Tubarão (1969)

30/01/2006 | Categoria: Críticas

Filme irregular dirigido (em parte) por Samuel Fuller é um noir queimado de sol

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

– Eu me apaixonei por ele, mas não fisicamente.
– Quer dizer que ele nunca toca em você?
– Nunca!
– “Ali Babá e os 40 Ladrões” também é uma boa história!

O diálogo acima é travado entre Caine (Burt Reynolds) e Anna (Silvia Pinal), dois vigaristas que disputam um tesouro escondido dentro de um barco naufragado na costa do Sudão, no norte da África. Por ocasião da conversa, um está tentando seduzir o outro. Caine, um contrabandista, precisa de trabalho. Ele quer conseguir dinheiro para retomar os negócio e acha que a mulher pode lhe ajudar. Já Anna tem um trabalho, e deseja uma pessoa com conhecimentos mecânicos para que possa ajudar, sem ter conhecimento, na operação de resgate do tesouro. Os interesses são convergentes, mas eles não sabem disso, e travam essa conversa cheia de cinismo e duplos sentidos, que remete aos saudosos tempos do cinema noir (anos 194/50).

O humor afiado do roteiro escrito pelo cineasta Samuel Fuller não é o único atrativo nesse filme irregular, uma co-produção de baixo orçamento entre EUA e México. O bom elenco e as locações exóticas são, de fato, os fatores que levaram o mítico Fuller a topar o projeto desta fábula cínica sobre ganância, prima pobre de “O Tesouro de Sierra Madre”, feito John Huston. O problema de “Tubarão” (Shark!, EUA/México, 1969), um longa-metragem onde nada é o que parece ser, é que Fuller largou o trabalho na metade.

Durante as filmagens das cenas submarinas, um dublê que mexia com um tubarão sedado foi atacado e morreu, o que levou os produtores a decidirem aproveitar o episódio para vender a obra, com o slogan “Um filme realista que virou real demais”. O título original, que seria “Caine” (nome do protagonista, que em português significa “Caim”, título perfeitamente condizente com a personalidade do homem e com o senso de humor ácido do longa-metragem), foi alterado em função desse marketing pavoroso. Isso enfureceu Fuller, e ele saiu do projeto.

Apesar disso, o diretor não conseguiu retirar seu nome dos créditos, embora tenha renegado a obra até morrer. A confusão, porém, acabou enterrando a carreira comercial de “Tubarão”, que teve diversas montagens remexidas pelo estúdio. Os negativos originais desapareceram com o passar dos anos, e o filme parecia perdido. No fim dos anos 1990, porém, a produtora Troma (especializada em filmes B) encontrou uma cópia, comprou os direitos e lançou em DVD. É essa a base da versão que chega ao Brasil pelas mãos da Aurora DVD.

“Tubarão” não é um grande filme, por várias razões, mas está longe de ser ruim e, mais importante ainda, possui as impressões digitais de Fuller, principalmente na trama, que encandeia várias reviravoltas com firmeza e agilidade. Em resumo, a história mostra a disputa de três vigaristas – os já citados Caine e Anna, mais o professor Mallare (Barry Sullivan), que vive com a moça – pelo tesouro naufragado numa área infestada de tubarões. O filme é narrado do ponto de vista de Caine, que na seqüência de abertura sofre um acidente de carro e perde todos os seus bens.

Ele não sabe nada sobre o tesouro, mas desconfia que seus empregadores estão escondendo algo, pois possui um instinto infalível (“nunca tente enganar um vigarista!”) para farejar dinheiro ilegal. Ele percebe que há algo de errado nos mergulhos que o professor realiza, supostamente pesquisando uma bancada de corais. Caine, interpretado com ar de enfado e um sorriso cínico permanente por um Burt Reynolds jovem, faz parte de uma longa lista de canalhas sedutores do cinema. Em certa medida, ele é herdeiro do humor sarcástico e duro dos filmes noir, fonte em que o roteiro de Fuller bebe sem cerimônia.

Especializado em subverter as convenções do gênero, algo que já havia feito na obra-prima “O Beijo Amargo”, Samuel Fuller certamente repetiria a estratégia e faria um noir queimado de sol durante as filmagens no México, caso tivesse seguido no projeto até o final. O resultado, porém, é irregular. As cenas submarinas são bem feitas, e toda a primeira parte (filmada no Sudão) é satisfatória, mas a partir da metade a fotografia se torna equivocada, com iluminação estourada que escurece as silhuetas dos protagonistas e não permite que o espectador veja os rostos dos personagens nem mesmo quando eles conversam na praia, de dia, ao ar livre. Um pecado imperdoável.

Esse defeito é amplificado pelo estado lastimável da cópia do DVD, com cores gastas e muitos arranhões. O disco lançado pela Aurora DVD tem imagem no formato 1.33:1 e som, também de péssima qualidade (observe como, na seqüência submarina abertura, praticamente não existem ruídos) em Dolby Digital 2.0. Não há extras.

– Tubarão (Shark!, EUA/México, 1969)
Direção: Samuel Fuller
Elenco: Burt Reynolds, Silvia Pinal, Barry Sullivan, Arthur Kennedy
Duração: 92 minutos

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