Tudo por Dinheiro

05/09/2006 | Categoria: Críticas

Perfil interessante de um homem compulsivo é a melhor coisa do filme prervisível de D.J. Caruso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O tempo é implacável para todo mundo, mas em Hollywood essa máxima fica ainda mais evidente. Como desfilam em frente às câmeras o tempo todo, os grandes astros do cinema jamais passam despercebidos pelo inevitável processo de envelhecimento da espécie humana. Esse processo pode ser acompanhado não apenas nas rugas e plásticas, mas também no trabalho dos atores, que costumam se acomodar e ficar repetitivos à medida que ficam mais velhos. É o caso de Al Pacino, que desde o princípio dos anos 1990 vem se especializando em tipos paternais, homens verborrágicos e energéticos, a um passo do histrionismo. No drama “Tudo por Dinheiro” (Two for the Money, EUA, 2005), Pacino repete o papel de sempre, em um filme convencional.

De fato, o papel do consultor esportivo Walter Abrams parece ter sido construído como um amálgama de outros dois personagens anteriores do ator ítalo-americano. Abrams tem a lábia convincente do sinistro John Milton, de “O Advogado do Diabo” (1997), e a paixão por futebol americano do Tony D’Amato de “Um Domingo Qualquer” (1999). Nos dois longas-metragens, o papel de Al Pacino é o mesmo: servir como mentor de um aprendiz, formar um pupilo promissor. Essa qualidade paternal se repete em “Tudo por Dinheiro”. A única diferença é o cenário da ação; ao invés dos tribunais do primeiro e dos estádios do segundo, o pano de fundo aqui é o bilionário mundo das apostas esportivas.

O personagem principal e narrador do longa-metragem chama-se Brandon Lang (Matthew McConaughey). O rapaz é um fanático por futebol americano que tem uma carreira promissora na liga universitária, mas sofre um sério acidente que o torna incapaz de exercer o esporte profissionalmente. Para não se afastar do ramo, Lang encara um emprego sem graça como analista de apostas de um pequeno serviço de orientação a apostadores. A função consiste em avaliar as chances de vitória nos confrontos de futebol americano e, assim, mostrar aos apostadores como investir de forma segura no mundo complexo da agiotagem esportiva.

Não demora muito para que o veterano Walter Abrams descubra que Brandon Lang possui duas qualidades que não costumam andar juntas: uma habilidade quase mediúnica para prever resultados de jogos, e uma combinação perfeita de simpatia e charme, que o ajuda a seduzir os apostadores. Abrams vê o novato como um sucessor em potencial. Dessa forma, Lang ganha rapidamente uma proposta salarial elevada e a chance de ir para Nova York, trabalhar num programa de TV de orientação a apostadores. Pronto, está armado o cenário para um previsível drama de redenção que celebra a essência do “american way of life”: a possibilidade de que um Zé Ninguém qualquer possa virar milionário em pouco tempo.

O roteiro de “Tudo por Dinheiro”, escrito por Dan Gilroy, é um ponto fraco do filme, pois soa extremamente previsível, como se confeccionado a partir de um manual. Estão lá, de modo claríssimo, todos os arquétipos fundamentais do cinema: o herói/aprendiz, a figura paterna/professor, o ajudante do herói (Rene Russo, sempre charmosa, no papel da esposa de Pacino), o vilão (Jeremy Piven, que interpreta o rival de Brandon na empresa). Também a jornada pessoal do candidato a consultor é repleta de chavões, e a direção burocrática de Caruso apenas ajuda a sublinhá-los, telegrafando certas cenas com antecedência exagerada.

Um bom exemplo deste excesso de clichês está, por exemplo, na seqüência em que Walter e Brandon, jantando juntos (“nunca havia bebido uma garrafa de água de doze dólares”, é a senha que mostra o quanto Brandon está subindo na vida, como se fosse realmente necessário que uma frase destas fosse dita), apostam que o último não conseguirá levar para a cama uma linda garota loira sentada na mesa da frente. Obviamente, ele consegue o feito, munido de uma rosa e meia dúzia de palavras vulgares. Também é óbvio que a mulher voltará no futuro para alguma revelação previsível sobre os segredos de Walter, o que de fato ocorre.

Enfim, em “Tudo por Dinheiro” quase tudo funciona ao modo mecânico e previsível de um relógio suíço. Qualquer espectador que já tenha visto filmes semelhantes vai reconhecer, inclusive, a visão de mundo conservadora que faz o protagonista da jornada do herói questionar as razões morais e éticas do comportamento assumido para poder subir na vida. Em outras palavras, ninguém precisa ter o dom de Brandon Lang para saber como “Tudo por Dinheiro” vai acabar. Mesmo assim, o filme não é um desastre completo, graças à química entre os atores – mesmo no piloto automático, Pacino é melhor do que 90% dos colegas – e ao tratamento subliminar de um tema pouco explorado em Hollywood: a compulsão.

Aí está o único grande acerto de “Tudo por Dinheiro”. O filme compreende a essência do que é ser compulsivo – não ter forças para lutar contra um impulso visceral – e, com a ajuda de Pacino, pinta o personagem com cores realistas, embora evite embarcar demais na tragédia pessoal dele. O fato é que o retrato pintado do mundo dos apostadores ilegais é interessante, com o glamour dando lugar, aos poucos, a um cenário sombrio, em que milionários deixam a família na miséria em poucos segundos.

O personagem de Pacino, um jogador compulsivo que há 18 anos não aposta, tem uma grande cena – uma reunião num grupo de ajuda chamado Apostadores Anônimos – em que faz um dos célebres discursos eletrizantes que os personagens de Pacino costumam desfiar, a cada filme. Dessa forma, Walter Abrams deixa antever um lado tão amedrontador quanto fascinante, pois percebemos que, de forma sutil, ele desenvolveu a habilidade de transformar a própria vida – o trabalho, o casamento – em um grande jogo, só que camuflado de um jeito que ninguém percebe, nem mesmo ele próprio. O modo como ilustra a sina maldita de todo viciado não transforma “Tudo por Dinheiro” em um grande filme, mas o põe um degrau acima dos similares.

O DVD da Universal é simples e tem um monte de extras. Há um documentário de bastidores, galeria de cenas excluídas e uma entrevista com o personagem que inspirou o protagonista. Além disso, o filme tem imagem (wide anamórfico) e som (Dolby Digital 5.1) bons.

– Tudo por Dinheiro (Two for the Money, EUA, 2005)
Direção: D.J. Caruso
Elenco: Al Pacino, Matthew McConaughey, Rene Russo, Jeremy Piven
Duração: 122 minutos

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