Transformers 2: A Vingança dos Derrotados

29/09/2009 | Categoria: Críticas

Seqüência do sucesso de 2007 é puro Michael Bay: uma aventura de ego inflado, bombástica e vazia, que emoldura cenas de uma linda atriz filmada de forma vulgar com intermináveis seqüências de latarias sendo esmagadas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

De vez em quando, uma mega-produção hollywoodiana atinge os cinemas como um meteoro gigante, apenas para nos lembrar do quão esmagadora, agressiva e influente a máquina de marketing dos grandes estúdios consegue ser. “Transformers 2: A Vingança dos Derrotados” (Transformers 2: Revenge of the Fallen, EUA, 2009), segunda parte da franquia capitaneada por Michael Bay, nos lembra disso mais uma vez. Afinal, o grau de expectativa do público atingiu níveis descomunais, e isso nada tinha a ver com a qualidade do filme em si. O que tudo mundo queria ver mesmo era a atriz Megan Fox (eleita pelas revistas de fofoca “a mulher mais bonita do mundo” em 2009). E um pouquinho mais das peripécias do garoto Shia LaBeouf, alçado à categoria de astro promissor após participação em filmes de sucesso, e dos efeitos especiais capazes de transformar carcaças de metal em algo visualmente compreensível.

Pois bem: talvez nem mesmo os fãs mais radicais da franquia fiquem inteiramente satisfeitos com “Transformers: A Vingança dos Derrotados” Durante nada parcos 156 minutos, o espectador será brindado com uma overdose de rangidos, explosões de deixar surdo com coceira na orelha, lutas entre robôs gigantes que são impossíveis de compreender e, sim, imagens machistas. Trata-se de um puro exemplar do cinema de Michael Bay, o diretor que os críticos adoram odiar (com razão): uma aventura de ego inflado, bombástica e vazia, que emoldura raras cenas de uma linda atriz filmada como pôster de borracharia (em versão literal) com intermináveis seqüências de lataria sendo esmagada, tudo adornado com uma trilha sonora bate-lata executada em volume ensurdecedor, para garantir que ninguém durma (ou mesmo raciocine) durante a exibição.

O tamanho da expectativa – a produção ganhou capas e mais capas de publicações importantes no primeiro trimestre de 2009 – talvez seja a maior justificativa para a inacreditável duração do filme. Aventuras juvenis, como sabemos, normalmente não ultrapassam as duas horas de correria, inclusive para que os cinemas possam fazer mais exibições diárias, e as bilheterias aumentem ainda mais. Organizando seu filme como uma série interminável de seqüências extravagantes e barulhentas de ação digital, mescladas a interlúdios engraçadinhos e dois ou três momentos pseudo-românticos constrangedores, Michael Bay conseguiu transformar aquilo que deveria ser diversão descerebrada para adolescentes masculinos numa espécie de compêndio de estereótipos juvenis burros.

Não vale a pena perder muito espaço aqui para descrever o enredo, já que ele não passa de pretexto para a construção de espetaculares transformações de automóveis 0 Km em monstrengos de metal que lembram vagamente a forma de robôs. Basicamente, Bay e seus roteiristas bolaram uma trama que consiste mais ou menos em uma variação pouco disfarçada do primeiro filme: os namorados Sam (LaBeouf) e Mikaela (Fox) precisam ajudar os robôs alienígenas do bem, chamados Autobots, a encontrar uma máquina poderosa, escondida há milênios no planeta, antes que a raça de robôs do mal (os Decepticons), agora liderados por um ser hiper-poderoso que vive em outro planeta, o faça.

Num filme assim, em que boa parte dos personagens importantes são robôs disfarçados de carros, é de se imaginar que os efeitos digitais e o desenho de som sejam elementos de destaque. Pois não são. Embora sejam visíveis os milhões de dólares gastos na concepção e nas transformações dos robôs, em inúmeras cenas que se passam à luz do dia, a encenação de Michael Bay é pobre e sem inspiração. Não são poucas as tomadas, por exemplo, em que a câmera gira em torno de montes de metal cujas formas são indistinguíveis, de forma que o espectador pouco consegue compreender o que está acontecendo – não dá para saber onde a qual robô pertence aquela lâmpada que eles chamam de olho, por exemplo. Além disso, a platéia muitas vezes perde de vista a escala gigantesca dos robôs, simplesmente porque a composição é mal planejada. A câmera está sempre girando em torno deles e quase nunca enquadra seres humanos, objetos ou construções que possam dar volume ou perspectiva às lutas frenéticas que vemos na tela.

Quanto ao desenho de som, basta comparar “Transformers: A Vingança dos Derrotados” com o muito superior “Wall-E” (2008). O filme da Pixar também era povoado por robôs, mas os efeitos sonoros caprichados garantiam que cada um deles tivesse uma personalidade discernível e uma jornada emocional completa pela frente. No longa de Michael Bay, os sons emitidos pelos robôs cabem invariavelmente em duas categorias: vozes masculinas guturais para os monstrengos de lata, e vozes metálica finas e zombeteiras para os robôs menores, que quase sempre têm o papel narrativo de alívio cômico (ou seja, estão ali apenas para fazer a platéia rir de vez em quando), vivendo de trapalhadas sem graça. Tedioso é pouco.

Outro ponto profundamente discutível é o tratamento que Bay dá ao princípio chamado “suspensão da descrença”. Segundo esse princípio, qualquer cineasta precisa trabalhar bastante os elementos que ferem as leis da Física, para que a platéia possa acreditar que os atos impossíveis executados pelos personagens sejam possíveis, naquele universo ficcional. Pois em “A Vingança dos Derrotados” os robôs levam segundos para cruzar o Sistema Solar e o teletransporte de humanos, embora seja uma impossibilidade científica, é encarado com naturalidade pelos personagens, que passam de Washington para o Egito num instante e acham isso a coisa mais normal do mundo. E esses são apenas dois exemplos entre muitos.

Por fim, merece uma observação espacial a vulgaridade com que Michael Bay abraça clichês e estereótipos da representação de grupos sociais no cinema. Adolescentes – que formam o público-alvo da produção – são mostrados como seres exibicionistas, ignorantes e insensíveis (atenção para a longa seqüência em que Sam Witwicki chega à universidade). Garotas são filmadas como máquinas vulgares de fazer sexo, de forma que Michael Bay consegue a proeza de estragar a beleza real de Megan Fox,filmando-a de maneira vulgar: a câmera a fetichiza literalmente como uma pin-up de borracharia (cuja cabelo e maquiagem nunca saem do lugar, mesmo sob o sol a pino do deserto egípcio), e parece estar prestes a começar a lambê-la a qualquer momento, embora o próprio namorado da moça tenha uma atitude incompreensivelmente blasé em relação às insinuações sexuais contidas no roteiro.

O DVD da Paramount, simples, traz o filme com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio OK (Dolby Digital 5.1).

– Transformers: A Vingança dos Derrotados (Transformers: Revenge of the Fallen, EUA, 2009)
Direção: Michael Bay
Elenco: Shia LaBeouf, Megan Fox, John Turturro, Ramon Rodriguez
Duração: 156 minutos

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