Trama Internacional

01/10/2009 | Categoria: Críticas

Enredo promissor sobre negócios escusos envolvendo tráfico de armas e guerras civis resulta em thriller de espionagem genérico e sem personalidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Potsdamer Platz, centro de Berlim. Um investigador da Interpol negocia, dentro de um carro, o importante depoimento de um banqueiro que pode trazer sérias implicações para uma das organizações financeiras internacionais mais poderosas do planeta, acusada de lucrar com tráfico de armas e guerras civis. O sujeito desce do veículo. Um sorriso para o parceiro do outro lado da rua sinaliza o sucesso da negociação. Antes que possa atravessar a rua, porém, o espião dobra-se de dor, vomita e cai inerte. Ele está morto. Pelo olhar alarmado do parceiro, Louis Salinger (Clive Owen), sabemos que ele foi assassinado – mas nem nós, e muito menos Louis, sabemos como e nem porquê.

A eletrizante seqüência de abertura de “Trama Internacional” (The International, EUA/Alemanha/Inglaterra, 2008) encapsula uma série de características do filme dirigido pelo alemão Tom Tykwer: a permanente atmosfera de tensão e paranóia, a noção de que há todo um universo de detetives e assassinos de aluguel agindo na surdina em grandes marcos turísticos do ocidente, sem chamar a atenção dos humanos comuns, e um típico herói do século XXI: um policial honesto, abençoado com habilidades físicas e intelectuais superiores, mas desorientado e sem ocupar um lugar privilegiado na hierarquia funcional, algo que lhe obriga a desperdiçar parte de seus esforços na infrutífera tarefa de convencer chefes céticos e/ou corruptos a manterem investigações que parecem levar a becos sem saída o tempo todo.

Se você pensou na série Bourne, pensou correto. “Trama Internacional” segue as pegadas da mais influente franquia de espionagem do cinema no início do século XXI, embora tenha sido concebida como um primo distante – mais cerebral e menos físico – desta. Não surpreende que a direção do longa-metragem tenha sido entregue ao alemão Tom Tykwer, homem capaz de aliar um estilo narrativo energético e vibrante (características importantes em “Corra Lola Corra”, filme mais famoso de Tykwer) a uma desenvoltura durante as filmagens em locais públicos dos grandes centros do Velho Continente que somente cineastas europeus poderiam ter.

De fato, há virtudes em “Trama Internacional”. Aliado ao roteirista Eric Warren Singer, Tykwer concebeu um thriller ágil, que desfia sua trama intrincada com boa dose de naturalidade e despojamento narrativo, sem que seja especialmente complicado acompanhar as nuances e guinadas do enredo. Por outro lado, após finalizar o primeiro corte em meados de 2008, Tykwer foi obrigado a filmar cenas extras e cortar trechos longos da montagem original, a pedido dos executivos financiadores da obra, para acelerar acrescentar mais cenas de ação e eliminar partes consideradas sem ritmo. O resultado aproxima-se perigosamente na estética e da narrativa da série Bourne, mas sem a personalidade e a inteligência desta. O filme acende a lembrança dos grandes thrillers de espionagem dos anos 1970 (“Três Dias do Condor”, “O Dia do Chacal”) acrescido de doses generosas de correria no estilo da série “24 Horas”, mas acaba falhando nas duas vertentes.

Apesar de contar com seqüências de fôlego, o longa nunca consegue engrenar realmente. Sua seqüência mais famosa – o tiroteio avassalador dentro do Museu Guggenheim de Nova York – é um excelente exemplo das virtudes e defeitos. Embora seja extremamente bem filmada e editada (a influência da cena da invasão do prédio no primeiro “Matrix” é óbvia), a cena soa simplesmente desnecessária; poderia ser inteiramente cortada do filme que não faria a menor diferença. Claro que essa atitude radical não desagradaria aos fãs de filmes de ação, e são eles que lotam os cinemas, de forma que “Trama Internacional” se torna, em alguns momentos como esse, uma espécie de elefante branco dentro de uma loja de cristais.

De resto, percebe-se claramente o desperdício de um elenco cujo talento é inquestionável, já que eles interpretam personagens que não são desenvolvidos em nenhum momento. O inglês Clive Owen usa a energia habitual para impor certo grau de desespero ao desnorteado Louis, mas sua química com a parceira de cena Naomi Watts é praticamente nenhuma, talvez porque a atriz canadense não tenha qualquer atrativo para se esforçar em um papel raso e mal dimensionado. O dinamarquês Ulrich Thomsen, no papel do letal e quase invisível assassino de aluguel, é a melhor presença no elenco internacional, mas não salva o filme de soar como uma espécie de filmagem cara do primeiro rascunho de um filme Bourne. Mau sinal.

O DVD brasileiro, da Universal, traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, comentário em áudio do diretor, cena deletada, quatro featurettes e um making of da produção.

– Trama Internacional (The International, EUA/Alemanha/Inglaterra, 2008)
Direção: Tom Tykwer
Elenco: Clive Owen, Naomi Watts, Armin Mueller-Stahl, Ulrich Thomsen
Duração: 118 minutos

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