Trama, A

21/03/2007 | Categoria: Críticas

Thriller tenso de dar nó na cabeça é um dos melhores exemplos de filmes a buscar uma atmosfera de paranóia conspiratória

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Após o assassinato do presidente John Kennedy, em 1963, as teorias conspiratórias se multiplicaram para reforçar ainda mais o clima de paranóia que caracterizava a sociedade norte-americana, durante a Guerra Fria com a União Soviética. Passando por uma renovação criativa na mesma época, Hollywood captou com propriedade esta sensação, em uma série de thrillers tensos que lidavam com a idéia de perseguidores invisíveis e conspirações político-ideológicas. Um dos mais interessantes exemplares desta safra, e talvez um dos menos conhecidos, é “A Trama” (The Parallax View, EUA, 1974), excelente trabalho assinado por Alan J. Pakula.

Em termos de conceito, “A Trama” é descendente direto de “Sob o Domínio do Mal” (1962). No entanto, ao acrescentar à trama uma atmosfera pesada de paranóia, Pakula atualiza a idéia da corporação que age à margem da legalidade, interferindo nos destinos políticos e econômicos da nação sem que o Governo ou as pessoas percebam. O filme fez sucesso na época do lançamento, mas acabou relegado a segundo plano por outros grandes lançamentos que abordaram o tema “conspiração” de forma semelhante, como os também ótimos “A Conversação” (1974), de Coppola, e “Todos os Homens do Presidente” (1976), este último também dirigido por Pakula.

A história é centrada no jornalista Joe Fredy (Warren Beatty), repórter de um jornal de segundo escalão. Talentoso e ao mesmo tempo ignorado por causa do passado de ex-alcoólatra, ele é compelido a investigar a existência de uma conspiração por trás do assassinato de um influente senador, depois que uma ex-namorada, também jornalista, aparece morta, supostamente por ataque cardíaco. Ocorre que a mulher havia procurado Fredy, dias antes, para informá-lo sobre uma série de acidentes envolvendo as testemunhas do crime. Fredy não acredita, mas é obrigado a reavaliar o caso depois que a mulher vai parar no caixão. O desenrolar é imprevisível e conduz a um final maravilhoso, de cair o queixo mesmo – inusitado, surpreendente, emocionante e filmado de modo extraordinário por Pakula e seu colaborador mais valioso, o fotógrafo Gordon Willis.

É a fotografia de Willis o elemento mais importante para imprimir à história a atmosfera inigualável de tensão e paranóia que Pakula deseja estabelecer. Willis filma tudo com lentes grande-angulares, mostrando a ação de longe, muito longe, com os personagens freqüentemente se transformando em pontos minúsculos, esmagados pela paisagem. Associadas ao uso abundante de contraluz, especialidade que tornou Willis conhecido em Hollywood como “Príncipe das Trevas”, estas paisagens panorâmicas obrigam o espectador a prestar máxima atenção (em diversas tomadas, são necessários vários segundos para localizar as pessoas). Também deixam a platéia em dúvida sobre o que está sendo mostrado na tela.

Isto é intencional. Desta forma, o espectador é mantido na mesma posição de Joe Fredy: pressente que por trás dos acontecimentos parece haver alguma força invisível se movendo, mas não sabe exatamente aonde nem como vê-la. Como ele, nós entendemos que há algo acontecendo, mas não conseguimos ver o quadro completo, apenas uma parte dele. A trilha sonora discreta e eletrônica de Michael Small fornece um tom insistentemente dissonante, e sublinha o conceito de paranóia que exala do filme como um todo. No centro disso tudo, um polêmico teste psicológico que influenciou dezenas de filmes por vir, de “Vidas em Jogo” (1999) a “O Suspeito da Rua Arlington” (1999).

Um detalhe fundamental é que “A Trama”, com a maior parte das grandes obras filmadas no período, não é um filme muito dialogado. Fredy não conversa sobre suas descobertas, pressentimentos e teorias com quase ninguém (o faz apenas com o chefe, em duas rápidas ocasiões), mantendo tudo para si mesmo, e esta estratégia obriga o espectador a juntar as peças e tirar conclusões por conta própria. Além disso, a longa e espetacular seqüência final é bastante silenciosa, e isto pode incomodar bastante os espectadores acostumados a receber conclusões mastigadas como papinha de neném. Filmaço.

O DVD da Paramount, simples, não tem extras, mas a qualidade do filme é excelente. A imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) está restaurada e o áudio (Dolby Digital 2.0) é bem decente.

– A Trama (The Parallax View, EUA, 1974)
Direção: Alan J. Pakula
Elenco: Warren Beatty, Hume Cronyn, Paula Prentiss, William Daniels
Duração: 102 minutos

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