Tudo Acontece em Elizabethtown

22/03/2006 | Categoria: Críticas

Filme irregular de Cameron Crowe serve como seqüência de videoclipes das canções de que ele mais gosta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O melhor momento de “Tudo Acontece em Elizabethtown” (Elizabethtown, EUA, 2005), sexto filme dirigido por Cameron Crowe, ocorre quando o protagonista deixa a pequena cidadezinha nos cafundós do Kentucky (EUA), lugar que empresta o nome ao filme. Drew embarca em uma viagem de carro com duração de dois dias, de volta ao lar, no Oregon, munido de um super-mapa montado pela garota com quem estava saindo. O mapa inclui indicações precisas sobre o roteiro da viagem, incluindo os lugares onde precisa parar e que música deve ouvir em cada minuto das 42 horas ao volante. Todo o resto do filme parece ter sido construído para justificar essa cena, que encerra um longa-metragem sem foco, apesar de bons momentos ocasionais.

A história de Cameron Crowe é bem diferente do normal, e já foi tema do filme mais pessoal dele, “Quase Famosos”, de 2000. Apaixonado por bandas de rock’n’roll, o rapaz começou a carreira como crítico, aos 16 anos, na revista Rolling Stone. Aos poucos foi migrando para o cinema e se especializando em escrever roteiros extremamente musicais, tendo como tema o fracasso. “Elizabethtown” guarda essas duas características, mas é um filme de excessos. Crowe é tão apaixonado por música (leia-se bandas folk e country-rock) que escreveu um filme, aparentemente, para servir como uma seqüência gigante de videoclipes das canções que mais gosta. O resultado é bem decepcionante.

De certo modo, é possível dizer que “Elizabethtown” mistura os dois filmes mais bem sucedidos comercialmente do diretor: “Jerry Maguire” (o protagonista é um homem ambicioso que fracassa e redescobre o prazer das coisas simples da vida) e “Quase Famosos” (música praticamente ininterrupta durante o filme todo). Até aí não há problema; a bronca aparece mesmo porque Crowe parece não ter tido um produtor que mantivesse os pés dele firmes no chão. Alguém deveria tê-lo alertado de que o filme estava virando um musical involuntário. Há tantas canções em “Elizabethtown” que praticamente nenhum diálogo dura mais do que 30 segundos, sendo rapidamente interrompido por mais uma música. Dessa forma, “Elizabethtown” carece de ritmo, fica frouxo, não se sustenta.

O mais curioso de tudo é que Drew (Orlando Bloom, apático), o protagonista, nem é muito ligado em música. O rapaz é um designer de sapatos que passou oito anos da vida dedicando 100% do tempo à construção do tênis perfeito. Quando o filme começa, ele está chegando à empresa onde trabalha com a certeza de que vai ser demitido. O tão sonhado projeto resultou em um fracasso estrondoso de US$ 1 bilhão. Ele até já pensa em suicídio, mas é obrigado a interromper os planos mortais com a chegada da notícia de que o pai acaba de morrer na cidade natal, a já citada Elizabethtown, lugarzinho minúsculo de gente caipira. Drew é encarregado de ir buscar o corpo.

No caminho, ele conhece a aeromoça Claire (Kirsten Dunst), uma garota esquisita que mistura simpatia e histeria em doses iguais. Ela o vai ajudar na jornada de auto-descobrimento que se segue. Basicamente, “Elizabethtown” é um filme que atira para muitos lados e, sem foco, acaba não acertando nenhum em cheio. O filme tenta narrar o processo de absorção do fracasso monumental do personagem, que ao mesmo precisa aprender a conhecer melhor o próprio pai, de quem andou afastado durante muitos anos, talvez por excesso de dedicação ao trabalho.

Tudo isso é narrado com uma excesso flagrante de cenas de transição (Drew dirigindo sozinho, Drew caminhando sozinho, Drew olhando o pai no caixão, Drew rolando na cama com insônia, Drew vendo o sol nascer). Uma lição básica de cinema é que esse tipo de cena tem um propósito único e muito firme: mostrar à platéia que o tempo está passando. Simples assim. Para Cameron Crowe, no entanto, esses momentos são mais do que isso. Muito mais. São oportunidades para enfiar mais e mais canções favoritas na trilha sonora, e criar videoclipes.

A estratégia não funciona de jeito nenhum. A coisa toda é tão mal ajambrada que o cineasta sequer se deu ao trabalho de dar a Drew um tocador de MP3 ou walkman. Um objeto tão simples como esse poderia criar empatia entre platéia e personagem, porque saberíamos que ele, na tela, está escutando as mesmas músicas que nós, do lado de cá – e talvez sentindo as mesmas emoções. Nem isso. Drew, compreensivelmente, é um homem anestesiado, que não consegue pensar com clareza, o que é natural diante da situação que vive. O problema é que o filme também não tem clareza.

Em Elizabethtown, a cidade, a coisa vai de mal a pior, quando o próprio cineasta começa a parecer tão perdido quanto o personagem. O filme ameaça enveredar em inúmeras subtramas (o parente distante que deu um trambique, mas amava o pai de Drew, o casamento que rola no hotel em que ele está hospedado), mas fica na ameaça. “Elizabethtown” falha até mesmo quando exibe duas histórias de pai e filho, dentro da família de Drew, que supostamente deveriam abordar o tema principal do filme: a importância de uma relação forte entre as duas gerações, calcadas em compreensão e respeito mútuo.

O protagonista tem um primo roqueiro (Jessie Schneider) que se ressente da perpétua reprovação do pai quanto ao seu estilo de vida, e tenta descontar isso criando o filho pequeno como uma espécie de parceiro mirim de farras, o que deixa o pirralho descontrolado. A historinha familiar é claramente uma tentativa de Crowe de criar um espelho para a vida do protagonista, mas a falta de diálogos sólidos entre os personagens deixa tudo no ar. As idéias são apresentadas, estão lá, mas não possuem desenvolvimento satisfatório e nem conclusão. São frouxas, mal amarradas.

Aí, retornamos à seqüência final. Supostamente, ela deveria representar o momento em que Drew “renasce” das cinzas. Curiosamente há uma forte imagem anterior de um pássaro em chamas – uma fênix, talvez? – ao som de “Free Bird”, da banda-ícone de Crowe, Lynyrd Skynyrd, mas eu poderia apostar que a relação entre as duas cenas não era a intenção de Cameron Crowe. É o momento em que o filme finalmente engrena, infelizmente tarde demais. Fica a esperança de que o cineasta faça um road movie da próxima vez, pois esse gênero admite uma quantidade maior de canções na trilha e comporta melhor o estilo de Crowe.

O DVD é da Paramount. A qualidade técnica é excelente (imagem em wide 1.85:1 anamórfico, som em Dolby Digital 5.1). Os extras incluem galeria com cenas cortadas, estes dos atores e um featurette de bastidores.

– Tudo Acontece em Elizabethtown (Elizabethtown, EUA, 2005)
Direção: Cameron Crowe
Elenco: Orlando Bloom, Kirsten Dunst, Susan Sarandon, Jessie Schneider
Duração 123 minutos

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