Treze Homens e um Novo Segredo

24/10/2007 | Categoria: Críticas

Steven Soderbergh deixa de lado os conflitos de personagens e se concentra em exibir mais um roubo milimetricamente coreografado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Apreciadores de bom cinema (que, como todos sabem, poucas vezes vem a ser o cinema mais prestigiado pelo público) tendem a olhar com desconfiança para um filme como “Treze Homens e um Novo Segredo” (Ocean’s Thirteen, EUA, 2007). Prejudicial, para a imagem da produção, não é apenas o fato de o título assinado por Steven Soderbergh ser o terceiro exemplar de uma franquia – continuações, como todos sabem, dificilmente conseguem igualar os méritos artísticos do original. Ocorre que a temporada de 2007, da qual “Treze Homens e um Novo Segredo” é um dos expoentes principais, trouxe muitos terceiros filmes de franquias que se revelaram confusos e decepcionantes, apesar do sucesso de público. Aconteceu com “Homem-Aranha 3”, “Piratas do Caribe: No Fim do Mundo” e “Shrek Terceiro”.

Por causa dessas três obras, as expectativas criadas em torno do novo longa-metragem com os ladrões mais cool do planeta se tornaram extremamente baixas, pelo menos para a parcela minoritária de cinéfilos interessados em filmes, e não em produtos de marketing travestidos de cinema. É um alívio, portanto, constatar que Steven Soderbergh não perdeu a perícia, e mesmo trabalhando com um elenco de 14 (!) protagonistas, soube fazer um trabalho consistente e divertido. “Treze Homens e um Novo Segredo” se situa bem próximo do primeiro exemplar da franquia, mostrando-se um legítimo representante do filme de roubo (tal qual “Rififi”, “O Segredo das Jóias” e a maior parte dos longas de David Mamet) e mostrando um deles, milimetricamente coreografado. Também se afasta do que foi feito no segundo, cuja trama apostava mais na dinâmica entre os personagens do que nos roubos propriamente ditos.

De fato, a segunda parte da franquia era mais sobre paixões mal-resolvidas e menos sobre roubos, enquanto “Treze Homens e um Novo Segredo” encarna uma narrativa mais simples e direta, toda calcada na engenhosidade da ação dos ladrões chiques. Depois de uma curta apresentação do novo vilão – o vaidoso empresário de cassinos Willie Bank (Al Pacino) – todo o filme se concentra na organização do complexo golpe que o bando de Danny Ocean (George Clooney) pretende dar no desalmado executivo, cuja sanha gananciosa provocou um enfarte em Reuben (Elliott Gould), o bandido boa-praça que sempre financiou os golpes da gangue. Interessante perceber que o roteiro de Brian Koppelman e David Levien volta a apostar na idéia de uma ética profissional entre larápios para diferenciar os mocinhos (ladrões éticos) e bandidos (ladrões canalhas).

Detratores vão argumentar que esta é uma idéia de segunda mão, e não deixam de ter certa dose de razão. Na verdade, bem escondida sob a aparência chique-cool que é marca registrada dos três filmes, a trama não passa de uma variação da história já mostrada no primeiro filme, que por sua vez já derivava de tramas de Mamet e Jules Dassin. Isto fica especialmente evidente quando se observa a função de cada personagem no roubo. O ator Don Cheadle, por exemplo, ganha uma função absolutamente idêntica à que ele tinha em “Onze Homens e um Segredo”. Olhando atentamente, as semelhanças abundam: também os personagens de Matt Damon (conflitos com o pai) e Eddie Jemison (o bandido trapalhão, responsável pelo truque com a máquina de Black Jack) se vêem às voltas com problemas do mesmo gênero, e até o cenário – os salões multicoloridos dos cassinos de Las Vegas – é igual.

O fabuloso e multimilionário elenco, aliás, é quase o mesmo das outras duas incursões de Soderbergh pelo território dos ladrões de luxo. Clooney, Damon, Brad Pitt e Andy Garcia estão de volta, sempre metidos em camisas de seda impecáveis, mordiscando petiscos sofisticados, bebericando uísque ou champanhe francês. Não há nenhuma dúvida de que a ala masculina do elenco, que é bem generosa, se diverte horrores nas filmagens – filmes com muitos atores supõem que cada um tenha poucas cenas, e portanto sempre sobra bastante tempo para que todo mundo caia na farra. Este clima de diversão e camaradagem masculina vaza para dentro da tela, através dos diálogos curtos e pontuados de momentos de humor, e isto é um ponto forte do filme. E se o elenco perde os préstimos de Julia Roberts e Catherine Zeta-Jones, ganha a energia de Al Pacino – histriônico e magnético como sempre – e Ellen Barkin.

Se não preza muito pela originalidade, o truque de prestidigitação cinematográfica é coordenado com perícia e destreza por Soderbergh. Há até espaço para pequenos improvisos, com ocorre após a aparição inesperada do FBI dentro do cassino, durante a execução do assalto. A decisão de descartar todo e qualquer conflito pessoal dos personagens é uma decisão acertada, que ajuda o filme a ganhar um ritmo constante e acelerado, sem os interlúdios sentimentais que se revelaram a parte mais frágil do segundo título da franquia. Soderbergh também acerta ao atirar a quantidade certa de poeira nos olhos da platéia – como um mágico profissional, ele dirige os olhares do público para detalhes que parecem importantes, mas não são, e então provoca o bem-vindo choque de surpresa quando o verdadeiro roubo é executado.

Neste caso aqui, o golpe bolado pela gangue parece intrincado, incluindo até mesmo uma falsa greve de operários no México, a simulação de um terremoto e um nariz falso para Matt Damon (o artefato, aliás, rende um dos momentos mais engraçados). Parece intrincado, mas não é. A história, na verdade, é bem simples, e a verdadeira delícia do filme consiste em acompanhar o desenrolar do plano sem grande expectativa. Soderbergh mantém o público sempre à frente dos acontecimentos, sabendo um pouquinho mais do que os personagens – só um pouquinho – e conduz o filme com segurança ao final que todo mundo deseja, tudo entremeado com aquela trilha sonora chique que mistura funk e jazz dos anos 1970 e arremata o clima cool com qualidade e finesse. É diversão com cérebro, como todo bom filme de aventura deveria ser.

O DVD da Warner traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem dois featurettes (um deles sobre Las Vegas) e uma galeria de cenas cortadas.

– Treze Homens e um Novo Segredo (Ocean’s Thirteen, EUA, 2007)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Al Pacino, Ellen Barkin
Duração: 122 minutos

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