TV Pirata

25/03/2005 | Categoria: Críticas

Programa humorístico lendário ganha compilação com quase oito horas em DVD duplo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Barbooosa!”. Qualquer indivíduo com idade entre 30 e 40 anos é incapaz de evitar um sorriso quando ouve essa simples palavra. Barbosa (Ney Latorraca), o velhinho que só é capaz de repetir a última palavra dita por um interlocutor, ou dizer o próprio nome (com ênfase no ó), é o símbolo máximo de um dos programas humorísticos mais lendários da TV brasileira, o lendário “TV Pirata”. Exibido pela TV Globo entre 1988 e 1990, com um breve retorno em 1992, o humorístico passou à história como um dos momentos mais criativos e ousados a aparecer em cadeia nacional de televisão no Brasil. Nostálgicos do programa e curiosos em geral ganham a chance de saber do que se trata com o DVD duplo que a Globo joga no mercado.

São quase oito horas de esquetes cômicos com alguns dos melhores momentos dos dois anos de duração do programa. A Globo caprichou na seleção e incluiu lá a saga completa da sátira “Fogo no Rabo”, brincadeira com a novela “Roda de Fogo”, de 1986, que lançou a carreira do querido Barbosa (que, depois, ganharia um talk show, hilariante no começo e repetitivo depois de alguns programas). Há ainda diversos episódios de outras séries de igual quilate, como a impagável “Campo Rural” e a engraçadíssima “TV Macho”, que popularizou outro ícone do programa, Zeca Bordoada (Guilherme Karan), aquele sujeito de óculos Ray Ban que mastigava um palito de fósforo e estava sempre pronto para dar um sopapo em que duvidasse de sua masculinidade.

Para começar, não existe sombra de dúvida quanto à qualidade do humor praticado pelo “TV Pirata”. A equipe reunida pelo diretor pernambucano Guel Arraes é inquestionável: Luís Fernando Veríssimo, Mauro Rasi, Pedro Cardoso, Patrícia Travassos e toda a turma do “Casseta e Planeta” escreviam para o programa, capitaneados por Cláudio Paixa, ex-editor do saudoso “Pasquim”. Se atrás da tela o time era de craques, na frente dela o negócio não era menos refinado. Além de Latorraca e Karan, havia Diogo Vilella, Marco Nanini, Débora Bloch, Regina Case, Luiz Fernando Guimarães e mais um monte de gente boa. Junta, essa turma produziu uma espécie de versão nacional do Monty Python Flying Circus, um programa semanal (era exibido às terças-feiras) de esquetes alucinados, nonsense de alta qualidade. Biscoito fino para as massas, como se dizia na época.

Por causa da excelente qualidade do programa e também de sua curta duração, o que o impediu de se tornar enfadonho e repetitivo, o “TV Pirata” virou mito. É difícil encontrar alguém que, 10 anos depois do fim do programa, tivesse alguma palavra negativa para falar dele. O DVD é uma excelente chance de conferir se a memória dos espectadores é fiel. Afinal de contas, a qualidade de “TV Pirata” era tão impecável quanto a lembrança que temos dela? Reposta: sim. É difícil imaginar que outro programa de esquetes curtas teria qualidade suficiente para encher 461 minutos de piadas ininterruptas sem cansar.

Para não dizer que estamos diante de um produto perfeito, a qualidade técnica do pacote não é lá essas coisas. Para começar, a equipe responsável pela compilação espremeu quase quatro horas de programa em cada disco. Para isso, utilizou uma taxa de transferência(conhecida como “bit rate”) extremamente baixa, variando entre 3 e 4. Um filme normal estaciona em torno de 7, com picos de 8. Na prática, isso significa má qualidade de imagem. Se você tem uma televisão maior que 29 polegadas, vai perceber que em certos momentos a imagem fica granulada e um pouco fora de foco. O ideal é que o pacote contivesse os mesmos 461 minutos colocados em três, ou até quatro, discos.

Em segundo lugar, a navegabilidade também é fraca. O usuário pode clicar num botão “assistir tudo”, o que é ótimo, mas o menu se divide em somente quatro partes, e cada uma contém entre 45 e 75 minutos de esquetes diversos, distribuídos sem nenhuma ordem aparente. O problema: como localizar um esquete específico? Não existe uma maneira para isso. Caso você deseje localizar os episódios de “Fogo no Rabo”, por exemplo, vai ter que colocar os discos e segurar o dedo na tecla Fast Forward, porque o pacote não informa.

Para completar, a qualidade de áudio não é das melhores (o formato é Dolby Digital Estéreo, apenas dois canais); não há documentários ou comentários em áudio dos envolvidos, o que seria uma boa; e o preço é muito superior à média praticada pelo mercado de DVDs no Brasil. As lojas que vendem o pacote mais barato cobram pelo menos 50% a mais do que custa um disco duplo normal.

Mas vale a pena. “TV Pirata” é um disco que qualquer pessoa que foi adolescente na década de 1980 vai querer ter em casa. Se você tem menos de 30 anos, talvez seja melhor alugar, porque uma parte das piadas ficou datada – há inúmeras menções à Assembléia Constituinte de 1988, à hiper-inflação que o Brasil vivia na época e até a propagandas famosas da época. Mas se você tem mais de 30, é impossível ver Diogo Vilella zoando a propaganda chique da Ferreira Guimarães (num quadro do “Campo Rural”) sem gargalhar alto. Para assistir com os amigos da época, uma cerveja gelada e pipoca bem salgada.

– TV Pirata (Brasil 2005)
Direção: Guel Arraes
Elenco: Diogo Vilella, Débora Bloch, Luiz Fernando Guimarães, Guilherme Karan
Duração: 461 minutos

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