Tudo que o Céu Permite

14/08/2010 | Categoria: Críticas

De estilo exuberante e melodramático, Douglas Sirk faz clássico sobre o preconceito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A cena pode não ser tão conhecida quanto o banho sangrento de “Psicose” ou a coreografia de Gene Kelly pelas ruas encharcadas em “Dançando na Chuva”, mas cinéfilos de carteirinha irão reconhecê-la como tão importante quanto as duas citadas. Ela aparece no terceiro ato de “Tudo que o Céu Permite” (All that Heaven Allows, EUA, 1955). Após terem pressionado a mãe a desistir do namoro proscrito com o jardineiro da família, os filhos adultos de Cary (Jane Wyman) dão à viúva, como presente de Natal, um aparelho de televisão. Explicam à mãe que a TV vai ajudá-la a combater a solidão, proporcionando uma janela para o mundo. O problema é que ela não quer uma janela para olhar. Não quer ver a vida acontecer de dentro de uma redoma. Ela quer amar e ser amada.

Na época do lançamento do filme, pouca gente entendeu a ousadia do dinamarquês Douglas Sirk. O filme utilizava a moldura do melodrama deslavado para fazer, de dentro do mais poderoso ramo da indústria do entretenimento, uma crítica implacável à própria. Aliás, uma dupla crítica – à cultura enlatada das “imitações da vida” vista na TV (a expressão daria nome a outro clássico sobre o mesmo tema, filmado quatro anos depois), e a todos os tipos de preconceitos que impedem as pessoas de viver da maneira que desejam. Para quem sabia ver, o recado de “Tudo que o Céu Permite” era claro como água: nada substitui o poder do sentimento. Viva. Ame. Não deixe que os outros lhe digam como fazê-lo. Uma lição perigosa para uma época em que a censura dava as cartas em Hollywood.

Por causa de filmes como “Tudo que o Céu Permite”, Douglas Sirk se tornou um dos mais influentes cineastas da década de 1950. Radicado nos Estados Unidos por causa da guerra mundial, como tantos outros grandes diretores europeus, Sirk levou uma década para alcançar uma carreira estável e respeitada na indústria do cinema. Nos anos 1950, após muito tempo dando duro como operário de estúdios, ele conseguiu finalmente impor seu estilo extravagante, marcado pelo uso extraordinário do sistema Tecnicolor – as cores explosivas e saturadas fazem com que qualquer filme de Sirk possa ser reconhecido após alguns segundos – e pelo uso das técnicas do melodrama (música abundante, emoções extremadas, lágrimas a rodo) para fustigar as fundações do modo americano de viver.

Em “Tudo que o Céu Permite” Sirk ataca, sem dó nem piedade, a hipocrisia social que impede relacionamentos amorosos entre pessoas de classes sociais diferentes. Cary é a uma viúva na faixa dos 40 anos, de quem se espera que viva de forma recatada e solitária. Ela freqüenta um clube para pessoas de meia-idade e vai a jantares com outras viúvas. Todos imaginam que acabará casando novamente com algum aposentado – tem até um pretendente. É uma vidinha sem graça, e ela sabe muito bem disso. A aparição do jovem Ron (Rock Hudson), um jardineiro bonito e pobre que não liga para a diferença de idade entre os dois, faz a mulher balançar. O flerte, porém, escandaliza tanto a família quanto os amigos dela. Será que Cary terá coragem de lutar contra tudo e contra todos para viver uma nova paixão?

Colocada desta forma, a situação dramática até parece enredo de novela mexicana. A aparência exuberante do filme, repleto de cores fortes – a fotografia de Russell Metty, utilizando uma paleta vibrante, consegue a proeza de transformar o azul em uma cor quente – acentua ainda mais esta impressão, reforçada pela música melodramática. Ocorre que é tudo aparência. Sob a superfície, “Tudo que o Céu Permite” ataca os preconceitos de forma visceral. Além disso, a simplicidade do conflito dramático garante a empatia de qualquer espectador que já tenha sofrido preconceito em alguma relação. É justamente por isso que o longa-metragem se tornou, ao longo do tempo, um dos favoritos de cinéfilos que defendem minorias (gays, lésbicas, negros, muçulmanos etc.).

Do ponto de vista puramente técnico, “Tudo que o Céu Permite” é um deleite. O trabalho de cores chama a atenção instantaneamente, mas o grau de refinamento de Douglas Sirk vai além. O diretor abusa de metáforas inteligentes e, ao mesmo tempo, muito simples – a já citada seqüência da televisão é antológica, e a tomada que encerra o filme, em frente ao janelão panorâmico do celeiro-lar montado pelo jardineiro, deixa claro que o talento de Sirk não é apenas cerebral, mas também intuitivo, e atinge o espectador direto no coração. Não é à toa que Rainer Werner Fassbinder e Pedro Almodóvar tenham homenageado Sirk com tanto fervor, em filmes como “O Medo Corrói a Alma” (que tem uma citação impagável à cena da TV) e “Fale Com Ela”.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Versátil. O disco é magnífico: imagens (widescreen 1.85:1 anamórficas) e áudio (Dolby Digital 2.0) restaurados e um documentário (82 minutos) sobre o diretor.

– Tudo que o Céu Permite (All that Heaven Allows, EUA, 1955)
Direção: Douglas Sirk
Elenco: Jane Wyman, Rock Hudson, Agnes Moorehead, Conrad Nagel
Duração: 88 minutos

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