Três… Extremos

20/04/2006 | Categoria: Críticas

Coletânea reúne bons diretores de Japão, Coréia e Hong Kong em trinca de histórias bacanas de horror

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A tradição de reunir três histórias curtas e lançar como um só produto remonta à literatura de horror do século XIX. O cinema adaptou a tradição, e desde a década de 1960 é corriqueiro ver longas-metragens formados por segmentos independentes, muitas vezes assinados por diferentes diretores. Um dos melhores exemplos recentes dessa tradição é a coletânea asiática “Três… Extremos” (Three… Extremes, Coréia do Sul/Japão/Hong Kong, 2004), longa-metragem que surgiu com a proposta de apresentar aos países ocidentais um pouco da excelente cinematografia de horror/suspense que vem sendo desenvolvida no Oriente.

O melhor de tudo é que, ao contrário da maioria dos projetos do gênero, os contos de “Três… Extremos” possuem uma unidade, um fio condutor único, que é um visual esmerado em produzir uma atmosfera envolvente de suspense refinado, sem recorrer a sustos triviais. Não é simplesmente uma coleção aleatória de três histórias curtas, compiladas num único produto. O bom resultado foi conseguido graças à qualidade dos diretores envolvidos, já que a intenção original dos produtores era simplesmente reunir, num único filme, exemplos do melhor cinema de três países: Japão, Hong Kong e Coréia do Sul. Assim, cada cineasta teve liberdade para produzir uma história de 40 minutos, sem qualquer limite de temática ou equipe.

Os nomes escolhidos são diretores de prestígio nos respectivos países. Do Japão, veio Takashi Miike (“Audition”); da Coréia, Park Chan-Wook (conhecido no Brasil graças ao sucesso do excelente “Oldboy”); e de Hong Kong veio o mais desconhecido dos três, Fruit Chan. Os três seguem uma tradição do cinema asiático: são estilistas, diretores extremamente preocupados com a questão da imagem. O resultado é um filme extremamente plástico, com uso uniforme de cores fortes, composições criativas, enquadramentos precisos, movimentos de câmera refinados. “Três… Extremos” é um banho de estilo revigorante para os cinéfilos que prestam atenção no visual dos filmes a que assistem.

Já em termos narrativos, cada conto traz um estilo bem diferente. O primeiro, “Box”, de Takashi Miike, é um conto poético, quase uma fábula, sobre o remorso. A personagem principal é uma tradutora (Mitsuru Akaboshi) assombrada por pensamentos constantes sobre a morte da irmã gêmea, em um acidente ocorrido anos antes, do qual se considera culpada. A forma de narrar, criativa e original, mistura três dimensões de narrativa – realidade, sonho e memória – de forma que o espectador não consegue antecipar o que é real, o que é pensamento e o que é pesadelo da protagonista.

O resultado final é meio etéreo, abstrato, uma pequena gema repleta de elementos visuais vindos do circo e do teatro. Onírico e sinistro ao mesmo tempo, o filminho se assemelha a uma espécie conto macabro, e inclui atores se movendo lentamente como em uma coreografia de dança moderna, máscaras do teatro kabuki japonês, influências medievais e muita beleza plástica. “Box” é um filme que Neil Gaiman e Dave McKean, a dupla responsável por “Máscara da Ilusão” (2005), assinariam com orgulho.

“Dumplings”, o segundo segmento, aposta numa narrativa mais simples e linear, criando uma história amoral que é, na realidade, uma variação das lendas arquetípicas sobre a busca da eterna juventude, mais ou menos na linha de “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Narra a história de uma atriz (Miriam Yeung) que, desesperada para rejuvenescer e atrair de novo a atenção do marido ausente, contrata uma cozinheira (Bai Ling) que lhe promete preparar uma iguaria não apenas deliciosa, mas que tem o dom mágico do rejuvenescimento. Tente não imaginar o ingrediente principal dos bolinhos fritos, ou é capaz de você nem ter coragem de ver o filme.

Um dos elementos que mais chama a atenção é a fotografia primorosa, como sempre, do inglês Christopher Doyle, colaborador fiel de Wong Kar-Wai (“Amor à Flor da Pele”). Ao contrário da história anterior, “Dumplings” é mais realista, mantendo um pé firmemente ancorado na realidade, e muito mais cínico, contando inclusive com efeitos sonoros perturbadores – nas cenas em que a atriz se alimenta dos bolinhos misteriosos – e um final bizarro.

O terceiro e último segmento chama-se “Cut” e é aquele que mais chama a atenção das platéias ocidentais, devido à fama conseguida por Park Chan-Wook. Desde a primeira tomada, fica claro que estamos vendo um filme do diretor de “Oldboy”: preocupação em construir uma atmosfera levemente irreal através de uma direção de arte gótica, enquadramentos que perseguem obsessivamente a simetria (elemento simbolizado com perfeição pelo piso de mármore xadrez do cenário onde quase toda a trama se passa) e uma história de vingança maquiavélica.

O conto é sobre um diretor de cinema (Lee Byung-Hun), cujo nome não é mencionado, feito refém por um homem misterioso, que lhe põe em uma sinuca de bico: se quiser evitar que a esposa pianista (Kang Hye-Jeong) perca os dedos, precisa estrangular uma criança, presa no mesmo quarto. A trama é claustrofóbica, há um senso de humor grotesco muito bem-vindo, mas sem dúvida é um dos mais fracos trabalhos de Chan-Wook. Considerando a habilidade do diretores em tecer tramas complicadas, é possível que ele tenha sido prejudicado pela duração menor do filme. Ainda assim, o conto é temperado com imagens poderosas (a mulher no piano) e um final gore bem divertido. Somando as três histórias, o resultado final é excelente.

– Três… Extremos (Three… Extremes, Coréia do Sul/Japão/Hong Kong, 2004)
Direção: Fruit Chan, Park Chan-Wook e Takashi Miike
Elenco: Lee Byung-Hun, Mitsuru Akaboshi, Bai Ling, Miriam Yeung
Duração: 125 minutos

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