Três Enterros

10/08/2006 | Categoria: Críticas

Tommy Lee Jones estréia na direção com filme triste sobre pessoas que procuram encontrar um lugar para si no mundo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Três Enterros” (The Three Burials of Melquiades Estrada, EUA/França, 2005) é um filme triste e incomum sobre sentir-se deslocado, sobre pessoas que procuram desesperadamente um lugar para si no mundo. Gente que deseja ter uma identidade. O fato de a história girar em torno do cadáver de um homem, e de ser ambientada na fronteira entre EUA e México, fez com que os críticos classificassem a estréia na direção do ator Tommy Lee Jones como uma visita, em estilo e temática, à obra de Sam Peckinpah. Mas se o tema e a ambientação resgatam o “Poeta da Violência”, a obra também revela um cineasta sensível que soube tecer uma trama inteligente sobre um fato absolutamente trivial – a morte de uma pessoa humilde.

A história de “Três Enterros” é narrada em três atos, cada um correspondendo a um funeral do imigrante mexicano Melquiades Estrada (Julio César Cedillo). Em linhas gerais, pode-se dizer que a maior parte do filme documenta a reação do vaqueiro Pete Perkins (Lee Jones) ao descobrir que seu melhor amigo foi assassinado misteriosamente, e sua luta para fazer justiça à memória do colega. Mas a história em si é o que menos importa: o que o filme traz de melhor é a radiografia das vidas de pessoas tão ordinárias, e tão fascinantes. Os personagens de “Três Enterros” têm um elo em comum, que é a sensação melancólica de deslocamento, de estar longe de casa, de não conseguir encontrar um lar.

Um dos personagens secundários do longa-metragem tematiza o filme com especial eficácia. Trata-se de um velho cego que Pete encontra, durante a dura jornada que enfrenta para levar o corpo de Melquiades ao vilarejo onde o mexicano nasceu. O senhor de idade fica em cena por poucos minutos; oferece um jantar ao andarilho e faz a ele um pedido especial, no momento da despedida. É esse pedido – e as razões que enumera para fazê-lo – que dramatizam com mais propriedade o tema geral do filme: a procura de um lugar no mundo.

Não é fácil explicar o enredo de “Três Enterros”, porque a montagem originalíssima de Roberto Silvi fragmenta a história, desde o início, em tempos diversos. À moda do escritor Gabriel Garcia Márquez (influencia confessa do roteirista Guillermo Arriaga, premiado em Cannes 2005 pelo texto brilhante), cada personagem é apresentado dentro de um tempo cronológico específico. A princípio, a estratégia narrativa de ir e vir no tempo, sem que isso seja anunciado à platéia, pode parecer confusa, mas aos poucos o painel montado por Tommy Lee Jones vai realizando conexões inesperadas entre os personagens, de modo que mais ou menos na metade do filme o espectador já compreende o quadro geral melhor do que qualquer personagem. É uma narrativa original e, mais do que isso, instigante.

O policial Mike Norton (Barry Pepper) e a esposa Lee Ann (January Jones), por exemplo, são mostrados alugando uma casa na minúscula cidade de fronteira onde Mike vai trabalhar. Os momentos privados do casal ocorrem muito antes do acontecimento central do filme, e aparentemente a mulher não tem relação com a morte de Melquiades Estrada, mas o roteiro vai tratar de corrigir esse engano. O filme dedica um bom tempo para observar Lou Ann, um personagem aparentemente insignificante. Mas observe melhor e verá o erro. Ela gosta de seguir a moda, faz regime (embora seja magra), gosta de fazer compras em shopping center. É uma mulher de cidade grande, presa num vilarejo no fim do mundo. Lou Ann é infeliz porque não está em casa. Nenhum personagem está em casa.

Esse é precisamente o sentido da jornada quixotesca de Pete Perkins para enterrar o corpo do amigo morto no México: levá-lo para casa. Como você pode notar, o tema da procura do lar pode ser rastreado em cada personagem de “Três Enterros”: a mulher do policial, o velho cego e muitos outros, como a garçonete que se prostitui por puro tédio (Melissa Leo) e o xerife obtuso da cidade (Dwight Yoakam). Tommy Lee Jones solicitou que cada membro do elenco se preparasse para o filme lendo a novela “O Estrangeiro”, de Albert Camus, e acertou em cheio: o sentimento de desolação e angústia do protagonista do livro é exatamente a sensação que emana das belas imagens de “Três Enterros”.

Por isso, faz sentido a comparação freqüentemente feita entre “Três Enterros” e “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, de Peckinpah. A semelhança vai além do nome mexicano no título original, do local de fronteira em que os dois filmes se passam e do fato de serem, ambos, road movies (no caso de “Três Enterros”, um road movie a cavalo e no meio do mato) com um cadáver humano como viajante. Os dois longas-metragens documentam jornadas impossíveis de homens que compartilham a sensação de falta de um lar verdadeiro. A produção de Tommy Lee Jones também tem o ar misterioso e lúgubre dos faroestes psicológicos de Monte Hellman (“The Shooting” e “Ride in the Whirlwind”, ambas lançadas no Brasil com vários nomes diferentes).

Apesar dos acertos na montagem fragmentada, na fotografia escaldante que valoriza os amplos espaços abertos de Chris Menges e na excelente trilha sonora country de Marco Beltrami, o roteiro de Guillermo Arriaga (que escreveu “21 Gramas”) é a grande estrela do filme. Cada cena e cada personagem têm uma razão específica para estar lá, embora isso nem sempre fique logo evidente. Tome como exemplo a seqüência em que Mike Norton persegue e espanca uma mexicana que tenta entrar ilegalmente nos EUA pelo deserto. A cena, apresentada no começo do filme, aparentemente serve apenas para ilustrar a personalidade violenta do policial. Mas tente analisar a mesma cena ao fim do longa-metragem e verá que há mais coisa acontecendo no quadro do que os olhos podem ver.

Como se não fosse suficiente, “Três Enterros” também aborda de raspão temas controversos e/ou sombrios, como a morte. O filme não economiza nas tomadas que mostram a degradação crescente do corpo de Melquiades. Além disso, a maneira horripilantemente prática com que o personagem de Tommy Lee Jones lida com a situação pode embrulhar estômagos mais sensíveis.

Outro tópico trazido à tona é a situação dos imigrantes ilegais mexicanos que cruzam a fronteira dos EUA para procurar trabalho. Nesse sentido, é curioso observar que a jornada de Pete Perkins acontece no sentido oposto, já que ele precisa ir dos Estados Unidos para o vilarejo mexicano de forma irregular, carregando consigo um cadáver. Para completar, o final da jornada não escorrega no melodrama e encerra o filme com firmeza e sobriedade. “Três Enterros” é uma impressionante estréia na direção e um dos melhores filmes americanos de 2005.

Lançado pela Califórnia Filmes, o DVD é fraco. O fil,me aparece com cortes laterais na imagem (fullscreen 4:3) e áudio apenas razoável (Dolby Digital 2.0), além de não conter nenhum extra.

– Três Enterros (The Three Burials of Melquiades Estrada, EUA/França, 2005)
Direção: Tommy Lee Jones
Elenco: Tommy Lee Jones, Barry Pepper, Julio César Cedillo, Dwight Yoakam, January Jones
Duração: 121 minutos

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