Transformers

31/01/2008 | Categoria: Críticas

Explosões, CGI de primeira, muita ação: uma Sessão da Tarde de luxo para adolescentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Michael Bay é o tipo de cineasta que críticos e cinéfilos amam odiar. O motivo é o pendor do cineasta para um tipo de cinema que valoriza a ação descontrolada, megalomaníaca e melodramática, povoada por personagens unidimensionais que possuem a mentalidade de um esquilo. Não é preciso muito esforço para perceber que a folha corrida de Bay o transforma no diretor ideal para comandar “Transformers” (EUA, 2007), uma aventura de US$ 150 milhões repleta de efeitos digitais, correria e carros sendo destruídos. O filme é baseado em uma linha de brinquedos infantis, popular nos anos 1980, e o resultado parece exatamente com um filme de Michael Bay. Com explosões mirabolantes, CGI de primeira e muita ação frenética, é uma Sessão da Tarde de luxo para adolescentes.

Em meados da década de 1980, a empresa Hasbro se transformou na segunda maior fabricante de brinquedos infantis depois de lançar a linha de bonecos Transformers. Eram carros em miniatura cujas partes móveis os meninos podiam manipular, até que eles se transformassem em robôs. Espécie de aliens caratecas de metal, os mimos migraram para a televisão em 1984, e para o cinema dois anos depois, em um longa-metragem animado. Nestas mídias, estrelaram várias aventuras que definiram as regras fundamentais do universo da série. Neste universo, duas raças de gigantescos robôs alienígenas (uma boa, os Autobots; outra má, os Decepticons) duelam, na Terra, pela posse de um artefato mágico capaz de dar a vitória suprema a quem o conquistar.

Com a ajuda dos roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman, o cineasta Michael Bay usou a premissa da série original moldada ao feitio de Steven Spielberg. O ponto de vista narrativo é o de um adolescente que, de repente, se vê bem no centro desta luta titânica de robôs gigantes que se transformam em carros e telefones celulares. Sam Witwicki (Shia LaBeouf, o motorista de táxi de “Constantine”) não sabe, mas está de posse de um mapa do cubo mágico, artefato que dará a vitória ao esquadrão alien que o conseguir em definitivo. As duas raças de robôs descobrem a informação ao mesmo tempo, e invadem o planeta simultaneamente, na surdina. Os Decepticons querem dominar o universo, enquanto os Autobots desejam proteger os humanos desta ameaça.

De início, nenhuma das duas facções mostra a cara diretamente. Os robôs se disfarçam de engenhocas eletrônicas, como aparelhos de telefone celular e CD Players, para espionar e tentar localizar o rapaz antes dos adversários. O que se segue é um filme frenético que adota uma fórmula imbatível nos anos 1980: adolescentes vivem aventuras incríveis, conhecem o amor (e o sexo, claro) e viram heróis internacionais, enquanto os adultos ignorantes não conseguem romper a barreira da incredulidade até que seja tarde demais. Você já viu esta história antes, em filmes como “E.T.” e “Os Goonies”.

Com Michael Bay na direção, contudo, desaparecem as nuances que transformariam os personagens em seres humanos reais. Sam Witwicki, por exemplo, reúne todos os estereótipos do gênero: é pobre, feio e magricela, um nerd típico das escolas secundárias norte-americanas, celebrizado pelas produções infanto-juvenis do mesmo período do nascimento dos Transformers. O maior desejo dele é comprar um carro. Não pelo veículo em si, mas pelo que ele representa – um passaporte para sair com meninas como Mikaela (Megan Fox), gatinha acostumada a badalar com rapazes sarados e de olhos azuis, do tipo que nunca notou Sam sentado na carteira atrás dela, durante todos os anos de colégio. Não é preciso ser um oráculo para imaginar o que vai acontecer entre esses dois personagens.

Apesar das semelhanças, há diferenças abissais entre Michael Bay e os melhores cineastas de sensibilidade adolescente, como Steven Spielberg (que assina o longa como produtor executivo) e Cameron Crowe. Enquanto os dois últimos enxergam a humanidade dentro de cada rapaz e sabem como filmar o crescimento emocional deles, Bay os usa como meros invólucros sem alma, e privilegia a ação bombástica. Outro problema é que o filme não se furta a exibir um subtexto reacionário, que santifica a doutrina republicana com frases de efeito como “a liberdade é o maior bem da humanidade”. É tudo simplista e raso, o tipo de palavrório de filmes que subestimam a inteligência da platéia do começo ao fim.

Isso posto, há alguns detalhes positivos em “Transformers”. O principal deles é algo que parecia ausente na obra anterior de Michael Bay: o humor. Com tiradas engraçadas e até mesmo um personagem cômico (o robô anão que espiona os militares atrás da localização do cubo), o filme soa bem mais agradável do que o dramalhão interminável de filmes como “Pearl Harbor” e “Armageddon”, dois dos piores e mais vistos trabalhos de Bay (em uma auto-citação curiosa, um adolescente que presencia a destruição causada pelos alienígenas exclama que aquilo é cem vezes melhor do que “Armageddon”). O ritmo também é correto, com alternância de seqüências de ação (há longas perseguições de carro e cenas de destruição inspiradas em monstros como Godzilla e King Kong) e um clímax eletrizante, que inclui a indefectível luta entre os dois robôs líderes e uma importante participação humana no desfecho.

O elemento de maior destaque de “Transformers”, como se poderia esperar, é mesmo a qualidade dos efeitos especiais criados pela Industrial Light & Magic. O design dos robôs, escondido a sete chaves pela equipe criativa, é espetacular, e as cenas em que os monstrengos de metal saltam dos disfarces – carros velhos, aviões e caminhões – para revelar a verdadeira forma, gigantesca e imponente, realmente impressionam. A cada transformação, são mais de 10 mil pecinhas de metal rangendo e se contorcendo até tomarem a forma de robôs humanóides de vários metros de altura, com rostos humanos e voz gutural. Os criadores do CGI não se intimidam nem mesmo com o sol, fazendo o confronto final entre os aliens metálicos ocorrer em plena luz do dia, algo que sempre complica a vida dos animadores.

É verdade que velhos defeitos de Michael Bay escapolem para dentro das melhores cenas, aqui e acolá. Os trechos mais melodramáticos são mostrados em câmera lenta, com música sentimentalóide horrível, supostamente para provocar lágrimas na platéia a sacarina escorre por todos os lados. A edição, que abusa dos planos-detalhes, tampouco escapa da mania clássica dos diretores de ação, e picota as cenas mais aceleradas em tomadas rapidíssimas que raramente chegam aos dois segundos de duração. Tal velocidade de edição faz com que o público tenha dificuldade para identificar cada robô, especialmente quando dois deles se engalfinham, enquanto a câmera salta, corta e dá giros. Verdade seja dito: problemas desse tipo não afetam o público-alvo deste tipo de filme. Pelo contrário. Se você gosta de aventuras com efeitos especiais de primeira, e não liga muito para desenvolvimento de personagens, “Transformers” tem tudo para lhe agradar.

O DVD simples contém apenas um comentário do diretor como extra. O filme está com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O DVD duplo traz um disco extra com quatro segmentos de documentários, incluindo entrevistas com o elenco e com técnicos, explicações técnicas sobre a construção dos robôs e uma análise detalhada da seqüência do ataque de um robô em formato de escorpião a um grupo de militares, no deserto e em plena luz do sol.

– Transformers (EUA, 2007)
Direção: Michael Bay
Elenco: Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel, Tyrese Gibson
Duração: 139 minutos

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