Tudo em Família

15/05/2006 | Categoria: Críticas

Comédia natalina de costumes ressalta valores familiares com trama previsível, mas agradável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Uma verdadeira instituição do cinema norte-americano é a comédia de inverno, ambientada e lançada nos cinemas durante as festas de final de ano. “Tudo em Família” (The Family Stone, EUA, 2005) segue essa tradição à risca, o que faz do filme um programa perfeito para que os americanos compareçam com as respectivas famílias ao cinema, antes do Natal. O problema é que esse tipo de filme tem pouca ressonância nas culturas dos outros países. Curioso é notar que mesmo em lugares católicos como o Brasil, em que os festejos de dezembro costumam ter a obrigatória reunião de família mostrada no filme, o gênero não costuma chamar a atenção.

O segundo trabalho do diretor Thomas Bezucha resgata a tradição de filmes como “A Felicidade Não se Compra”, de Frank Capra, só que a atualizando com um argumento já testado com sucesso em uma linhagem de comédias atuais: a série “Entrando Numa Fria”. A situação básica de “Tudo em Família” é exatamente igual à dos dois filmes com Ben Stiller e Robert De Niro: o filho querido de uma família feliz leva ao lar a namorada, a quem pretende pedir em casamento, e a candidata a membro da família não se dá bem com ninguém. A diferença entre os dois projetos está no tom; enquanto o diretor Jay Roach fez sátiras escrachadas, Bezucha optou por balancear drama e comédia com alguma sensibilidade. O resultado é previsível, mas agradável.

A família Stone é um grupo de pessoas liberais e afetuosas, que gostam de falar alto, contar piadas e se abraçar. A reunião natalina inclui mãe (Diane Keaton) e pai (Craig T. Nelson), claro, e seis irmãos. O mais velho, Everett (Dermot Mulroney), leva a namorada para o grupo conhecer. Ele deseja pedi-la em casamento no dia de Natal. Só que Meredith (Sarah Jessica Parker) é uma pessoa travada, conservadora, que prefere um formal aperto de mão a um abraço caloroso. Por isso, bate de frente com os Stone. A antipatia da família faz com que ela traga para os festejos, como apoio, a irmã mais nova (Claire Danes). O enredo inclui algumas subtramas desenvolvidas rapidamente, como a doença da matriarca da família e a vontade que o irmão surdo (Tyrone Giordano) tem de adotar um bebê.

No início, incomoda um pouco o uso abundante de clichês no desenvolvimento dos personagens, com uma preocupação politicamente correta que chega a irritar – o casal gay formado por um branco deficiente físico e um negro é um dos exemplos mais bem acabados de hipocrisia cinematográfica. Surpreendentemente, após uma abertura trivial e pouco inspirada, na qual cada um dos filhos vai chegando à casa dos Stone e sendo apresentado ao espectador, “Tudo em Família” finalmente engrena, especialmente após a cena do jantar de Natal, momento obrigatório desse tipo de filme que, aqui, ganhou uma versão mais dramática do que se poderia esperar.

Não há nenhuma ousadia no longa-metragem. O elenco, por exemplo, é bastante conhecido e também muito bom, mas segue à risca a regra de escalar os atores associando, em cada caso, a persona mais conhecida do público com a personalidade do personagem. Assim, Dermot Mulroney é o rapaz sério que deseja casar logo, Rachel McAdams é uma maluquinha, Diane Keaton faz uma mulher liberal de meia-idade (vestindo um figurino provavelmente retirado do próprio guarda-roupa da atriz) e Luke Wilson faz um rapaz avoado. A única exceção à regra é Jessica Parker, para quem serviu a inversão da regra. Meredith, sua personagem, é o oposto direto da Carrie da série “Sexo e a Cidade”. Cabelo preso num coque e ar permanente de tensão no rosto, ela é o elo mais forte do elenco.

É interessante notar que “Tudo em Família” provavelmente não vai agradar ao público celebrado pelos seus personagens. Se a família Stone fosse ao cinema conferir o longa-metragem de Thomas Bezucha, provavelmente sairia da sessão reclamando do excesso de conservadorismo e previsibilidade do enredo. Este é o tipo de produção tocada por um estúdio, milimetricamente calculada para atingir um certo tipo de público. E atinge esse objetivo com perfeição, desde que você seja um integrante desse público. Vale a regra: se comédias românticas com toques dramáticos, como os filmes de Nora Ephron, lhe agradam, pode assistir ao filme sem medo.

O lançamento em DVD é da LK-Tel. O disco simples traz o filme com cortes laterais na imagem (4:3, ou tela cheia) e som apenas razoável (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– Tudo em Família (The Family Stone, EUA, 2005)
Direção: Thomas Bezucha
Elenco: Sarah Jessica Parker, Claire Danes, Dermot Mulroney, Diane Keaton
Duração: 103 minutos

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