Trovão Tropical

11/01/2009 | Categoria: Críticas

Ben Stiller usa a metalinguagem para sacanear sem piedade o comportamento excêntrico de estrelas e executivos de cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Associada à comédia, a metalinguagem é um truque usado há muitas décadas, em Hollywood, para tirar sarro da própria indústria cinematográfica. Desde que Billy Wilder fez isso em 1950, no clássico “Crepúsculo dos Deuses”, diretores e roteiristas reciclam a idéia em intervalos regulares. “Trovão Tropical” (Tropical Thunder, EUA/Alemanha, 2008), mais uma investida do comediante Ben Stiller na cadeira de diretor, segue essa tendência e alcança bom resultado. Sem medo de investir na linha politicamente incorreta, o cineasta sacaneia sem piedade o comportamento excêntrico de estrelas e executivos de cinema, bolando um enredo amalucado que às vezes funciona também como filme de guerra e/ou ação. O único ponto negativo é que, na tentativa de conquistar a fatia jovem do público, o roteiro mescla momentos de sátira bem feita com cansadíssimas piadas sobre flatulências e fluidos corporais, uma praga que parece não ter fim no cinema norte-americano.

Stiller teve a idéia para o longa-metragem mais de duas décadas antes de filmá-lo, enquanto observava os bastidores das filmagens do épico “Império do Sol” (1987), de Steven Spielberg, no qual desempenhou um pequeno papel. A idéia era dramatizar as aventuras vividas atrás das câmeras por um grupo de atores famosos, durante as filmagens de um drama de guerra sobre o Vietnã. O comediante teve que aguardar alguns anos, ganhar experiência na direção (ele fez “Zoolander”, entre outras comédias) e cacife dentro dos estúdios, antes de receber sinal verde para tocar o roteiro, escrito em parceria com Etan Cohen (não confundir com o vencedor do Oscar de 2008) e Justin Theroux (também ator, com créditos em alguns filmes de David Lynch, “Cidade dos Sonhos” entre eles).

O enredo envolve, claro, um filme dentro do filme, estrelado por um punhado de grandes estrelas na constelação de uma Hollywood fictícia, mas nem tanto. O líder do elenco, Tugg Speedman (Stiller), é um musculoso herói de ação que deseja se tornar respeitado como ator dramático. Ao lado dele está Kirk Lazarus (Downey Jr), australiano cinco vezes vencedor do Oscar, que passou por um procedimento cirúrgico para se tornar negro e aceitar o papel. O grupo ainda conta com o gorducho Jeff Portnoy (Jack Black), comediante de filmes B e viciado em drogas, e o cantor de rap Alpa Chino (Brandon T. Jackson). Cada um deles funciona como um amálgama de nomes verdadeiros. É fácil reconhecer, por exemplo, pitadas de Stallone, Schwarzenegger, De Niro, Hoffman, Snoopy Dogg Dog, Russell Crowe e até de alguns membros do próprio elenco, como Robert Downey Jr.

Essa turma está filmando um épico no Vietnã, com um diretor novato, e a produção está bem atrasada, o que deixa o executivo-chefe do estúdio (Tom Cruise, careca e com barrigão) furioso. No desespero, a equipe criativa decide tentar uma medida radical: solta o elenco no meio da selva e decide filmar os percalços verdadeiros enfrentados pelo grupo com câmeras escondidas, mais ou menos como em “A Bruxa de Blair”. O problema é que a região serve de esconderijo para uma quadrilha de traficantes de heroína, o que complica ainda mais a missão dos atores. Isso sem contar, claro, com as peculiares características pessoais de cada um, que tornam a convivência forçada um verdadeiro inferno (para eles), ou um paraíso de gargalhadas (para o público), dependendo do ponto de vista. Cinéfilos experientes vão notar referências visuais e musicais a títulos como “Platoon”, “Apocalypse Now” e “Forrest Gump”.

Um das grandes sacadas está no desenvolvimento inteligente dos personagens. Até mesmo os coadjuvantes menores possuem características que tiram sarro das excentricidades verdadeiras que a gente ouve falar em Hollywood (observe o personagem de Matthew McConaughey, que passa o dia pendurado ao celular, descalço, enquanto joga tênis virtual em um telão instalado no meio do escritório). Graças ao ótimo roteiro, que não tem medo de brincar com as picuinhas e ataques de verborragia e estrelismo, freqüentemente vistos no meio cinematográfico, “Trovão Tropical” alcança um resultado cômico bem acima da média. As cenas com Tom Cruise, sempre hilariantes, estão entre as melhores coisas que o mega-astro já fez em toda a carreira.

Provavelmente por causa da boa galeria de personagens, Stiller foi capaz de reunir um elenco grande e famoso. Ele próprio confirma o talento cômico com uma ótima atuação, incluindo um “filme dentro do filme dentro do filme”, em que interpreta um retardado – a teoria de Lazarus sobre os Oscars freqüentemente dados a atores que interpretam deficientes mentais é definitivamente o melhor momento cômico de 2008. Aliás, Robert Downey Jr. merece infinitos elogios pela estupenda atuação no papel do “negro artificial”, assumindo o sotaque e a maneira de falar de um autêntico afro-americano (sem falar que o nome do personagem dele já faz uma piada inteligente com a carreira recém-ressuscitada do ator). Uma pena que o talento de Jack Black esteja desperdiçado, já que são dele as piadinhas nojentas mais derivativas e sem graça do filme. Um problema que não chega a empatar o brilho de uma das comédias mais interessantes da temporada.

O DVD nacional é um lançamento da Paramount. O filme aparece com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem documentários que esmiúçam os bastidores e um comentário em áudio reunindo Stiller, Downey Jr e Jack Black.

– Trovão Tropical (Tropical Thunder, EUA/Alemanha, 2008)
Direção: Ben Stiller
Elenco: Ben Stiller, Robert Downey Jr., Jack Black, Tom Cruise
Duração: 107 minutos

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