Trama Macabra

28/08/2008 | Categoria: Críticas

Embora datado, thriller que marcou a despedida de Alfred Hitchcock esbanja humor negro e clareza narrativa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Faz parte do senso comum afirmar que o trabalho de Alfred Hitchcock declinou em meados dos anos 1960, logo após a extraordinária fase que produziu alguns dos maiores clássicos da história do cinema (“Intriga Internacional”, “Psicose”, “Um Corpo que Cai”, “Os Pássaros”). Por causa disso, boa parte dos cinéfilos passa ao largo de “Trama Macabra” (Family Plot, EUA, 1976), último filme dirigido pelo mestre inglês, quando as condições de saúde dele já não eram boas. Uma pena: está aí um longa-metragem que merece uma revisão urgente e criteriosa. Flertando generosamente com o humor negro, Hitchcock foi capaz de produzir, mesmo doente, um thriller divertidíssimo, que funciona também como excelente exemplo de narrativa clara, limpa e sem gorduras.

O roteiro, escrito por Ernest Lehman (mesmo autor de “Intriga Internacional”), foi baseado em um romance lançado em 1972, que relatava o seqüestro do arcebispo de Canterbury (Inglaterra) e focalizava a perseguição policial aos suspeitos errados – um casal meio amalucado, formado por uma médium vigarista e um motorista de táxi. Curiosamente, embora a trama original fosse uma variação do tema predileto de Hitchcock, ele autorizou uma série de mudanças nela. O rapto do religioso, por exemplo, se tornou um incidente secundário. Na verdade, Hitchcock usou a história para brincar com a estrutura narrativa popularizada na época por Robert Altman, com diferentes tramas paralelas se entrecruzando.

De fato, o filme narra duas histórias distintas que convergem. Uma delas, protagonizada pela médium (Barbara Harris) e pelo motorista (Bruce Dern), mostra-os sendo contratados por uma viúva ingênua para encontrar um sobrinho desaparecido há 25 anos. A outra focaliza outro casal, formado por um joalheiro (William Devane) e sua esposa (Karen Black). Os dois acabaram de finalizar o seqüestro de um milionário e mantêm um enorme diamante (o resgate) escondido em casa, esperando o momento certo para negociá-lo. Logo na abertura, Hitchcock sinaliza o entrelaçamento das histórias com uma tomada perfeitamente coreografada, em que o táxi do casal amalucado quase atropela a seqüestradora. A partir daí, o diretor se dedica a cruzar os dois casos de maneira inventiva e muito, muito engraçada, em acontecimentos cheios de contratempos curiosos.

Como de hábito, Hitchcock demonstra absoluta clareza narrativa, contando uma trama intrincada de forma clara e límpida, sem deixar que o público afunde nos meandros da história por um segundo sequer. Ele capricha nos momentos de humor negro (as duas sessões espíritas e o seqüestro do arcebispo são particularmente eficientes), auxiliado por um elenco que incorpora o espírito leve e engraçado da história com propriedade – o destaque fica por conta de Barbara Harris, ótima nos momentos cômicos. A surpresa maior está numa boa cena de ação física, que mostra um automóvel sem freios descendo uma montanha. Hitchcock não gostava desse tipo de cena, e preferiu fazer tudo em estúdio, usando tela verde. O resultado poderia soar falso, mas graças à perícia dos envolvidos (e também à atmosfera de gozação, que impede o público de levar tudo a sério demais), a seqüência funciona bem.

Por outro lado, pode-se perceber claramente a predileção de Hitchcock por longos planos gerais, o que resulta em um trabalho de câmera menos sofisticado do que o habitual (apesar de um desses planos, que se passa em um cemitério, ser a proeza técnica mais interessante do filme). Além disso, parte do longa soa datado, graças principalmente ao comportamento excessivamente britânico dos personagens – apesar de cometerem crimes horríveis, os seqüestradores não soam ameaçadores em nenhum momento. Quando se põe o título ao lado dos thrillers realistas que eram produzidos naquela época (coisas como “Um Dia de Cão” e mesmo “Taxi Driver”), fica óbvio que o cinema de Hitchcock, apesar de muito bem bolado e sempre interessante, parecia um artefato de museu.

Na verdade, esse é um dos motivos para compreender a reação fria que “Trama Macabra” obteve junto à crítica, na época de seu lançamento, bem como o relativo esquecimento por parte dos cinéfilos contemporâneos. O altíssimo nível cinematográfico estabelecido por Hitchcock em grande parte de seus 52 filmes anteriores também tem culpa no cartório, já que as pessoas sempre esperavam dele mais um clássico da Sétima Arte. Quando visto por si só, porém, “Trama Macabra” se mostra um belo thriller de humor negro. Há muito cineasta de talento por aí que ficaria muito orgulhoso em assinar um filme como “Trama Macabra”, ainda que uma só vez na vida.

O DVD lançado pela Universal é simples, mas caprichado. Além de trazer o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0), acrescentou um ótimo documentário retrospectivo (50 minutos, produzido por Laurent Bouzereau e com legendas em português), galeria de fotos e storyboards completos de uma cena.

– Trama Macabra (Family Plot, EUA, 1976)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Bruce Dern, Barbara Harris, William Devane, Karen Black
Duração: 121 minutos

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