Twin Peaks

17/10/2004 | Categoria: Críticas

Caixa impecável de DVDs resgata minissérie revolucionária da TV norte-americana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O lançamento da primeira temporada da aclamada série “Twin Peaks” (EUA, 1990) em DVD, no Brasil, é um evento que promete se tornar um marco da história do formato digital em terras tupiniquins. A Paramount superou as espectativas para um lançamento um tanto obscuro, de uma série cuja popularidade é maior entre cinéfilos e intelectuais do que no meio do povão. O seriado de David Lynch (“Cidade dos Sonhos”), visto por muita gente boa como a melhor coisa já exibida na TV norte-americana, chega em uma edição superior ao excelente pacote disponível nos EUA.

É simples: a caixa brasileira, com quatro discos, tem exatamente o mesmo material suplementar (são 110 minutos de entrevistas com o elenco, com o co-roteirista Mark Frost, com críticos de cinema e até com a verdadeira dona da lanchonete celebrizada pelo programa). Mas tem um trunfo a mais – e que trunfo: o episódio-piloto da série, com 93 minutos, até hoje não foi lançado nos EUA. Para o Brasil, a Paramount conseguiu os direitos do longa-metragem e o incorporou ao primeiro disco do pacote.

O piloto faz enorme diferença. Afinal, nele é delineado todo o esqueleto de narrativa que a série vai seguir. Um novo dia amanhece na pacata cidade de Twin Peaks, perto da fronteira entre EUA e Canadá. Parece ser um dia normal, exceto por um detalhe: há um cadáver enrolado num saco plástico na beira da praia. Trata-se de Laura Palmer (Sheryl Lee), a rainha do colégio local, uma das garotas mais belas e queridas da redondeza. Como o crime ocorreu numa área de fronteira, o caso vai para as mãos do FBI, que envia um agente especial para Twin Peaks.

A chegada de Dale Cooper (Kyle MacLachlan) altera o cotidiano da cidade. No piloto, o espectador fica conhecendo a maior parte dos habitantes, cujo dia-a-dia vai acompanhar, através das investigações de Cooper, durante toda a série. Aos poucos, vemos que a aparência pacata de Twin Peaks é somente isso: uma aparência, apenas superficial. Por trás do véu de cidadezinha exemplar, cada morador esconde um segredo. Traições, mentiras, ciúmes e paixões escondidas são a faceta mais normal desses segredos, mas eles podem incluir revelações sexuais, drogas, perversões e todo o tipo de bizarrice.

David Lynch, que criou a galeria de personagens e coordenou o trabalho com o roteiro, exercita seu estilo personalíssimo de direção. Há muito de “Veludo Azul” (filme anterior do diretor) na minissérie. “Twin Peaks” parece ter herdado as várias e ricas camadas de significado da produção passada de Lynch: o panorama da típica cidade idílica nos Estados Unidos, cuja tranqüilidade só existe na superfície; o foco nos personagens adolescentes; a importância dos sonhos para o andamento, um tanto irregular, da trama; a nostalgia dos anos 1950 (algo evidente na bela trilha sonora com climas etéreos e baquetas-escovinha de Angelo Badalamenti); a fauna exótica de personagens misteriosos (um homem sem braço de identidade desconhecida, uma mulher que anda com um tronco como se fosse um bebê).

David Lynch conseguiu uma proeza na série: manter o público ligado na trama, durante um ano inteiro, sem revelar praticamente nada sobre o fio condutor do enredo. Quem matou Laura Palmer? Essa era a pergunta na boca dos espectadores durante toda a temporada de 1990. Ocorre que Lynch não está muito interessado em respondê-la. Ele usa a investigação como mera desculpa para ir fundo no seu trabalho autoral: jogos de cores instigantes (com muito uso de sombras, vermelhos e azuis), sonhos sem sentido, diálogos enigmáticos. A intenção é criar climas assustadores.

“Twin Peaks” tem passagens perturbadoras, embora não vá agradar àqueles que buscam no cinema um mero passatempo lógico, com começo, meio e fim. A série soa como uma mistura de “Beleza Americana” (de Sam Mendes) com “O Selvagem da Motocicleta” (Francis Ford Coppola), mas montado à maneira onírica de um “Cidade dos Sonhos”, do próprio Lynch. Vale acrescentar que a série teve uma segunda temporada e um total de 28 episódios, antes de ser cancelada. Um longa-metragem intitulado “Os Últimos Dias de Laura Palmer” foi lançado em 1992, para encerrar o universo criado por Lynch de uma vez por todas.

A caixa brasileira contém, além do piloto, mais sete episódios. A temporada regular possui som Dolby Digital 5.1, ao contrário do piloto (DD 2.0, com nível de volume mais baixo). O enquadramento é 4 x 3, ou fullscreen. Todos os sete episódios possuem um comentário em áudio de membros da equipe e podem ser vistos também com uma breve introdução, feita especialmente para cada um, da enigmática Senhora do Tronco. E tudo está legendado em português. A Paramount caprichou mesmo.

– Twin Peaks – 1ª Temporada (Twin Peaks – Firts Season, EUA, 1990)
Direção: David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn
Duração: 47 minutos por episódio; 93 minutos (piloto); 110 minutos (extras)

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