mas que envolve muitos imprevistos.

Ao conceber a história de “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, Sam Peckinpah pensava em produzir um filme que espelhasse um velho clássico sobre o poder da cobiça, “O Tesouro de Sierra Madre”. Há até uma citação da obra de John Huston: depois de conhecer o pianista, um dos caçadores de recompensas do milionário se apresenta como Freddy C. Dobbs. O nome é o mesmo utilizado pelo personagem de Humphrey Bogart. Ocorre que, ao elaborar sua história, Peckinpah foi mais longe. Ao invés de construir uma história para mostrar como a cobiça pode corromper um homem honesto, ele preferiu pôr como protagonista um homem à beira do abismo e dirigir uma espécie de desolador road movie etílico.

Benny é amoral e desesperado. Mais do que a cobiça, o que lhe corrompeu a alma foi o tédio. Benny é um alcoólatra que, dizem, foi inspirado no próprio Peckinpah; o diretor chegou a ceder os inseparáveis óculos escuros para o personagem, que os usa até para dormir. Ele vive em espeluncas e não se separa de uma garrafa de tequila. Quando os caçadores de recompensas acenam com uma pequena e inesperada bolada, Benny vislumbra uma luz no fim do túnel. Talvez seja a última chance de viver alguns momentos de fugaz felicidade junto à mulher que aprendeu a amar.

Elita também é um personagem fascinante. Ela é o arquétipo da prostituta experiente de cidade grande: pouco além dos 30 anos, já não vê mais o amor como um sentimento libertador, embora esteja longe de ser uma pessoa amarga. Elita não nutre paixão por Benny, mas o respeita e admira. Sente segurança ao lado dele, e segurança é algo que uma mulher como ela, e na idade dela, preza muito.

O casal divide uma série de momentos tocantes na brilhante primeira metade do longa-metragem, fazendo piqueniques à beira da estrada, entremeados por planos de casamentos e viagens que soam como ingênuo sonho irrealizável de um par de marginais condenados ao esquecimento. Eles não sabem, mas são seguidos e observados pelos caçadores de recompensa. O aparecimento de uma dupla de motoqueiros com intenções não muito agradáveis marca o primeiro sinal de que a viagem não será tão tranqüila como ambos imaginavam. A partir daí, o filme envereda pela trilha de sangue típica de Peckinpah, com farto uso de câmera lenta nas cenas de morte.

A maior parte dos críticos norte-americanos torceu o nariz para o filme. É compreensível, porque ele foca a vida na sarjeta com realismo impecável, incluindo cenários sujos e figurinos maltrapilhos. Além disso, há muitos momentos desagradáveis (após a primeira noite com Elita, Benny acorda e encontra chatos passeando na região genital, exterminando-os com tequila em uma seqüência nada bonita).

Ocorre que o cinema de Peckinpah é assim mesmo; funciona como uma incômoda afta de realidade na boca do sonho hollywoodiano, e é isso que o faz tão eficaz, tão intenso. “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” é uma obra-prima maldita, um estudo maravilhoso de personagens marginais e um excelente exemplo de cinema tecnicamente pobre que atinge um resultado esteticamente impecável – o uso cinematográfico da cor vermelha, que está no carro de Benny por exemplo, é até hoje citado como exemplar por estudiosos do assunto.

A obra-prima maldita de Sam Peckinpah demorou quase 10 anos para chegar ao formato DVD: só em março de 2005 ganhou uma edição econômica da MGM, nos EUA. O disco simples tem o filme com imagem widescreen (corte original) e trilha de áudio Dolby Digital 2.0 (mono). O disco chegou ao Brasil somente em 2010, pelas mãos do selo Lume.

- Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (Bring Me The Head of Alfredo Garcia, EUA/México, 1974)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Warren Oates, Isela Vega, Robert Webber, Gig Young
Duração: 112 minutos

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14 comentários
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  1. [ Assisti a este Peckinpah em uma matinê, ainda guri, lá pelos idos dos 1970. Jamais o esqueci e lembro até hoje do cartaz. Violento e sujo, o cheiro de sangue e o fedor de latrina vertiam da tela. Não imaginava que havia aquele tipo de cinema, acostumado com os filmes de mocinho de hollywood. Lembro-me pefeitamente do personagem de Warren Oates e de Isela Vega, mas me restou um dúvida: Emilio Estevez está no filme? Não seria um taanto jovem, ainda? Valeu]

  2. Luis, o Emílio Estevez que está no filme é um homônimo do filho de Martin Sheen (que é provavelmente o ator a quem você se refere).

  3. O nome do ator que faz o milionário que oferece a recompensa é Emilio Fernandez e não Emilio Esteves.
    Emilio Fernandez além de ator foi um famoso cineasta mexicano nos anos 40 e 50.
    Além deste filme atuou no clássico de Peckimpah Meu òdio sera Tua Herança no papel do violento General Mapache, dando um show como vilão

  4. Verdade, Cardoso. Obrigado pela correção. Devo ter ficado com o nome do Estevez na cabeça e fiz lambança. Valeu.

  5. Na minha juventude na década de 70, assistí aos maiores épicos da sétima arte, e notadamente onde havia a participação de Warren Oates,ele encanava em seus papéis um personagem com a pior índole possível, que se tornou sua marca registrada ,duro, frio,calculista,impecável; Comparável a ele,poucos. Warren é um modelo comparável a Gene Rackman em suas interpretações como vilão. Porém foi sempre esquecido pela mídia cinematógrafica americana

  6. Warren Oates e John Cazale são os dois gênios da atuação naturalista esquecidos do cinema americano dos anos 1970 (porque eram feios e morreram cedo).

  7. Rodrigo, já existe o DVD à venda no Brasil? Com legendas em português.

  8. Foi lançado no meio de 2010 pela Lume.

  9. “uma incômoda afta de realidade na boca do sonho hollywoodiano” foi isso msm que senti vendo o filme, é uma aventura sem qlq glamour. Achei genial! Passou, dia 18.12 no TCC em widescreen. Procurem na programação, talvez haja uma reprise.

  10. Esse filme para mim é um épico! Chega a fazer calor mesmo no frio! Muito bom!

  11. Classico.CInema era outra coisa naquela época.

  12. Rodrigo, parabéns pelo site! muito bom mesmo. Sou fã de faroestes desde sempre, está no meu dna. um dos meus diretores favoritos é justamente sam peckinpah á partir do filme: seu ódio será minha herança. excelente por sinal. gentileza me informar como adquirir este filme do qual já ouvi falar, mas ainda não tive prazer em assistir.

  13. de fato uma obra-prima. a sequência em que Benny encontra os caçadores de recompensa (que estão como carro no prego, no meio da estrada), é simplesmente fabulosa…

  14. Uma obra prima maldita de um cineasta maldito.
    Um outsider fora do circuito hollywoodiano
    Um dos cem filmes para ser visto e revisto antes de ……..

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