Tropa de Elite 2

11/02/2011 | Categoria: Críticas

Sucesso da seqüência do sucesso de 2007 merece reflexão atenta por sintetizar raivas e frustrações de parcela significativa da população brasileira

Por: Rodrigo Carreiro

[rating: 4]

Coragem. Essa é a primeira palavra que vem à mente quando “Tropa de Elite 2” (Brasil, 2010) termina, após uma seqüência amarga e assustadora, que se passa em Brasília (DF). O incrível êxito de crítica e bilheteria do longa-metragem de José Padilha – primeiro título nacional a ultrapassar os três milhões de espectadores em uma semana de exibição nos cinemas – merece uma reflexão profunda. Há alguns anos atrás, ninguém sonharia que uma superprodução estrelada por um oficial da Polícia Militar carioca seria capaz de sintetizar de forma tão intensa as raivas e frustrações de uma parcela tão significativa da população. Muito além de qualquer juízo de valor, tamanho sucesso precisa ser avaliado com carinho. Especialmente por parte da elite política, alvo maior da metralhadora verbal (a expressão é literal) de Padilha.

Como se sabe, “Tropa de Elite 2” dá seqüência ao filme de 2007, um sucesso cuja proporção não pôde ser medida em números por causa do episódio do vazamento antes que chegasse às salas de projeção. A ação, que ocorre pouco mais de uma década após os acontecimentos vistos no primeiro filme, mostra o coronel Nascimento (Wagner Moura) fazendo a transição do comando do BOPE para um cargo executivo na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Lá, liderando uma equipe de inteligência, ele precisa lidar simultaneamente com o crescimento das milícias privadas nas favelas e com o envolvimento de políticos com o crime organizado. Tudo isso enquanto enfrenta os dilemas da paternidade – sua ex-mulher (Maria Ribeiro) agora está casada com um deputado (Irandhir Santos) defensor dos direitos humanos.

Seguindo a cartilha rezada por Coppola em “O Poderoso Chefão 3” (quando o futuro de cada membro da família Corleone foi encenado de maneira lógica e correta), Padilha retorna a todos os personagens importantes do primeiro filme – também estão lá o ex-aspirante André Matias (André Ramiro), agora capitão, e o capitão Fábio (Milhem Cortaz), agora tenente-coronel – com coerência. Ele também acrescenta mais meia dúzia de figuras importantes, incluindo uma jornalista investigativa (Tainá Muller), figuras do primeiro escalão do poder estadual, novos policiais corruptos e um apresentador de programa sensacionalista de TV (André Mattos). Tanta gente causou um problema: o roteiro de “Tropa de Elite 2” precisava lidar com mais de uma dúzia de personagens importantes e várias subtramas paralelas que convergiam.

Mais uma vez, o recurso que Padilha utilizou para driblar o problema foi a narração praticamente ininterrupta do capitão Nascimento. Nesse ponto reside, talvez, o maior problema do filme, em termos de linguagem cinematográfica. O excesso de narração em off transforma o filme, por vezes, numa espécie de palestra ilustrada. Além disso, emperra a fluidez da ação (ainda que haja pelo menos três longas seqüências de tiroteio, fica sensação de obra bem mais lenta e cansativa do que o primeiro “Tropa de Elite”) e dilui a força das imagens, deixando o longa parecido com um Globo Repórter e entregando claramente a origem de José Padilha como documentarista. Com menos humor, o didatismo transparece de modo muito evidente.

Há, ainda, um segundo problema narrativo grave: o desfecho do destino do capitão Nascimento dentro da trama, que foge completamente ao tom documental perseguido por Padilha ao longo de todo o filme (como no caso do antecessor, “Tropa de Elite 2” faz referências a diversas pessoas e episódios reais). Se a intenção era fazer uma espécie de documentário simulado, objetivo reforçado pelo uso ostensivo de técnicas documentais (câmera na mão, diálogos improvisados), teria sido mais eficiente seguir essa proposta até o fim. Nesse aspecto, o epílogo do filme – que acontece logo após um impressionante e eficiente terceiro ato – seria simplesmente impossível de acontecer na vida real. Embora num melodrama isso fosse perfeitamente aceitável, não é o caso aqui.

Em que pese esses problemas menores, “Tropa de Elite 2” possui méritos inegáveis. Usa com muita eficiência a montagem alternada; a fotografia de Lula Carvalho captura com vibração as vielas apertadas das favelas cariocas e o ambiente frio e impessoal das salas dos burocratas; e o desempenho de todos os atores é uniformemente espetacular, cheio de energia e naturalidade. Além disso, tem a assombrosa capacidade de provocar uma catarse completa na audiência, atuando ao mesmo tempo como entretenimento e suscitando reflexões sobre temas sociais que raramente são discutidos com a profundidade e o desprendimento mostrados aqui. Não é pouca coisa.

– Tropa de Elite 2 (Brasil, 2010)
Direção: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, Maria Ribeiro, Milhem Cortaz
Duração: 115 minutos

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