Tudo Pode Dar Certo

17/10/2010 | Categoria: Críticas

Retorno de Woody Allen a Nova York recicla velho roteiro dos anos 1970, lembra demais clássicos como “Manhattan”, mas mantém o senso de humor afiado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O título do 42º longa-metragem de Woody Allen é pinçado da última frase pronunciada pelo protagonista, no final dos 92 minutos de projeção, mas poderia perfeitamente se referir ao projeto como um todo. Afinal, a decisão de realizar “Tudo Pode Dar Certo” (Whatever Works, EUA, 2009) não teve nada de criativa. Allen simplesmente resgatou um roteiro da época em que ainda era um iniciante e transformou-o em filme às pressas, a fim de evitar que a produção fosse paralisada por uma greve de atores. O resultado irregular e meio improvisado aparece claramente no filme, ainda assim divertido e tão mais engraçado quanto menor for o conhecimento prévio, por parte do espectador, da obra anterior de Allen.

“Tudo Pode Dar Certo” nasceu quase de supetão. Em 2007, enquanto escrevia o roteiro de seu próximo filme, Allen foi surpreendido com uma séria ameaça de greve em Hollywood. Temendo não conseguir finalizar o trabalho a tempo, Allen tomou uma decisão drástica. Resgatou um antigo roteiro, escrito no começo dos anos 1970 e arquivado após a morte do comediante Zero Mostel, em 1977 – o texto havia escrito especificamente com ele em mente – e filmou às pressas, em seu tradicional estilo de longas tomadas sem cortes.

Um conhecedor mediano da obra de Allen vai reconhecer generosos elementos da trama em grandes clássicos do diretor, em particular “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977) e “Manhattan” (1979). Considerando as datas desses dois filmes, fica fácil reconstituir o que ocorreu: Allen reaproveitou partes daquele roteiro abandonado nesses dois projetos, como o hábito de falar diretamente ao espectador e o estilo de filmar longas conversas em caminhadas, do primeiro. De fato, a trama de “Manhattan” é quase idêntica à de “Tudo Pode Dar Certo”, narrando a paixão de um homem mais velho – um intelectual nova-iorquino que se acha superior à maioria dos mortais – por uma garota linda, ingênua, meio burrinha e bem mais jovem do que ele.

Considerando o quase-plágio, ainda assim “Tudo Pode Dar Certo” merece uma boa conferida, sobretudo graças ao terceiro ato inesperado do filme, ao senso de humor afiado que gera ótimas piadas inseridas em diálogos longos e cortantes, e à fotografia fluida das locações nova-iorquinas tradicionais (como a banquinha de frutas tradicional da cidade). O elenco também é desigual; se Evan Rachel Wood banca a tonta de maneira convincente e Patricia Clarkson está ótima na pele da mãe dela, que entra em cena no segundo ato e faz o filme melhorar consideravelmente, Larry David faz um velho rabugento que pouco tem do charme inseguro que Allen sempre soube imprimir a seus protagonistas, dando-lhe um ar de fragilidade que ajudava a platéia a sentir pena dele – e isso, por sua vez, é que gerava a empatia. Aos trancos e barrancos, “Tudo Pode Dar Certo” chega lá. Ou quase.

O DVD nacional mantém aspectos de imagem (wide anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1) corretos.

– Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, EUA, 2009)
Direção: Woody Allen
Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Henry Cavill
Duração: 92 minutos

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