Tropa de Elite

27/02/2008 | Categoria: Críticas

Intenso, visceral, vibrante: um belíssimo filme de ação que toca num nervo importante da identidade cultural brasileira

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Tropa de Elite” (Brasil, 2007) é o maior fenômeno de 2007. O famoso episódio da pirataria, que fez o filme chegar às ruas três meses antes da estréia oficial, o transformou numa coqueluche que não tem paralelo na história do cinema brasileiro. Estimativas tímidas falam que cinco milhões de pessoas o viram antes de estrear. E quem não viu, ouviu falar. Tamanho falatório desembocou em um outro tipo de tiroteio, travado entre críticos: seria uma obra fascista, defensora de mais violência como resposta à violência? Alheia a isso, gente de todas as camadas sociais via o filme e falava sobre ele, quase sempre de forma elogiosa. Personagens foram transformados em heróis populares. Diálogos viraram gírias regionais. Em suma, a obra de José Padilha ultrapassou expectativas e se tornou algo maior do que um simples filme. Virou fenômeno cultural.

A repercussão estrondosa tem explicação. “Tropa de Elite” cutuca simultaneamente duas feridas profundas, abertas desde sempre na auto-estima do brasileiro: a violência e a corrupção. E faz isso com discurso agressivo, disparando uma reação emocional de impacto em qualquer espectador que já se tenha visto encurralado ou intimidado por uma das duas coisas, que existem em qualquer esquina de todas as metrópoles nacionais. O filme funciona como um grande ato de catarse coletiva. Os três personagens principais são policiais honestos que lutam contra esses nossos dois grandes males do cotidiano. Lutam de peito aberto e coração ferido. A empatia não poderia ser maior. Eles são tudo aquilo que a maioria de nós, brasileiros, gostaríamos de ser e não podemos, por falta de coragem ou oportunidade. “Tropa de Elite” toca num nervo vital da nossa identidade cultural. E faz isso com um discurso de revide não-institucional que, concorde-se com ele ou não, está em sintonia com a realidade do país. A obra fala direto ao coração. Acima de qualquer consideração estética que se possa fazer sobre o longa-metragem, é preciso respeitar isso.

Pondo de lado da polêmica, chega-se às questões estéticas e narrativas. É um filme bom? Resposta: é um belíssimo filme de ação. Tem problemas? Alguns. Num primeiro momento, até parece perfeito. É intenso, visceral, explosivo. Pulsa de vida. Vibra. Tecnicamente, é um espetáculo. Casa um senso imbatível de entretenimento com olhar de repúdio – e bastante agressivo – dirigido à elite social brasileira. Está aí outro ponto de contato com o senso comum: o grande vilão de “Tropa de Elite” não é o traficante do morro mais próximo, ou o “avião” que avisa aos chefes do tráfico sobre a chegada da polícia com fogos de artifício. Os caras maus não são aqueles sujeitos violentos que vão a bailes funk segurando fuzis enormes. Os policiais de José Padilha fuzilam esses sujeitos, mas sabem que eles também são vítimas. No discurso do filme, os vilões de verdade – propositalmente não punidos no final – estão na classe média. São os estudantes que fazem festas regadas a maconha e trabalham na ONG mais próxima. Em certo momento da projeção, universitários apresentam um trabalho sobre Michel Foucault. A escolha do autor francês não foi coincidência. O roteiro de “Tropa de Elite” adapta a visão de mundo do sociólogo à realidade brasileira.

É difícil resistir à tentação de traçar um paralelo do trabalho de José Padilha com “Cidade de Deus” (2002), que também usou linguagem esperta para fazer o mesmo tipo de mosaico da violência suburbana. Há inúmeros pontos de contato entre os dois longas, a começar pela equipe: Bráulio Mantovani (roteiro), Daniel Rezende (montagem), Fátima Toledo (preparação de atores), Tulé Peak (design de produção) e Lula Carvalho (fotografia) trabalharam nos dois filmes, que dividem ainda a mesma localização geográfica: os subúrbios do Rio de Janeiro, vistos como zona de guerrilha urbana onde a criminalidade rola solta e sem controle. É possível afirmar com segurança que “Tropa de Elite” é o filme que os órfãos de “Cidade de Deus” esperavam há anos.

Também em “Tropa de Elite” a narrativa é estilhaçada, não-cronológica, pois acompanha três diferentes personagens seguindo rotas convergentes. No processo, oferece um panorama amplo da questão da criminalidade carioca. A narração em off, cheia de humor ferino (com frases que soam como slogans publicitários, como “o papa precisa do Bope, o Bope precisa de mim, e eu preciso de um substituto”), remete diretamente ao filme de Fernando Meirelles. Como se não fosse o bastante, há ainda a excelente montagem, assinada pelo mesmo Daniel Rezende que recebeu indicação ao Oscar por “Cidade de Deus”. O trabalho de edição costura as três histórias em uma narrativa dinâmica, que jamais perde o ritmo ou a intensidade feroz (a abertura musical, aliás, soa similar à de “Vamos Nessa”, de Doug Liman).

Nos momentos mais ágeis, Rezende e o fotógrafo Lula Carvalho garantem que “Tropa de Elite” esteja em sintonia com o que de mais moderno é feito nos filmes de ação norte-americanos, abusando de técnicas documentais popularizadas em Hollywood pelo inglês Paul Greengrass (“Vôo United 93”). Nas seqüências mais frenéticas, a câmera é operada manualmente e colocada estrategicamente no meio da ação, como se estivesse sendo manuseada por participantes de tiroteios, que abusam dos “chicotes” (movimentos laterais rapidíssimos e improvisados, obtidos com o fotógrafo tentando seguir a ação de qualquer jeito) e do uso intenso do zoom. A edição de som, primorosa, faz os tiros pipocarem por todos os lados e reforça esta sensação de estar no olho do furacão. Tudo isso faz o filme funcionar com eficiência.

Só há uma diferença crucial entre “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus”: o ponto de vista invertido. No filme de Meirelles, que mostrava um subúrbio fechado em si mesmo, os narradores eram traficantes que viam o quadro completo de posições levemente diferentes. Padilha até resolve melhor a questão da interpenetração de classes sociais, mostrando um namoro inter-racial de menina branca rica com jovem negro humilde, mas enfoca o problema da criminalidade com olho de policial. Os personagens do filme, que tomou dois anos da vida do diretor, foram construídos com base em conversas com uma dúzia de policiais militares, que lhe narraram casos vividos no cotidiano da corporação. Daí vem o ponto de vista, exatamente aquela que impera na PM – a política do olho por olho, da violência como única forma efetiva de combate à podridão do “sistema”, expressão adaptada do já citado Foucault.

O narrador é o capitão Nascimento (Wagner Moura), oficial de um minúsculo esquadrão da Polícia Militar do Rio, chamado Batalhão de Operações Especiais. Trata-se de uma força de 150 homens treinados em táticas de guerrilha urbana. Eles são chamados para resolver os casos de que a polícia normal não dá conta. Nascimento adora o que faz, e odeia com todas as forças tanto policiais corruptos quanto traficantes. Só que ele está há dez anos na tropa. Cansou da guerra. Tem um filho por nascer, e agora sente medo de morrer. Para poder ir viver em paz e deixar a guerra para trás, porém, precisa encontrar um substituto tão capaz quanto ele. Os candidatos mais fortes são os aspirantes a oficial Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro), dois rapazes honestos, ingênuos e recém-integrados à Polícia Militar. O filme acompanha as trajetórias dos três durante alguns meses em 1997.

Uma das maiores qualidades do longa – a performance espetacular de todo o numeroso elenco – é responsável direta pela atmosfera de urgência e intensidade da vida dentro do Bope, uma atmosfera que “Tropa de Elite” captura com absoluta perfeição. Preparados pela mesma Fátima Toledo que ensaiou à exaustão o elenco amador de “Cidade de Deus”, os atores de José Padilha oferecem um desempenho coletivamente homogêneo, e sensacional. Apontar destaques é bem difícil, porque Caio Junqueira e André Matias estão muito bem, assim como todo o núcleo burguês do filme (Fernanda Machado, Fernanda de Freitas, André Felipe). Entre os coadjuvantes, porém, se destaca o extraordinário Milhem Cortaz, responsável por grande parte do humor involuntário do filme, na pele de Fábio, um capitão corrupto cujo esquema de propina montado dentro de um quartel entra em choque com outro esquema, maior, organizado pelo comandante.

Mesmo reunindo tantos bons atores, “Tropa de Elite” pertence a Wagner Moura. Um dos maiores atores de sua geração, o baiano possui um estilo visceral e energético (vide “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado) que encaixa como uma luva no clima do filme de Padilha: urgente, violento, emocional. O talento de Moura fica evidente nas seqüências que mostram a vida familiar de Nascimento. Embora apaixonado pela esposa, ele nunca consegue relaxar, estando permanentemente perto de um colapso nervoso. Já nas ruas, onde o personagem descarrega a tensão, Moura passa com perfeição o misto de medo e excitação que o impele a agir sempre com violência extrema. A cena em que o grupo que ele lidera invade uma favela e encontra um universitário comprando maconha (“Um de nós?!? Quem matou ele foi você!”) é, desde já, um dos momentos de maior intensidade emocional do cinema brasileiro em 2007.

Adotar o ponto de vista de Nascimento, e por conseguinte dos policiais, é a grande fonte de toda a polêmica armada em torno do filme. A parte boa da polícia defende a lei do talião. Para gente como Nascimento, a luta contra o tráfico é uma guerra e deve ser tratada como tal, com “danos colaterais” indesejáveis mas inevitáveis. Este ponto de vista acabou por gerar acusações de que o filme seria fascista, “de direita”, abraçando a tese de que bandido bom é bandido morto. E aí está o primeiro senão do filme, porque o retrato simplista que Padilha desenha da classe média, infelizmente, confirma esta observação. Mesmo sem endossar diretamente a opinião de Nascimento, o diretor concorda com ela ao apresentar todos os personagens burgueses do longa-metragem, sem exceção, como rascunhos unidimensionais e sem profundidade. Eles são alienados, fracos, medrosos, vaidosos, drogados, preguiçosos. Alguns cometem crimes, outros fazem vista grossa, uns poucos são inocentes úteis. Nenhum consegue ser efetivo. O retrato social pintado pelo filme simplifica a realidade, eliminando a complexidade das relações entre classe média e periferia. É um ponto fraco.

Há, contudo, problema maior. “Tropa de Elite” busca provocar na platéia uma catarse, e alcança esse objetivo plenamente. A reação do público é emocional, vulcânica. Reage-se ao filme com o coração, não com a cabeça. A obra espelha o jeito de ser do capitão Nascimento. É acelerada, agressiva e tagarela. Pisa fundo no acelerador e não dá chance para a platéia respirar. Não abre brecha para que o espectador possa refletir sobre o que está vendo. Esta velocidade estonteante da narrativa ajuda a manter o público anestesiado, amortecido. Engole-se o discurso polêmico sem analisá-lo ou questioná-lo. Não há pausas, silêncios, tempos mortos. A narração em off fala mais do que operadora de telemarketing. Não pára nunca, invade até os diálogos.

Embora sublinhe a excelência do que se vê na tela como espetáculo cinematográfico, a técnica exuberante garante que, ao manipular temas delicados como a violência e a corrupção enraizadas, o filme vire um ato de catarse para a platéia. Em algumas cenas, é impossível não torcer pelos três protagonistas. Vibramos por eles e com eles. Por si só, esta técnica não tem nada de errado, mas ela é perigosa. Porque o ritmo vertiginoso elimina os silêncios, os momentos de pausa. É nessas horas que normalmente a gente pensa sobre o que vê. Portanto, esta opção narrativa pelo espetáculo anula a possibilidade de racionalizar o espetáculo de violência conduzido por Padilha. Não dá para refletir sobre o que se está vendo quando as palavras não cessam e a ação não pára. Fica difícil de contextualizar e reagir com o cérebro. “Tropa de Elite” é puro instinto, puro estômago. É a dimensão reflexiva que falta ao filme de José Padilha.

Depois de conquistar tantos predicados técnicos e narrativos, contudo, o filme não merece ser crucificado por causa deste problema. Ele não empata o prazer de ver um longa-metragem extremamente bem dirigido, editado e interpretado. Em que outro filme nacional, por exemplo, podemos ouvir diálogos tão reais, repletos de frases sobrepostas? Aqui os atores falam como se fala na rua, com frases mal formuladas, cortadas pela metade, gírias a dar com o pau, palavrões sem medo da censura. O resultado, sem dúvida, é um longa-metragem raro, que enfia o dedo sem cerimônia num ponto sensível da nossa identidade cultural brasileira, que propõe uma reposta dura à violência que nos oprime e, ao mesmo tempo, demonstra um senso de entretenimento imbatível. Posto de lado o problema já citado da ausência de pausas, dá para se imaginar vendo e revendo o filme sem cansar. E isso nunca é ruim.

O DVD oficial, da Universal, traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O principal extra – e maior razão para todo mundo que compra ou aluga o DVD – é um documentário de bastidores.

– Tropa de Elite (Brasil, 2007)
Direção: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Milhem Cortaz, Fernanda Machado
Duração: 118 minutos

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