Tudo Sobre Minha Mãe

04/01/2005 | Categoria: Críticas

Almodóvar faz um melodrama de altíssima qualidade, combinando doses iguais de riso e dor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Tudo Sobre Minha Mãe” (Todo Sobre Mi Madre, Espanha/França, 1999) é uma unanimidade. Todo mundo adora, todo mundo fala bem. O Oscar de melhor filme estrangeiro em 2000 foi importante, mas o longa-metragem de Pedro Almodóvar já era unanimidade antes do prêmio. Talvez o filme não seja um êxito absoluto de bilheteria mundial porque lida com alguns temas polêmicos, em especial com questões de identidade sexual que são uma das marcas registradas do trabalho de Almodóvar. Mesmo assim, fez grande sucesso entre os críticos e na comunidade mais alternativa de cinéfilos. Muita gente comemorou o que se chamou de maturidade tardia do pequeno gênio espanhol.

É um pouco estranho, e paradoxalmente coerente, abordar “Tudo Sobre Minha Mãe” sob esse prisma. Tudo bem sob a superfície o longa-metragem é mais suave, mais tranqüilo, mais confiante que seus trabalhos anteriores. Mas, visto atentamente depois do choque eletrizante que percorreu as platéias entre 1999 e 2000, a co-produção espanhola-francesa não parece assim tão deslocada dentro do universo colorido e esfuziante do diretor. É verdade que Almodóvar alcançou um registro menos histérico, do que o visto em filmes como “Kika” ou “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”. Só que “Tudo Sobre Minha Mãe” ainda consegue reunir, em um enredo original e repleto de personagens exóticos, os temas prediletos do cineasta: maternidade, desejo, ambigüidade sexual.

Pedro Almodóvar é ótimo diretor, mas é melhor ainda roteirista. Apaixonado pelos antigos melodramas de Douglas Silk e Rainer Werner Fassbinder, hipnotizado por velhas divas de Hollywood como Bette Davis, ele sempre consegue dar um jeito de encaixar essas paixões nas tramas dos filmes que dirige. No caso de “Tudo Sobre Minha Mãe”, faz isso duas vezes, uma literal e outra metafórica. Literal, porque o diretor faz a narrativa girar em torno de duas produções da indústria cinematográfica dos anos 1950, “Um Bonde Chamado Desejo” (tanto o filme de Elia Kazan quanto a peça de Tennessee Williams) e “A Malvada”, de Joseph Mankiewicz. Metaforicamente, porque há diversas alusões às duas obras dentro do próprio enredo. É o caso do pseudônimo usado pela atriz Huma Rojo (Marisa Paredes). Ela escolheu a palavra “Huma” como nome artístico porque fumava como uma chaminé, influenciada pela personagem de Bette Davis em “A Malvada”. “Fumo”, em espanhol, é “Huma”.

Quem assiste a “Tudo Sobre Minha Mãe” pode pensar que criar tantas conexões, para conseguir encaixar suas paixões em enredos interessantes, dá muito trabalho ao roteirista Almodóvar. Se dá mesmo esse trabalho todo, não parece. O texto do espanhol é rico, simples e espontâneo como poucos. Almodóvar é um dos raros roteiristas em atividade cujo texto tem a simplicidade e a urgência dos grandes poetas. Suas frases substantivas, sempre divertidas e que evocam imagens aparentemente banais, fazem lembrar um Walt Whitman menos solene. Dê uma olhada no diálogo abaixo, travado entre duas personagens de “Tudo Sobre Minha Mãe”, e diga se não é uma obra-prima:

– Vou te contar uma história. Eu tinha uma amiga que se casou muito jovem. Depois de um ano, seu marido foi trabalhar em Paris, para ganhar dinheiro. Combinaram que ele a levaria quando estivesse bem de vida. Passaram-se dois anos. O marido economizou e veio a Barcelona para abrir um bar. Ela veio para cá, para ficar com ele. Dois anos não é muito tempo, mas o marido havia mudado.
– Ele não mais a amava?
– A mudança era mais física. Ele voltou com um par de seios bem maiores que os dela.
– Oh…
– Minha amiga era muito jovem. Estava em uma terra estrangeira. Não tinha ninguém. Além dos seios, o marido não havia mudado muito…
– Ela acabou o aceitando.
– As mulheres fazem qualquer coisa para não ficarem sós.
– As mulheres são mais tolerantes, mas isso é bom!
– Somos burras…
– …e um pouco lésbicas.
– Sim, mas escute o fim da história. Minha amiga e o seu marido com grandes seios montaram um bar aqui, em Barcelona. Ele passava o dia em um minúsculo biquíni, agarrando tudo que podia, e brigando com ela se ela usasse biquíni, ou mesmo mini-saia. O bastardo! Como pode alguém agir como macho com aqueles par de seios?

O diálogo acima acontece entre Manuela (Cecilia Roth) e Rosa (Penélope Cruz). Manuela é a mulher cuja amiga (na verdade, ela mesma) era casada com o travesti. Ela está em Barcelona devido a uma tragédia. Estéban (Eloy Azorín), seu filho de 17 anos, morreu atropelado. Sozinha, Manuela decidiu que Lola, o pai, que agora trabalha como prostituta em Barcelona, deve saber da notícia. Viaja para lá e cria um novo núcleo de amizade, que inclui o travesti Agrado (Antonia San Juan, que rouba todas as cenas), a atriz Huma e a freira Rosa.

Almodóvar faz um melodrama de altíssima qualidade, combinando doses iguais de tragédia e comédia. Seu filme emociona o tempo todo; faz rir e chorar em vários momentos, muitas vezes ao mesmo tempo. Impressiona, ainda, a maneira como ele coloca o problema da identidade sexual dentro do filme. Os personagens de Almodóvar, e não apenas nesse trabalho, parecem transitar com muita facilidade entre o feminino e o masculino, sem polaridades. Quase todas as personagens têm essa característica. Rosa é freira, mas faz sexo. Huma é lésbica, mas curte homens (“há muito tempo que não chupo um p…”, reflete, a certo momento).

Lola, o travesti machão que não pode ver uma mulher gostosa, é um exemplo fantástico. Seria facílimo transformá-la em uma caricatura, uma piada, mas o tratamento carinhoso que o cineasta lhe reserva faz com que Lola seja um personagem de carne e osso, complexo, um ser humano do século XXI. Chamar Lola de homossexual seria simplificá-lo em excesso, um defeito que 100% dos cineastas possuem. Não Almodóvar. Seus filmes são simples, mas profundos. Eles refletem sobre a condição humana usando lentes cor-de-rosa, mas com ironia e sem um pingo de autocomiseração. Ver Lola como pansexual é mais adequado; só Almodóvar tem a coragem de fazê-lo. Gilberto Freyre ficaria orgulhoso de seu rótulo se pudesse ver os filmes do diretor espanhol.

O DVD brasileiro do longa-metragem contém apenas o filme, com opções de áudio em formato Dolby Digital 2.0 (espanhol e português) e imagem com corte original widescreen.

– Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre, Espanha/França, 1999)
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Antonia San Juan, Penélope Cruz
Duração: 101 minutos

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