Tubarão

15/08/2007 | Categoria: Críticas

Primeiro grande trabalho de Steven Spielberg é exemplo de suspense com narrativa eletrizante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Depois de ser exibido algumas dezenas de vezes naquelas sonolentas sessões de reprise para insones, nas madrugadas, ele perdeu muito do ineditismo. Há até quem o confunda com uma das ridículas seqüências que foram feitas depois. Pouca gente sabe que ele é o responsável direto pela Hollywood que conhecemos hoje, para o bem e para o mal. “Tubarão” (Jaws, EUA, 1975), o primeiro grande clássico de Steven Spielberg, inaugurou o conceito do blockbuster: filmes para platéias jovens, com ritmo narrativo veloz, equilibrando suspense e humor e apostando alto no marketing e nos efeitos especiais.

Em 1976, Spielberg era apenas um diretor promissor, com dois filmes legais no currículo e faminto por uma produção maior. Quando recebeu o roteiro de “Tubarão”, no entanto, ele pensou em recusar o convite. “Fiquei pensando que era um filme sobre dentistas”, diz, fazendo referência ao título original, que significa “Mandíbulas”.

As filmagens foram de arrancar os cabelos. Com o prazo curto, o diretor teve que ir mudando o roteiro à medida que filmava e se deparava com problemas técnicos. Muitas das cenas previstas no roteiro original tiveram que ser riscadas do filme porque o tubarão mecânico feito para as filmagens (apelidado de Bruce) apresentava defeitos o tempo inteiro. Outras inovações da produção incluem a edição do filme, feita num galpão localizado nos fundos da casa da montadora Verna Fields. Ela foi a primeira montadora a acompanhar as filmagens nas locações (depois isso virou hábito em Hollywood).

Fields tornou-se crucial para o trabalho por causa de uma cena memorável. Após a primeira exibição-teste, em Boston (EUA), Spielberg decidiu incluir uma seqüência, na qual o personagem de Richard Dreyfuss, mergulhando no mar, descobre um cadáver dentro de um barco naufragado. O problema é que essa cena não havia sido filmada e as locações não existiam mais. Dreyfuss foi chamado e Spielberg filmou a seqüência dentro da piscina da casa de Verna – o tipo de coisa amadorística que literalmente seria impossível de realizar hoje.

Todo esse improviso acabou sendo benéfico para o longa-metragem, cuja montagem valoriza demais as cenas subjetivas, filmadas embaixo da água e com o ponto de vista do tubarão. Nele, Spielberg trata pela primeira vez daquele que seria o tema mais recorrente de sua obra: uma família em crise. Para isso, Spielberg focaliza o filme na maneira como o animal (que só é visto por inteiro quase 1h30 depois de iniciado o longa) interfere no cotidiano do chefe de polícia de uma pequena cidade da Flórida, Martin Brody (Roy Scheider).

O aparecimento do bichão é o estopim de uma desarmonia que pode ser desastrosa para o núcleo familiar dos Brody. Trata-se de uma estratégia brilhante de Spielberg, que dessa maneira consegue fazer o espectador se identificar com os medos de um personagem. Ao fechar o foco do filme em Martin Brody, o cineasta faz com que a platéia tenha alguém com quem se identificar. O cineasta sabia que, se fizesse um filme com um protagonista cujos problemas fossem coletivos, e não individuais, a platéia não seria atingida da mesma maneira.

Além disso, Spielberg utiliza com criatividade um velho recurso tornado popular por Alfred Hitchcock, que gostava de gerar suspense fazendo a platéia saber mais do que os protagonistas. Assim, a única seqüência do filme em que Brody não aparece é justamente a inicial, que flagra o primeiro – e mais memorável – ataque do tubarão, a uma garota que toma banho de mar nua, ao nascer do sol. Além da carga sexual implícita, a cena tem o objetivo de colocar o espectador a par da ameaça do tubarão, enquanto toda a cidade parece meio biruta porque não consegue compreender a situação com clareza.

Depois que “Tubarão” ficou pronto, nem todo mundo o achou bom. O estúdio Universal, por exemplo, amarelou. Até então, os grandes lançamentos eram feitos sempre em dezembro. Mas ninguém na Universal achava que “Tubarão” era um grande filme. A nova data passou a ser 20 de julho de 1975. Aí Spielberg apareceu com outra idéia de gênio: aumentar o orçamento do marketing, para despertar o interesse dos estudantes, então de férias – os jovens, na época, estavam mais ligados à TV e quase não iam ao cinema.

O resto é história: “Tubarão” tornou-se o filme mais visto na história do cinema, com 62 milhões de espectadores. A partir daquela experiência, os grandes estúdios passaram a repetir a fórmula: apostar em filmes para jovens, cheios de efeitos especiais e com muitos sustos; guardar os maiores lançamentos para o período de férias escolares nos EUA (entre junho e agosto); e investir pesado em marketing.

Como acontece com os grandes filmes, “Tubarão” ganhou com o tempo. Apesar da fórmula que inaugurou ter sido repetida à exaustão, e na maioria das vezes com resultados bem inferiores, o filme ainda assusta – e faz isso na melhor tradição da escola de Hitchcock. O diretor inglês é referência obrigatória na direção segura de Spielberg. A trilha sonora de John Williams tornou-se uma assinatura para o filme, e a música que sublinha os ataques do animal (duas simples notas, que vão ficando ganhando velocidade e volume à medida em que o bicho se aproxima da futura vítima) tornou-se quase tão famosa quanto o tema do assassinato no chuveiro de “Psicose”, em que foi claramente inspirada.

Spielberg gostou tanto nunca mais deixou de trabalhar com Williams. Com razão. A música anuncia ao espectador a proximidade do tubarão. A melodia familiar sofre variações de altura e velocidade, sempre com o objetivo de comunicar algo que nenhuma tomada visual poderia fazer de forma tão intensa: informar a distância do tubarão para a próxima vítima. É a música que guia as emoções do espectador.

Existem duas versões do filme em DVD nacional. A primeira é a edição especial do 25º Aniversário. Ela tem um disco e contém menos extras. O principal é um documentário de 1995, excelente (50 minutos), com entrevistas de todos os envolvidos, incluindo diretor, produtores, roteiristas, fotógrafo, editor e o elenco completo (à exceção de Robert Shaw, já falecido). Eles contam uma série de histórias curiosas a respeito da produção.

Há onze minutos de cenas inéditas, alguns (na verdade, só dois) erros de gravação e uma galeria de 720 imagens, com fotos da produção e os storyboards completos. No computador, em DVD-Rom, ainda dá para acessar um jogo. Os extras têm legendas em inglês (versão do DVD da Columbia) e em português (tiragem impressa pela Universal).

A edição comemorativa do 30º Aniversário (Universal) traz a versão integral do documentário de 1995 (123 minutos), mais cenas inéditas (17 minutos), os mesmos erros de gravação, mais um featurette (9 minutos) feito em 1974, e as mesmas galerias de fotos e storyboards da edição anterior. Há ainda uma faixa de áudio no formato DTS 5.1, mais forte e cristalina. As duas versões têm eexatamente a mesma transferência de imagem (widescreen).

– Tubarão (Jaws, EUA, 1975)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Roy Scheider, Richard Dreyfuss, Robert Shaw
Duração: 120 minutos

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