Tróia

01/01/2005 | Categoria: Críticas

Visual espetacular e razoável fidelidade à história original de Homero marcam superprodução de Wolfgang Petersen

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Cavalo de Tróia, calcanhar de Aquiles. Essas são apenas duas expressões de uso popular que remontam a uma lenda grega de três mil anos. Todo mundo sabe onde fica o tendão de Aquiles, mas quantas pessoas podem dizer quem diabos era esse sujeito que emprestou o nome a uma parte tão pouco nobre do corpo humano? A resposta está em “Tróia” (Troy, EUA, 2004), a superprodução de 200 milhões de dólares que narra, de maneira visualmente espetacular, a maior guerra da Antiguidade.

“Tróia” é um produto típico de Hollywood, reunindo todos os ingredientes que um superfilme necessita para encher as filas de cinemas: efeitos especiais de ponta, lindas paisagens, astros de primeira grandeza mesclados com atores tarimbados. Tem também um enredo épico, que condensa ação e romance em doses cavalares. “Tróia”, que é dirigido pelo competente cineasta alemão Wolfgang Petersen (“O Barco”), é um filme muito ambicioso e construído em uma escala monumental. E cumpre, em parte, tudo aquilo que promete, oferecendo entretenimento e até uma aula básica de mitologia.

Não é errado afirmar que “Tróia” parece uma mistura dos premiados “O Senhor dos Anéis” e “Gladiador”. Do primeiro, o longa-metragem herda a elaboração dos movimentos de câmera, especialmente nas longas seqüências de batalha. Petersen aprendeu bem a lição de Peter Jackson e usa o computador para mostrar imagens de tirar o fôlego, como o impressionante oceano coberto de navios; se o filme fosse uma exposição de paisagens estáticas, resultaria insuperável, tantas as imagens bonitas que compõe.

As batalhas são sempre precedidas por tomadas aéreas em que a câmera voa como um pássaro por sobre os exércitos, assume uma ou duas vezes a perspectiva subjetiva de uma flecha e então corta para planos do meio da batalha. Na hora do corpo-a-corpo, a edição é acelerada, de modo que as imagens nunca ficam na tela por mais de dois segundos sem um corte.

Do épico de Ridley Scott, “Tróia” retira a concepção estética visual e sonora. Isso inclui os figurinos de couro, os tons dourados e avermelhados da bela fotografia de Roger Pratt e o uso insistente dos corpos bronzeados de Brad Pitt e Eric Bana (sim, eles vão provocar os suspiros de sempre nas meninas) em closes insinuantes.

A trilha sonora de James Horner não tem vergonha de recuperar as melodias orientais, cantadas com vozes femininas, que Hans Zimmer usou para construir a sensação de nostalgia de “Gladiador”. Ou seja, “Tróia” é um filme muito bem executado, mas que apenas recicla idéias de filmes anteriores.

Uma boa surpresa é a relativa fidelidade que o roteiro de David Benioff mantém, com relação aos relatos de Homero e Enéias, os escritores gregos da Antiguidade que registraram a guerra entre Tróia e Esparta. O filme começa num ponto em que a briga já dura muitos anos, mas os dois lados estão prestes a assinar um acordo de paz.

O tratado é destruído por Páris (Orlando Bloom), que não resiste aos encantos da bela Helena (Diane Kruger) e rouba a rainha grega, esposa de Menelau (Brendan Gleeeson). Agamenon (Brian Cox), chefe dos reis gregos e irmão do corneado, parte para a vingança. Em retaliação, os gregos invadem a ilha de Tróia e retomam a guerra com fúria redobrada.

Os protagonistas dessa guerra, contudo, não são os soberanos, mas os generais dos respectivos exércitos. Heitor (Eric Bana, o protagonista de “Hulk”) e Aquiles (Brad Pitt, que dispensa apresentações) são, cada um a seu modo, adversários honrados.

O troiano é um homem mais sério, comprometido com a mulher e o filho recém-nascido. Ele quase nunca sorri. Deseja a paz, mas sabe manejar uma espada muito bem. Já Aquiles surge como um semideus, louro e bronzeado, de habilidades quase sobrenaturais (a primeira cena em que entra em ação é realmente sensacional). É um hedonista nato, algo que uma mulher de outro lado da batalha, Briseide (Rose Byrne), pode mudar.

O filme acerta ao retratar os dois lados da guerra sem maniqueísmos. Não se trata da clássica batalha do bem contra o mal; há homens bons e guerreiros leais dos dois lados do combate. Até mesmo os heróis têm lá seus defeitos. Pegue Aquiles, por exemplo; é justo e honrado, porém rebelde e arrogante. Existe uma exceção apenas. Talvez com a necessidade de criar uma figura mais desprezível, que cause a repulsa da platéia, o diretor Petersen constrói Agamenon como uma figura traiçoeira e asquerosa.

Mesmo cercado de cuidados, “Tróia” comete alguns pecados. O mais evidente deles é um certo descuido com a composição que cada ator dedica a seu personagem. Eric Bana oferece a melhor performance na tela, mas Brad Pitt parece pouco confortável, mais preocupado em mostrar os bíceps dourados do que em interpretar. Até o veterano Peter O’Toole, que faz o rei Príamo de Tróia, faz feio, esbugalhando os enormes olhos azuis e superinterpretando. A direção de atores definitivamente não é o forte de Wolfgang Petersen.

A falha mais grave está no terço final da projeção: o clímax insosso e pouco convincente. Petersen caprichou tanto na construção do confronto entre Heitor e Aquiles que o apressou, colocando a briga – a melhor de todas as cenas – no meio do filme, e deixando para o final uma batalha comum.

Claro que a luta de encerramento tem grandes proporções e muitos efeitos visuais, mas isso não impressiona, já que o espectador pôde acompanhar pelo menos três seqüências semelhantes durante as duas primeiras horas de filme. De qualquer forma, atenção: é nesse mesmo final que você vai entender direitinho o significado daquelas duas expressões que todo mundo fala.

– Tróia (Troy, EUA, 2004)
Direção: Wolfgang Petersen
Elenco: Brad Pitt, Eric Bana, Orlando Bloom, Brian Cox
Duração: 163 minutos

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