Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, O

05/12/2005 | Categoria: Críticas

Filme de maior sucesso dos Trapalhões ganha edição tardia em DVD

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Qualquer um que tenha acompanhado, com um mínimo de interesse, as aventuras cinematográfica de Os Trapalhões sabe que dois longas-metragens se revezam, na imaginação popular, como os melhores do grupo. Um é “Os Saltimbancos Trapalhões”, bem cuidada produção de 1981 baseada em um espetáculo infantil de sucesso, com trilha sonora de Chico Buarque. O outro foi feito em 1977 e se transformou na maior bilheteria da trupe, com 5,8 milhões de espectadores. “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (Brasil, 1977) é, com todos os efeitos, o filme que melhor resume a comédia fuleira, espontânea e infantil dos quatro comediantes mais amados pelas crianças brasileiras. Em resumo, uma beleza de filme B para meninos com menos de 8 anos.

Como se sabe, durante a fase áurea de sua carreira, o grupo fazia lançamentos anuais nos cinemas, quase sempre baseando o enredo de cada filme em livros, fábulas ou filmes internacionais. No caso de “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão”, o material de origem foi a compilação “As Mil e Uma Noites”. Isso explica, em parte, a completa falta de lógica adulta que permeia a produção, ancorada principalmente no humor físico de Renato Aragão, Dedé Santana e Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum. Sentiu falta de alguém? Pois é, o eterno Zacarias (Mauro Gonçalves) ainda não havia sido integrado ao grupo, que na ocasião era um trio.

Apesar de ser um dos preferidos pela criançada, Zacarias não faz falta no filme, já que os outros três estavam afiados. Eles interpretam um grupo de pequenos vigaristas que ganha a vida simulando brigas em feiras livres. Pilo (Aragão) e Duka (Santana) quebram o pau, enquanto Fumaça (Mussum) recolhe apostas. Assistindo a uma dessas brigas, Glória (Monique Lafond) acredita que eles são um grupo de corajosos aventureiros, e pede ajuda para encontrar o pai há muito desaparecido, o arqueólogo Aristóbulo (Carlos Kurt). Como pagamento, oferece metade do fabuloso tesouro do rei Salomão, que o professor estava buscando quando sumiu.

Acompanhados de Alberto (Francisco di Franco), sujeito boa-pinta que se agrega ao grupo, eles entram em uma floresta e vivem uma série de aventuras, esbarrando continuamente em piratas, árabes, ninjas, uma tribo africana e uma bruxa de 200 anos (Vera Setta). Os personagens deixam evidente a questão da falta de lógica, já que seria virtualmente impossível que todos esses grupos vivessem em um mesmo território (ainda mais em uma região em que floresta cerrada e deserto esturricado estão a 10 metros de distância). Mas isso não chega a ser um problema, pois a lógica de um filme dos Trapalhões não é a lógica cartesiana dos adultos; é a adorável bagunça do reino dos contos de fada, o reino de mentirinha que só existe na mente de uma criança.

“O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” foi feito para elas. Nesse sentido, tem muitos atributos: o humor ingênuo de Didi, cenas de ação coreografadas com muito humor e uma utilização criativa de ícones do universo das fábulas (piratas, árabes, bruxa, ermitão, gigante), tudo misturado em uma salada narrativa que corre como bala rumo a um final emocionante, envolvendo Didi e seu cachorro vira-lata. Por investir mais nas boas idéias do que nos cuidados (leia-se dinheiro) de produção, o filme representa melhor o espírito vagabundo do grupo do que o também ótimo “Os Sanltimbancos Trapalhões”.

Em termos estritamente cinematográficos, claro, as falhas – erros de continuidade, furos no roteiro – são gritantes, apesar de algumas seqüências que transparecem uma criatividade a toda prova (veja, por exemplo, a cena da fonte da Vida e da Morte, e a perseguição do gigante a Didi e Dedé). Mas esse é um filme que não deve ser analisado com o olho clínico de um adulto; é um filme que precisa do olhar afetuoso de uma criança para funcionar. Desde que você seja capaz de se despir de preconceitos e encarar tudo como parte de uma brincadeira infantil onde a lógica é o elemento que menos importa, “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” é um programão, para ver com pipoca e guaraná à vontade.

O filme chegou às bancas de revistas em dezembro de 2005, como parte da coleção Flashback, da Editora Abril. Infelizmente, o título é tecnicamente pobre. As imagens vêm no formato 4:3, repletas de arranhões e cores esmaecidas. O som usa apenas quatro canais (Dolby Digital 2.0). Como extra, uma entrevista com Renato Aragão (29 minutos). A Europa Filmes lançou outra edição, com capa diferente e sem a entrevista extra, mas com a mesma qualidade.

– O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (Brasil, 1977)
Direção: J.B. Tanko
Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum, Monique Lafond
Duração: 80 minutos

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