Trainspotting

29/04/2005 | Categoria: Críticas

Danny Boyle captura a urgência da vida de um viciado e mantém distância do panfletarismo careta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A abertura é alucinante. Um sujeito muito magro, quase pele e osso, leva uma carreira de policiais. Sob as imagens, a voz de Renton (Ewan McGregor) narra um mantra que mais parece um slogan publicitário doentio, ou um poema perdido de algum representante da geração beat. É um discurso bem-humorado, cínico, com uma boa dose de índole autodestrutiva. “Transpotting – Sem Limites” (Inglaterra, 1996) tem um início arrasadoramente jovem. Em 1996, a juventude do mundo inteiro se ouriçou. Ali estava um filme mais sedutor do que a trinômio sexo, drogas e rock’n’roll. Ou melhor, o filme era a própria personificação cinematográfica da tríade mais maldita, e mais sedutora, da história da cultura pop.

Quando foi lançado “Transpotting” se viu em meio a uma grande polêmica. Havia aqueles que acusavam o filme de glorificar as drogas, e que lutavam pela proibição das exibições. Também existia uma corrente, minoritária, que via na trilha sonora repleta de pérolas pop, na linguagem cheia de gírias (o próprio título original é uma, que significa mais ou menos “matar o tempo vendo trens passarem”, atividade que viciados em heroína na Escócia se dedicam a fazer enquanto curtem o barato da droga) e na edição dinâmica apenas uma capa modernosa para esconder uma mensagem careta, carola mesmo, anti-drogas. E aí? Quem está com a razão?

Resposta: ninguém. “Transpotting” não glorifica as drogas e nem as condena arbitrariamente. O próprio discurso niilista de Renton, na abertura, já deixa clara a postura do cineasta Danny Boyle (de “Extermínio”): ele quer apenas mostrar que, ao tomar a decisão de experimentar drogas pesadas, está comprando um pacote completo, que inclui prazer e dor em doses iguais. Vejamos o discurso:

“Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadora, carro, CD Player e abridor de latas elétrico. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. Os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?”.

Não há dúvida de que Danny Boyle e o roteirista John Hodge são corajosos. É compreensível que, ao abrir o filme com esse texto, “Trainspotting” tenha sido tão incompreendido. Mas o longa-metragem escocês, ambientado em Edimburgo, vai muito além disso. Ao mostrar o cotidiano de um grupo de jovens viciados em heroína, o cineasta cobre todo o espectro de conseqüências geradas pela droga, das viagens alucinógenas que “parecem mil orgasmos” à inadaptação social, da dor física provocada pela dependência à morte.

O talentoso elenco, cheio de jovens desconhecidos, logo se tornaria famoso; Ewan McGregor virou estrela de primeira grandeza em Hollywood. A trilha sonora impecável proporciona uma das associações imagens + música mais brilhantes e impressionantes da história, ao som da “Perfect Day”, a canção do trovador da heroína, Lou Reed. A poderosa combinação de cultura pop, humor e canções fez com que Danny Boyle fosse comparado a Quentin Tarantino. São viagens diferentes, mas que chegam em um lugar realmente parecido.

O filme se move em uma estrada perigosa, porque todos os personagens principais, sem exceção, são pessoas amorais e egoístas – de fato, são pessoas desagradáveis. Entre eles, no entanto, os viciados se compreendem. Eles compartilham o mesmo senso de humor, o mesmo desprezo pelas regras sociais, algo que no início parece saudável, mas logo descamba para o irascível e provoca um isolamento no grupo. O crítico Roger Ebert aponta que esse isolamento surge porque ninguém consegue compreender realmente a vida de um drogado, a não ser outro drogado – e o senso de camaradagem que surge entre eles é um elo fortíssimo de amizade. É exatamente esse senso de camaradagem, e não exatamente o problema do vício, que é o verdadeiro foco narrativo de “Transpotting”.

Danny Boyle não julga, apenas mostra. Para cada seqüência bem-humorada como a cena de abertura, existe um contraponto de dor lancinante. Assim, se você tem momentos de gargalhar até dar câimbras (Renton mergulhando em uma privada imunda para encontrar um supositório de heroína, Spud acordando de ressaca em meio a uma poça de cocô), existe uma cena correspondente de provocar lágrimas e momentos de reflexão (o destino do bebê de uma das garotas do grupo, a impressionante overdose em que Renton “afunda” no tapete como se estivesse num caixão).

No final das contas, entre mortos e feridos, salvam-se um roteirista criativo – até mesmo a narração em off, recurso manjado que em geral apenas atrapalha o ritmo e repete informações já passadas à platéia pelas imagens, funciona bem – e um diretor que não tem medo de ousar por excesso de conservadorismo. Enfim, “Trainspotting” é um filmaço, que captura muito bem a urgência da vida de um viciado e está muito, muito distante do panfletarismo careta que marca a maior parte dos filmes sobre drogas.

Existem duas versões de “Trainspotting” em DVD no Brasil. A primeira foi um lançamento pirata, feito pela revista Caras. As imagens estão em tela cheia (ou seja, com cortes laterais), não há extras e existe um problema pouco perceptível, mas bastante grave: o longa-metragem é exibido em velocidade ligeiramente mais alta do que o normal, o que faz com que a duração do filme seja de quatro minutos a menos.

A Versátil fez muito melhor ao lançar uma edição especial do filme. Além da obra com imagem restaurada, em formato widescreen anamórfico (na proporção original de 1.85:1, que garante a fidelidade aos enquadramentos originais) e trilha de áudio DTS 5.1, existem nove cenas excluídas, um documentário curto (10 minutos), uma reportagem sobre a polêmica do filme no Festival de Cannes (2 minutos), dois trailers, galeria de fotos e um clipe de Iggy Pop.

– Trainspotting – Sem Limites (Escócia, 1996)
Direção: Danny Boyle
Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle
Duração: 94 minutos

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